12/05/2026
Quando a violência vira regra: por que as mulheres precisam se organizar
Em Santos e na Baixada Santista, o avanço da violência contra mulheres revela uma realidade concreta que exige organização política e ação coletiva.
Enquanto este texto é escrito, cerca de quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil em razão da violência de gênero. Crianças e adolescentes seguem sendo violentadas cotidianamente. Esses não são acontecimentos isolados, nem desvios individuais. São expressões de uma realidade que se reproduz todos os dias, sustentada por uma estrutura social que naturaliza a violência e transforma vidas em estatística.
O Brasil vive uma conjuntura marcada pela intensificação dessa violência e pela rearticulação de ideologias regressivas. Fenômenos como a chamada “machosfera” (ambiente digital que reúne conteúdos e grupos que promovem a superioridade masculina e atacam o feminismo), o universo redpill (comunidades que difundem a ideia de que os homens estariam sendo prejudicados pelas mulheres) e iniciativas que buscam restaurar uma suposta autoridade masculina não podem ser tratados como meras manifestações culturais ou comportamentais.
Esses espaços se organizam em torno de valores que combinam a naturalização da desigualdade entre homens e mulheres, a defesa da autoridade masculina no âmbito da família, a desqualificação das lutas por direitos e a ideia de que relações sociais devem ser pautadas pela dominação e pela competição. A autonomia feminina é apresentada como ameaça, enquanto a submissão é revalorizada como ordem natural.
Nesse ambiente, elementos do pensamento ultraconservador ganham nova forma e circulação, combinando ressentimento social, negação da igualdade e rejeição de direitos. Não se trata apenas de machismo difuso, mas de uma construção ideológica que, em diálogo com formas contemporâneas de extremismo político, busca reorganizar valores sociais a partir da reafirmação de hierarquias, da naturalização da violência e da deslegitimação das lutas por emancipação.
Essa operação ideológica cumpre uma função precisa. Ao deslocar o conflito social para o campo da moralidade e da disputa entre indivíduos, obscurece-se o caráter estrutural da desigualdade. Em vez de questionar as condições de exploração, produz-se um cenário em que a ampliação de direitos é apresentada como ameaça, e não como conquista.
Essa ofensiva não se limita ao ambiente digital. Ela também se expressa, no cotidiano das cidades, em determinados segmentos religiosos que, especialmente no campo neopentecostal, têm atuado na difusão de valores que reforçam hierarquias de gênero e restringem direitos. Em nome da defesa da família e da moralidade, são mobilizadas concepções que reafirmam a submissão feminina, deslegitimam a autonomia das mulheres e atacam conquistas históricas.
Não se trata da fé como experiência individual, mas do uso político de discursos religiosos que contribuem para sustentar uma ordem social desigual. Ao deslocar novamente o conflito social para o campo moral, esses discursos dificultam o enfrentamento da violência e reforçam estruturas de dominação também no plano local.
O patriarcado, nesse sentido, não pode ser compreendido como resíduo do passado. Ele se mantém ativo porque cumpre funções concretas na organização da sociedade. Ao controlar o corpo, o tempo e a vida das mulheres, garante-se a reprodução de uma ordem que depende da desigualdade.
O trabalho doméstico e de cuidado, realizado majoritariamente por mulheres, permanece como base invisível da reprodução social. No Brasil, representa parcela significativa da riqueza produzida, embora não seja reconhecido nem remunerado. Ao mesmo tempo, as mulheres seguem concentradas nas ocupações mais precarizadas do mercado de trabalho.
Dados recentes indicam que mulheres recebem, em média, cerca de 20% a menos que homens em funções equivalentes e são maioria nas ocupações informais. Além disso, acumulam jornadas que combinam trabalho remunerado e trabalho doméstico, ampliando sua sobrecarga cotidiana.
Essa posição não é acidental. Ela responde a uma lógica que articula exploração econômica e desigualdade de gênero, garantindo a redução de custos e a manutenção de hierarquias sociais.
Essa realidade se aprofunda no contexto da crise contemporânea do capitalismo. Não se trata apenas de instabilidade econômica. A crise atinge o mundo do trabalho, corrói direitos, amplia a insegurança e reorganiza a vida social em bases mais desiguais. Nesse cenário, o aumento da violência e a difusão de discursos autoritários não são fenômenos paralelos, mas partes de um mesmo processo.
Esse cenário ganha força em meio a transformações no mundo do trabalho. Ao mesmo tempo em que as mulheres ampliam sua presença em diferentes setores, cresce a precarização para amplos segmentos da classe trabalhadora. Esse movimento tensiona hierarquias tradicionais, ainda que de forma limitada.
Paralelamente, observa-se o crescimento de sentimentos de frustração e deslocamento entre homens que enfrentam desemprego, perda de renda ou instabilidade. Em vez de se converter em questionamento das estruturas sociais, esse mal-estar é frequentemente canalizado contra as mulheres.
A machosfera e o universo redpill operam exatamente nesse ponto. Transformam insegurança material em ressentimento dirigido, reforçando a ideia de que a ampliação de direitos femininos seria responsável pela perda de posição masculina. Trata-se de uma operação ideológica que converte um problema estrutural em conflito entre indivíduos.
A violência contra mulheres e crianças cumpre, nesse contexto, uma função social. Feminicídios, estupros e assédio não são apenas crimes isolados. São mecanismos que disciplinam, intimidam e restringem possibilidades.
Em Santos, onde as mulheres são maioria da população, essa realidade assume contornos concretos. Dados recentes indicam que, apenas nos dois primeiros meses de 2026, houve um aumento de quase 20% nos casos de violência contra mulheres em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Na Baixada Santista, os registros de estupro continuam alarmantes, com centenas de ocorrências, a maioria envolvendo crianças e adolescentes. Esse dado revela a profundidade de uma violência que não é episódica, mas estrutural, atingindo de forma brutal a infância e a juventude.
O feminicídio também apresenta crescimento significativo. Em 2025, foram registrados seis casos na região, dois deles em Santos, o que representa um aumento de 200% em relação ao ano anterior. Não se trata apenas de números. Trata-se da expressão extrema de uma lógica que naturaliza a violência como forma de controle sobre a vida das mulheres.
Essa realidade não pode ser compreendida como desvio individual. Ela se insere em um contexto mais amplo, marcado pela intensificação de desigualdades e pela difusão de discursos que buscam reafirmar a autoridade masculina e deslegitimar as lutas por direitos.
Também em Santos e na região circulam conteúdos e grupos vinculados à chamada “machosfera” e ao universo redpill. Esses espaços não são inofensivos. Eles operam como ambientes de formação ideológica que reforçam valores baseados na dominação, na competição e na desqualificação das mulheres, contribuindo para um cenário em que a violência se torna mais tolerada e menos questionada.
Essa disputa não se limita ao ambiente digital. Ela também se expressa nos espaços institucionais. Em episódio recente na Câmara dos Deputados, declarações de parlamentares, entre elas a deputada Rosana Valle, evidenciaram como concepções regressivas sobre o que é ser mulher seguem sendo mobilizadas no debate público.
Ao questionar a legitimidade de mulheres a partir de critérios biológicos e associar características físicas a uma definição de gênero, esse tipo de posicionamento revela não apenas preconceito individual, mas a permanência de uma lógica que busca restringir direitos e redefinir quem pode ou não ser reconhecida como sujeito político.
Quando esse tipo de discurso aparece em espaços institucionais, ele contribui para legitimar socialmente práticas de exclusão e violência, reforçando o ambiente que sustenta a desigualdade.
No Brasil, a luta das mulheres conquistou avanços importantes no campo institucional. A Lei Maria da Penha representou um marco ao reconhecer a violência doméstica como violação de direitos e estabelecer mecanismos de proteção. Mais recentemente, iniciativas em debate no Congresso buscam ampliar esse enfrentamento, incluindo propostas que reconhecem a misoginia como forma específica de violência.
Esse debate dialoga com compromissos internacionais, como a Convenção de Belém do Pará, que estabelece a obrigação dos Estados de prevenir e punir a violência contra as mulheres.
Essas conquistas são resultado de décadas de mobilização. No entanto, a existência de leis não elimina, por si só, as condições que produzem a violência.
Diante disso, o desafio é claro. Não se trata apenas de denunciar, mas de enfrentar as causas estruturais dessa realidade.
O 8 de março, nesse contexto, não é uma data comemorativa. É expressão de uma luta em curso.
E essa luta exige mais do que indignação. Exige organização.
Em Santos, transformar indignação em organização política não é escolha. É necessidade.
A participação política das mulheres, sua presença nos movimentos sociais e sua atuação nos espaços de decisão são condições para enfrentar essa realidade.
Porque não haverá emancipação possível sem enfrentar o patriarcado e o capitalismo. E não haverá transformação real sem a ação consciente e organizada das mulheres trabalhadoras.
O Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro/PCB- Santos