10/08/2026
QUANDO AS ESTRADAS MATAM COMO UMA GUERRA
Porque a Sinistralidade Rodoviária Deve ser Reconhecida como uma Ameaça à Segurança Nacional
Por: Hélder Cafala - Especialista em Defesa e Segurança Nacional
Há tragédias que chocam o país durante alguns dias. As imagens circulam, as manchetes sucedem-se, as famílias choram os seus mortos e, pouco tempo depois, tudo parece voltar à normalidade. Mas a verdade é que a normalidade nunca regressa para quem perdeu um pai, uma mãe, um filho ou um irmão.
Foi exactamente isso que voltou a acontecer recentemente no Cuanza-Sul, quando um autocarro de passageiros colidiu com uma motorizada de três rodas que transportava combustível. A violência do impacto provocou uma explosão de grandes proporções que tirou a vida a dezenas de cidadãos angolanos e deixou muitos outros gravemente feridos.
Este episódio não deve ser tratado apenas como mais um acidente de viação.
Ele deve ser encarado como um sério alerta nacional.
A verdade é dura, mas precisa de ser dita: AS ESTRADAS ANGOLANAS ESTÃO A MATAR EM SILÊNCIO.
Enquanto concentramos grande parte da nossa atenção nas ameaças tradicionais à segurança, como o terrorismo, o crime organizado ou os conflitos armados, uma ameaça permanente continua a ceifar vidas todos os dias, diante dos nossos olhos.
Segundo dados divulgados pelas autoridades nacionais, a sinistralidade rodoviária continua entre as principais causas de morte em Angola, sendo frequentemente apontada como a segunda causa de mortalidade no país. São milhares de vidas perdidas, milhares de famílias destruídas e enormes prejuízos económicos e sociais todos os anos.
Perante esta realidade, impõe-se uma reflexão que talvez nunca tenha sido colocada com a profundidade necessária:
NÃO SERÁ A SINISTRALIDADE RODOVIÁRIA UMA VERDADEIRA AMEAÇA À SEGURANÇA NACIONAL?
Na nossa opinião, a resposta é claramente afirmativa.
A Lei n.º 15/24, de 10 de Setembro, ao definir a Segurança Nacional numa perspectiva ampla, ultrapassa a visão tradicional centrada exclusivamente na defesa militar. A segurança nacional consiste igualmente na protecção da vida humana, da estabilidade social, da economia, das instituições e do funcionamento regular do Estado.
Ora, quando um fenómeno provoca milhares de mortos, incapacita cidadãos em idade activa, sobrecarrega hospitais, reduz a produtividade económica, aumenta a pobreza e gera insegurança permanente, deixa de ser apenas um problema de trânsito.
Passa a ser um problema estratégico.
Passa a ser uma questão de Segurança Nacional.
Existe, porém, um elemento que merece particular atenção.
Hoje, em praticamente todas as províncias angolanas, milhares de cidadãos dependem diariamente dos motociclos para trabalhar. Os conhecidos kupapatas, designação popular em muitas regiões do país para os mototaxistas, prestam um serviço importante de mobilidade, sobretudo onde os transportes públicos ainda não conseguem responder às necessidades da população.
É importante deixar claro que O PROBLEMA NÃO É O MOTOCICLO, NEM A PROFISSÃO DE MOTOTAXISTA.
O problema reside na utilização irregular e, muitas vezes, ilegal destes veículos por uma parte dos seus operadores.
Infelizmente, continuam a verificar-se situações como:
• condução sem carta;
• circulação sem matrícula;
• ausência de seguro obrigatório;
• excesso de passageiros;
• transporte de crianças sem qualquer protecção;
• circulação sem capacete;
• excesso de velocidade;
• ultrapassagens perigosas;
• circulação em contramão;
• desrespeito pelos semáforos;
• transporte de cargas incompatíveis com o veículo;
• transporte ilegal de combustível;
• transporte de botijas de gás;
• condução sob efeito de álcool;
• utilização de motociclos sem condições mecânicas.
Cada uma destas infracções representa um risco.
Quando várias delas acontecem em simultâneo, deixam de constituir simples infracções rodoviárias para se transformarem numa ameaça permanente à vida humana.
O acidente do Cuanza-Sul ilustra precisamente esta realidade.
Uma motorizada de três rodas transportava combustível de forma incompatível com os requisitos de segurança. Bastou uma colisão para provocar uma explosão devastadora.
Não foi apenas uma fatalidade.
Foi a consequência de um conjunto de falhas que envolveram fiscalização, prevenção, educação rodoviária e cumprimento da lei.
É precisamente por isso que Angola precisa de dar um novo passo.
Assim como o Estado possui estratégias nacionais para enfrentar outras ameaças, deve igualmente desenvolver uma verdadeira Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária integrada no Sistema de Segurança Nacional.
Isso significa investir mais na prevenção do que na reacção.
Significa reforçar a fiscalização inteligente.
Significa formar e certificar os mototaxistas.
Significa combater o transporte ilegal de combustíveis.
Significa promover educação rodoviária desde a escola primária.
Significa utilizar tecnologia para monitorizar os principais corredores rodoviários.
Significa envolver todos os sectores do Estado, porque este problema não pertence apenas à Polícia Nacional ou ao Ministério dos Transportes.
Pertence a todos.
Mais importante ainda, pertence a cada cidadão.
Nenhuma lei será suficiente se continuarmos a aceitar como normal aquilo que nunca deveria ser normal.
Não é normal conduzir sem habilitação.
Não é normal transportar cinco pessoas numa motorizada.
Não é normal transportar combustível em recipientes improvisados.
Não é normal ignorar o capacete.
Não é normal colocar diariamente vidas em risco.
A cultura da segurança começa em cada decisão individual.
Talvez tenha chegado o momento de Angola reconhecer oficialmente aquilo que a realidade já demonstra há muitos anos.
As nossas estradas também são um espaço de defesa da vida.
Também são um espaço de segurança.
Também são um espaço de protecção da Nação.
Porque uma Nação não se enfraquece apenas quando enfrenta conflitos armados.
Uma Nação também se enfraquece quando perde, todos os dias, os seus cidadãos mais produtivos em acidentes que, na sua grande maioria, poderiam ser evitados.
QUE A TRAGÉDIA DO CUANZA-SUL NÃO SEJA APENAS MAIS UM EPISÓDIO DOLOROSO DA NOSSA HISTÓRIA. QUE SEJA O MOMENTO EM QUE ANGOLA DECIDIU OLHAR PARA AS SUAS ESTRADAS COMO UM VERDADEIRO ESPAÇO DE SEGURANÇA NACIONAL. PORQUE UMA NAÇÃO FORTE NÃO É APENAS AQUELA QUE PROTEGE AS SUAS FRONTEIRAS; É, ACIMA DE TUDO, AQUELA QUE PROTEGE A VIDA DO SEU POVO. ENQUANTO UM ÚNICO ANGOLANO CONTINUAR A MORRER POR CAUSAS EVITÁVEIS NAS NOSSAS ESTRADAS, HAVERÁ UMA BATALHA QUE O ESTADO, AS INSTITUIÇÕES E CADA CIDADÃO AINDA TERÃO DE VENCER. DEFENDER ANGOLA COMEÇA, TAMBÉM, POR SALVAR VIDAS NAS ESTRADAS.