13/05/2026
A Prefeitura encaminhou à Câmara Municipal um projeto para alterar a denominação do Paço Municipal, sede administrativa do Executivo. O detalhe que transforma a proposta em algo digno de espanto político é que o prédio já possui nome: Paço Municipal Juscelino Kubitschek, atraves da Lei Municipal nº 766/1982.
Sim, Juscelino Kubitschek. O ex-presidente da República, ex-governador de Minas Gerais, ex-senador, ex-deputado federal, ex-prefeito de BH, médico, oficial da Policia Militar mineira, fundador de Brasília e um dos maiores personagens da história política mineira e nacional aparentemente virou um obstáculo burocrático a ser removido por conveniência administrativa.
A iniciativa não apenas causa perplexidade jurídica — já que existe legislação municipal disciplinando alterações dessa natureza — como também demonstra um curioso desapego à memória institucional do município. Afinal, o prédio foi inaugurado sob essa denominação pelos ex-prefeitos Jamil Nicolau e João Carlos Pedreira de Freitas, com cerimônia solene, placa oficial e bênção do Monsenhor Ornellas. Tudo isso, ao que parece, agora pode ser tratado como mero detalhe decorativo.
Evidentemente, a proposta não atinge apenas o nome de JK. Ela acaba lançando uma sombra sobre toda a construção histórica daquele momento: ex-prefeitos, vereadores da época, lideranças religiosas e a própria memória administrativa do município passam a ser tratados como peças facilmente descartáveis, substituíveis conforme o humor da gestão da vez.
A ironia ganha contornos ainda mais curiosos quando se lembra que a reforma do prédio conta justamente com recursos públicos federais — dinheiro oriundo da mesma estrutura estatal que JK ajudou a consolidar e modernizar durante sua trajetória política. Nada mais simbólico do que utilizar verba federal para retirar da fachada o nome de um dos maiores defensores do desenvolvimento nacional.
Mas talvez o ponto mais emblemático seja outro: a Prefeitura parece ter encontrado tempo e energia para travar uma cruzada contra uma placa histórica enquanto Arceburgo convive com problemas muito mais concretos e urgentes. O caso do Loteamento Gimar Mello é um exemplo evidente. Mais de 190 famílias aguardam há mais de sete anos pela regularização e entrega de seus lotes. Ainda assim, a prioridade administrativa parece ser uma batalha nominal contra o Paço JK.
O projeto também escancara um certo amadorismo político e jurídico. Isso porque a Lei Municipal nº 1.610/2011 aprovada na gestão Toninho da Bolsa estabelece que alterações de denominação dessa natureza devem ser precedidas de referendo. Ou seja: além da controvérsia histórica e simbólica, existe ainda um possível atropelo legislativo no caminho.
A proposta de substituir o nome de JK pelo de um ex-prefeito causa ainda mais estranheza quando se observa que o homenageado já possui reconhecimento público no município, dando nome à principal e mais importante via da Vila Progresso. O mais coerente — e verdadeiramente respeitoso com sua memória e com seus familiares — seria que a Prefeitura direcionasse esforços para solucionar demandas concretas ligadas ao legado de seu nome, empenhando-se também na regularização do Loteamento Alfeu Lippi. Isso sim representaria uma homenagem legítima, útil à população e compatível com a relevância histórica de quem se pretende enaltecer.
Será que o Paço JK será apenas mais um capítulo da já tradicional política municipal de “reciclagem de homenagens”, onde nomes históricos vão sendo convenientemente apagados conforme o improviso administrativo da vez? Afinal, Arceburgo já assistiu ao sumiço simbólico das referências a Dona Zé, Dona Alice Andrade Terra e Professora Inês Perez Fernandes Moraes, mulheres ilustres cuja memória parece ter perdido espaço nos prédios públicos.
No fim, a sensação que f**a é a de que Arceburgo entrou numa fase administrativa peculiar, onde a solução dos grandes problemas pode esperar, mas a substituição de nomes históricos virou pauta urgente. E Juscelino Kubitschek, responsável por erguer Brasília em meio ao cerrado, agora corre o risco de não conseguir permanecer nem na fachada da Prefeitura de Arceburgo.