13/06/2020
A comunidade acadêmica da UNIPAMPA luta em defesa da educação pública, laica, gratuita e de qualidade!
Os alunos de Licenciatura em Ciências Humanas - Campus São Borja destinaram a comissão de curso uma carta pontuando as motivações para se posicionarem contra o calendário proposto pela reitoria, onde o ensino remoto é considerado e preocupada a toda comunidade acadêmica pelo seu caráter de exclusão dos mais vulneráveis, que não possuem acesso as ferramentas necessárias.
Mesmo se tratando de uma "proposta", a mesma já se encontra em andamento, e somos frequentemente surpreendidos com oficios e portarias, pesquisas e consultas, sem uma ampla discussão com a base da universidade.
Todos queremos voltar a estudar, mas de maneira segura e não excludente!
Leia a carta:
"Prezada comissão de curso,
Venho por meio desta, compartilhar com todos os membros da comissão de curso de Licenciatura em Ciências Humanas o posicionamento dos discentes deste curso sobre a proposta de retorno às atividades acadêmicas. Construído a partir das documentações emitidas nas últimas semanas, tanto pela reitoria da UNIPAMPA, como por organizações atreladas a esta universidade, sendo elas o ANDES-SN, membros do CONSUNI, SESUNIPAMPA, e diversos coletivos estudantis de universidades de todo Brasil.
O intuito deste documento é primeiramente listar as motivações que levaram os discentes a se posicionar de maneira contrária ao calendário proposto pela reitoria e também anexar os relatos dos alunos que se sentiram à vontade para contribuir com este debate. Devido ao momento pandêmico (o que dificulta totalmente o debate amplo sobre o tema), por meio das redes sociais formaram enviados os posicionamentos dos alunos, depois compilados nesse documento, visando também nortear a posição da representação discente do curso de Ciências Humanas.
Dando início aos argumentos elaborados de maneira coletiva, com base no ideal de educação pública, de acesso à educação, de garantia de direitos e de não precarização do trabalho docente e do processo de ensino-aprendizado, consideramos que:
a) Independente da nomenclatura utilizada (EaD, Tele-Aula ou Ensino Híbrido), qualquer uma das alternativas não corresponde ao processo de ensino ao qual os discentes fizeram suas matrículas, tendo em vista que todos nós adentramos em uma universidade federal de ensino presencial. Qualquer uma das nomenclaturas utilizadas não descartam as principais preocupações: a dificuldade financeira que acarreta na falta de materiais necessários para a modalidade sugerida, a fomentação das desigualdades sociais, e a própria precarização do ensino. Nesse sentido, questionamos: Todos terão acessos às aulas? A universidade possui condições de suprir as necessidades dos alunos que não possuem computador e acesso à internet? Não seria uma negação de direitos aderir ao calendário e excluir parte dos alunos? Nesse caso, ressaltar que tais modalidades são práticas defendidas e organizadas massivamente por instituições privadas (como a Lemann) não seria adentrar ao projeto de destruição da educação pública que há anos enfrentamos?
b) Os índices de evasão calculados e debatidos por essa comissão de curso se apresentam enquanto uma problemática a qual não conseguimos explicar totalmente, e mesmo com os auxílios prestados pelo N**E, através de pesquisas e o comparecimento do mesmo nas reuniões de comissão de curso, ainda é uma questão não resolvida. Questionamos: É possível que esse problema cresça devido as modalidades sugeridas?
c) A proposta não considera a quantidade de alunos em situação de vulnerabilidade social. Neste caso, atentamos para o fato de em nenhum momento ter sido feita uma pesquisa por parte da UNIPAMPA para tomar conhecimento da situação real dos alunos enquanto condições de subsistência: estão se alimentando de maneira digna? Houve ampliação de assistência estudantil? Todos os alunos que não residem no município da universidade conseguiram retornar para suas residências (se assim fosse sua vontade)? Quais foram os impactos do fechamento do RU na vida dos estudantes? Como está a saúde mental dos discentes em meio a pandemia? Se não pensada essas questões, como discutir sobre a volta às aulas? Entendemos que a proposta não considera a realidade social dos discentes da UNIPAMPA.
d) Não houveram esclarecimentos sobre as disciplinas de estágio, tendo em vista que somos um curso de licenciatura e é impensável que o exercício do estágio seja na mesma modalidade da proposta da reitoria. O estado do Rio Grande do Sul prevê um retorno das aulas em setembro, mas deixa claro que é uma previsão. Considerando que a pandemia ainda não apresenta sinais de contenção ou sequer de diminuição da propagação do vírus, como essa possibilidade de torno pode ser considerada real? Se não for possível concluir as cadeiras de estágio, qual a razão para um retorno precoce, considerando que o tempo de formação dos alunos só será concluído após esse processo?
e) Considerando também que somos um curso de licenciatura, e que além dos estudos das disciplinas de sociologia, história, filosofia e geografia, estudamos educação, e nesse sentido, diversas vezes criticamos em sala de aula as modalidades que excluem parte da população ou precarizam o processo de ensino-aprendizado. Compilando os ensinamentos e debates que tivemos no decorrer do curso, é contraditório que viemos a considerar algo que vai contra os princípios de uma educação pública de qualidade. O que faz com que questionamos: estamos sendo coerentes com a teoria de ideal de educação que estudamos durante o curso? Ou iremos assumir um caráter excludente a fim de sermos meramente “produtivos”?
f) Pensando a questão de produtivismo que vivemos no cotidiano das universidades, não seria esse, o único fator sendo considerado no momento para o retorno precoce das atividades? Visando atender as expectativas do MEC que hoje se encontra na mão de reacionários comprometidos com o entreguismo e privatização dos bens públicos, não estaremos alimentando um produtivismo vazio e muito distante da real construção do conhecimento, apenas com a finalidade de atender a números? Esse fator, não seria mais um agravante no cenário de adoecimento psíquico que já enfrentamos de maneira massiva em nosso campus e possivelmente nos demais campus da UNIPAMPA?
g) Neste ponto, atentamos para o fato da proposta de tal calendário acadêmico ser feita de cima para baixo, sem discussão com a comunidade acadêmica (a base de toda universidade) e nesse sentido ser uma proposta antidemocrática e de certa forma impositiva (visto que apresenta 5 etapas, e já coloca em funcionamento a 1° antes da discussão com a base). As pesquisas elaboradas pela instituição, comissões de curso e organizações da UNIPAMPA, até o momento, foram respondidas por um número muito pequeno se considerado o número total de alunos, o que comprova que o acesso a internet não é para todos. Perguntar sobre o acesso à internet, por meio da internet, não irá trazer seriedade para a questão e ainda apresenta alguma ironia, o que nos faz pensar que mesmo com uma nova reitoria as práticas ainda são as mesmas, e a comunidade acadêmica não é prioridade, mas sim a atualização de números e a apresentação de resultados.
h) Por último, questionamos se haverá garantia (no caso de adesão ao calendário e a modalidade) de que a metodologia funcione, ou seja: todos terão internet de qualidade? Eletrônicos de qualidade? A comunicação irá funcionar? Não haverá esvaziamento de debates, levando em consideração a pouca participação via internet e os imprevistos causados pela mesma, como a queda de conexão e muitas vezes a dificuldade de compreensão devido a áudios com ruídos e etc? Considerando tais colocações, quais seriam os resultados finais desta adesão? Então, é válido ressaltar, que possuir acesso às redes sociais não é o mesmo que possuir acesso à internet de qualidade para meios de estudo e pesquisa.
Colocadas nossas preocupações, nos colocamos em defesa da vida de todos e todas como prioridade neste momento de pandemia, onde ninguém pode ser deixado para trás ou que venha a sofrer com uma decisão equivocada por parte da reitoria da UNIPAMPA, e acreditamos não ser necessário adentrar a um processo danoso à educação pública para concluir que ele não será eficaz e não contemplará a todos de maneira igual.
Nossa preocupação também se estende ao trabalho docente (tendo em vista que estudamos para essa profissão), que já tão desvalorizado, possivelmente terá seu trabalho dobrado e os resultados possivelmente frustrantes, ou seja, é preciso considerar também o adoecimento docente oriundo da sobrecarga que já existe.
Certos de que a posição dos alunos será considerada, e que esta comissão de curso preza e luta pela educação pública, laica, gratuita e de qualidade para todos e todas, acreditamos que sairemos com uma posição contrária a proposta excludente da reitoria, pensaremos na vida acima do produtivismo e defenderemos os mais vulneráveis para que não sofram ainda mais durante seu processo de ensino."
Que seja considerado todos os posicionamentos e questionamentos e elaborado uma nova proposta pela reitoria!