18/07/2026
Sara Araujo | Antirra***ta| Antifacista | Feminista
Para João Bosco
Este post não é um ataque ao artista João Bosco, músico por quem tenho um grande apreço, afinal, junto com Aldir Blanc, ele nos entregou músicas que se tornaram hinos de resistência contra a ditadura militar.
Mas sua fala ao defender a violência contra a mulher em uma de suas músicas gera não só incômodo em quem ouve, mas, sobretudo, mostra que um homem, por mais que se diga desconstruído, continua carregando o pilar patriarcal.
Não, João, versos que defendem a violência contra a mulher não são liberdade poética. Na arte não cabe tudo. Não cabe.
Vivemos em um país em que a violência contra a mulher é endêmica; milhares morrem vítimas da violência de gênero.
Gol Anulado, composta há cerca de 50 anos, traz o verso “bater de cinto até cansar”. Isso é, sim, um pesadelo.
Em que pese o fato de que em 1976 a violência de gênero não era tipificada e o instituto da mulher casada (como dependente) só tenha deixado de existir em 1977, ano em que as mulheres finalmente puderam se desquitar e se divorciar, a estimativa é que, de 1976 a 2026, entre 25 milhões e 30 milhões de mulheres tenham sofrido violência doméstica no Brasil.
Se a música falasse de uma mulher batendo em um homem com um cinto até cansar, o discurso seria o mesmo, João?
Ah, seu João... Não, quem discorda do seu discurso não precisa ser medicalizado. Mas o senhor, no auge dos seus 80 anos, precisa rever seu pensamento sobre a violência contra a mulher.
A arte não é neutra. Ela é um construto social, feita por pessoas que têm como objetivo expressar seu pensamento e sua visão de mundo.
A arte pode servir para revolucionar, e o senhor sabe bem disso, afinal, cantou isso muito bem em O Bêbado e a Equilibrista.
Em mulher não se bate nem com uma flor, quem dirá com um cinto.
Nem na música, nem na vida, à violência contra a mulher não cabe.