19/08/2026
Os marcos principais de Aceguá
No centro de Aceguá, próximo à nascente do Arroio da Mina, situam-se dois grandes marcos fronteiriços. Existe uma confusão comum sobre eles: pela aparência, muitos acreditam que o marco "de trás" (próximo à nascente) seja o mais antigo e que o de base redonda seja o mais moderno. A realidade porém, é o oposto: o monumento aparentemente mais antigo é, na verdade, o mais novo. Além disso, vale destacar que não há um "marco brasileiro" e um "uruguaio" ali — ambos estão posicionados exatamente sobre a linha divisória.
O monumento de base redonda, é o Marco Principal 8-P. Ele foi erguido em 1858, no período do Império do Brasil, como decorrência do Tratado de Limites de 1851 — motivo pelo que alguns marcos dessa mesma leva (como o 12-P e o 13-P) são chamados informalmente em outras localidades de "marcos imperiais". Para materializar essa delimitação, as comissões instalaram 13 marcos principais e 49 intermediários entre 1856 e 1862.
Já o marco com várias placas de bronze e sem pintura, é o Marco Monumental Rio Branco, inaugurado em 9 de maio de 1915. Ele remete aos tratados e convenções de 1909 e 1913, que redefiniram as fronteiras na região da Lagoa Mirim. Uma das placas de bronze nesse marco é a efígie de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco (1845-1912), célebre diplomata brasileiro que tratou muitas das questões de fronteira.
A Comisión Patriótica de Cerro Largo instalou placas informativas em diversos pontos históricos de Aceguá, mas as duas posicionadas em frente aos marcos contêm inconsistências. A placa colocada junto ao Marco Rio Branco, por exemplo, afirma erroneamente que ele foi erguido em 1853. Embora os textos pareçam trocados entre os monumentos, a data de 1853 tampouco se aplica ao Marco 8-P. Isso porque a Ata Nº 2 da Comissão de Demarcação de Limites só estabeleceu em 6 de abril de 1856 que o Arroio da Mina seria o divisor natural da fronteira — após considerar outras opções, como a Cañada de los Burros e o Arroio Minuano. Como a definição do trecho ocorreu apenas em 1856, é impossível que o marco tenha sido erguido três anos antes na nascente da Mina.
Além disso o Relatório do Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, Angelo Moniz da Silva Ferraz (equivalente ao governador do estado na época), de 5 de novembro de 1858, conta sobre os marcos na região de Aceguá:
"Os trabalhos do assentamento dos marcos já começarão desde o verão passado [...] se collocárão os seguintes: um na barra do rio
Jaguarão [5-P] outro na do Jaguarão-Chico ou Guabejú [6-P], e 3 outros se estão levantando, um na foz do arroio da Mina [7-P], outro nas pontes do mesmo junto á casa de João Campon [8-P], e outro no serro da Carpinteria [9-P]. Estes dous últimos determinão a linha dos campos do Aceguá, sendo somente precizo levantarem-se alguns dos pequenos entre esses dous para que essa linha de campo fique visível."
Nesse trecho considere o português da época, onde verbos no passado (pretérito imperfeito) terminados hoje em "am", na época terminavam em "ão", igual a conjugação no futuro. Deve-se levar em conta as outras palavras do contexto para fazer a diferenciação.
A data de construção do Marco 8-P é estimada em 1858 com base nesses documentos. A construção iniciou no verão entre 1857 e 1858, e provavelmente estava concluído quando o relatório do presidente da província era assinado, pois em 9 de novembro de 1858, Aceguá foi oficialmente ocupado pelo Império através das tropas do brigadeiro João Propício Menna Barreto.
Em suma: o marco que aparenta ser mais velho é, na prática, meio século mais recente! Em uma próxima postagem, abordaremos a história das delimitações fronteiriças e como todo o território de Aceguá pertenceu ao Uruguai até 1851 perante a lei, e até 1858 na prática.