24/02/2023
Penitênciária Adriano Marrey
Txt e fotos de Beatriz Nogueira
É preciso estar disposto para acolher a extinção do ser meramente pensante por adesão a ideias pré-concebidas e se abrir para a investigação do ser que sente, como uma espécie de arqueologia do sentir, que suspende as falsas verdades doutrinadas e se deixa mergulhar nesse Outro que sempre terá uma memória viva para te narrar. Quem está disponível para se modificar? Ó precioso Cronos, tu permites? Quem pode ter tempo para escutar o grito manso de 2 mil homens?
Em 31/01 iniciamos os trabalhos de 2023 com nossos irmãos na Penitenciária Adriano Marrey II.
Cigarro, grades, olhares, vistoria, agentes, respeito, flores, asfalto, grades, biblioteca, cadeiras em círculo, vazio, silêncio, espera, a chegada, silêncio, irmãos conosco, poesia, filosofia, humano, não humano, dança, batuques, troca de olhares, paz, almoço, retorno, sonhos esparramados, fim, retorno, cela, grades, solidão, solitude, luz, escuridão, casa.
O embaralho de palavras que me chove à mente quando penso no dia 31, abre caminhos para infinitas memórias. Eis a raiz da minha vontade de comunicar não sobre, mas com as vidas encarceradas. Acima de tudo, nunca esqueçamos: são vidas encarceradas. O que pode um corpo em clausura? Lembremos: libertar a palavra não é mero capricho, não é caridade. É condição primordial para se sustentar em Terra, para que as (também nossas) vidas encurraladas não desistam da criação de Si. Liberar a palavra é o maior ato de resistência que enxergo para o século XXI. Libertar a palavra também significa a possibilidade de invenção de novas memórias de Si, porquê não? É percepção do poder do discurso antes engasgado, truncado e distanciado da individualidade. Liberar com os vivos e por aqueles que não tiveram tempo. Essa é a tal ação micropolítica que acredito. É salvação coletiva, é reconhecimento do humano para além do bem e do mal, é criação ética de si, é consciência e não servidão voluntária de nossas sombras e, somente por isso, emancipação e transvaloração de falsas ideias e valores um dia criados pelos donos da palavra até agora dita. Estar lá com eles é escola, é grito manso, é escuta, é aprendizado e, acima de tudo, é o acordar de um sono profundo.