25/04/2018
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Um costume que ainda passa de geração para geração podendo ser um fator de alto risco contribuindo para os números de surtos alimentares anual: O consumo do leite cru e seus derivados.
Esse tipo de abordagem sempre gera um desgaste ao ser debatido, sempre tem alguém que vai chegar e dizer :Tomei a vida inteira e não morri; comi a vida inteira queijo cru e não morri... o governo é corrupto etc...etc...
Vamos por partes: o que é o leite cru?
É o leite produzido pelas fêmeas de diferentes espécies ao qual não passa por um processo térmico.
O processo térmico, vamos utilizar a pasteurização como um exemplo é o suficiente para eliminar microrganismos patogênicos ou seja, ela elimina microrganismos causadores de doenças. (temos outros processos térmicos envolvidos como o UHT mas hoje não é o foco do texto, iremos abordar outro dia os diferentes tipos de pasteurização)
Em relação a história do ‘’eu comi e bebi e não morri’’ é um tanto cansativo, esse tipo de situação depende de inúmeros fatores: temos como exemplo o agente infeccioso envolvido e a imunidade do indivíduo, alguns sinais clínicos de uma pessoa que consome um alimento contaminado podem ser apresentados de diversas formas como: uma leve diarreia, até mesmo vômitos, diarreia sanguinolentas, febre, e nos piores casos o óbito. Infelizmente em muitos casos o indivíduo não tem o diagnóstico correto e sai do hospital com aquela velha história ‘’Vírose”.
Temos que levar em conta que inúmeros fatores estão envolvidos na qualidade do leite, a sanidade do rebanho é um deles, vamos citar brevemente outros fatores contribuintes da qualidade desse produto. Os resíduos de antibióticos e antiparasitários, quem garante que aquele queijo cru ou aquele leite cru não está com resíduos de antibióticos e antiparasitários? É direito do animal em receber tratamento caso o mesmo adoeça e sabemos que esses produtos são de usos frequentes e precisam ser respeitados os tempos de carência, mas quem garante???
Em contrapartida os laticínios tem um rigoroso controle de resíduos de antibióticos e antiparasitários impedindo que esse leite entre em seu estabelecimento.
Para não fugir do tema hoje, o texto irá abordar os microrganismos patogênicos (aqueles que causam doenças) envolvidos no leite cru e nos seus derivados (produtos desenvolvidos sem nenhum processo térmico).
1) Campilobacteriose
Os principais alimentos implicados nos surtos humanos de campilobacteriose são: leite cru, fígado e carne de bovinos, mariscos crus, vegetais, água, carne de frango insuficientemente cozida, leite pasteurizado contaminado e hambúrguer cru (ALTEKRUSE et al., 1994; DOYLE et al., 1992; BRYAN, 1982). O período de incubação (PI) é de 1 a 7 dias (em geral os primeiros sintomas surgem em 3 a 5 dias). Diarréia, dor abdominal, febre, anorexia, mal-estar, cefalalgia, mialgia, náuseas, vômitos e artralgias são os sinais e sintomas mais comuns, sendo a duração de 1 a 5 dias (BRYAN, 1982).
O leite cru destaca-se como uma importante fonte de surtos de infecção por Campylobacter (WOOD et al., 1992; POTTER et al. 1983). Em uma revisão de surtos ocorridos entre 1981 e 1990, 1.013 indivíduos foram afetados por consumir leite cru, uma taxa de ataque de 45%, ocorrendo ao menos um surto a cada ano (WOOD et al., 1992). O leite cru comercializado ou obtido diretamente da propriedade foi responsável por 61% (621 pessoas acometidas) de todos os surtos de campilobacteriose humana ocorridos no Estados Unidos, entre 1980 e 1982, e documentados pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC). Cabe ressaltar que em quatro destes surtos, 107 crianças adquiriram patógenos ao realizarem visitas escolares a fazendas (FINCH & BLAKE, 1985, EVANS et al., 1996; WOOD et al., 1992; JONES et al., 1981).
2) Salmonelose: Entre os alimentos mais implicados em surtos de salmonelose em humanos, destacam-se carnes, ovos, e leite, bem como os produtos derivados dos três (BRYAN, 1982).
A incidência de salmonelose humana vem aumentando em várias partes do mundo, apesar de todo o desenvolvimento tecnológico utilizado na produção de alimentos e a adoção de melhores medidas higiênicas (BRYAN, 1981).
3) Intoxicação alimentar estafilocócica: Em Minas Gerais, de novembro/1991 a outubro/1992, ocorreram oito surtos de intoxicação estafilocócica em humanos, cinco associados ao consumo de queijo frescal (CÂMARA, 2002). Outros autores verificaram que de 08/1991 até 1995 houve predomínio, nos surtos de DTA, das intoxicações estafilocócicas (65%), com acentuado envolvimento de queijos como alimentos implicados (MARTINS VIEIRA, 1998).
Outro estudo, realizado de 1995 a março de 2001, em Minas Gerais reforça a importância da intoxicação estafilocócica nos surtos de origem alimentar, atingindo 12.820 pessoas, incluindo 17 óbitos. O queijo (diversos tipos) foi o quarto alimento mais implicado, produzindo neste período 23 surtos, atingindo 660 pessoas, incluindo um óbito (FAPEMIG, 2002).
Um estudo realizado em 1997 pelo Instituto Nacional de Metrologia (INMETRO), no Laboratório de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisou treze marcas de queijo tipo Minas Frescal de cinco estados do País (MG, PA, RS, RJ e SP), quanto à presença de Salmonella spp., S. aureus e coliformes totais. Nove marcas foram consideradas “produto potencialmente capaz de causar toxinfecção alimentar” e dez delas apresentaram S. aureus em pelo menos uma das três amostras analisadas, apesar de a presença de enterotoxinas não ter sido avaliada (INMETRO, 2004).
Embora S. aureus seja um dos microrganismos mais prevalentes em mastites bovinas, sendo encontrado com freqüência no leite cru, ele não é um bom competidor da microbiota normal do leite e não se desenvolve em baixas temperaturas. Além disso, apenas uma parcela das amostras bovinas de S. aureus são produtoras de enterotoxinas. Talvez por essas razões, a grande maioria de surtos é devida a amostras humanas, com menor participação de amostras oriundas de bovinos ou de outros animais (ACHA & SZYFRES, 1986).
4) Estreptococoses
Diversos estreptococos podem ser veiculados pelo leite, entre eles Streptococcus pyogenes e estreptococos do grupo C. reservatório de S. pyogenes é o ser humano. A transmissão do agente da enfermidade respiratória (angina séptica, escarlatina) se produz por contato imediato entre uma pessoa infectada, seja enferma ou portadora, e outra susceptível. Historicamente, ocorreram surtos epidêmicos importantes associados ao consumo de leite cru. Com a pasteurização do leite, houve diminuição de enfermidades por S. pyogenes, ocorrendo surtos esporádicos em países em desenvolvimento e em desenvolvidos onde se utilizam produtos lácteos de elaboração caseira sem tratamentos térmicos. Os animais não atuam como hospedeiros de manutenção de S. pyogenes, mas às vezes podem causar importantes surtos epidêmicos ao infectar-se do homem e retransmitir logo a infecção por meio do leite contaminado (ACHA & SZYFRES, 1986).
Nas últimas décadas foi presenciada a emergência dos estreptococos do grupo B (S. agalactiae) como causa de enfermidades neonatais (ACHA & SZYFRES, 1986). O ser humano pode ser portador desse agente. Entretanto, não há evidências claras de que os animais (por exemplo, vacas mastíticas eliminando o microrganismo no leite) apresentem alguma importância epidemiológica na transmissão de S. agalactiae a humanos (ACHA & SZYFRES, 1986). leite bovino cru pode ser uma fonte de infecção de estreptococos do grupo C para o ser humano, entre eles S. zooepidemicus (ACHA & SZYFRES, 1986). S. zooepidemicus produz febre, calafrios, sintomas constitucionais vagos; e, em alguns casos, pneumonia, endocardite, meningite, pericardite, dores abdominais e glomerulonefrite em seres humanos. Em Nova Serrana, Minas Gerais, um surto de nefrite atingiu 253 pessoas de dezembro de 1997 a julho de 1998. Esse grande surto de glomerulonefrite foi atribuído ao S. zooepidemicus (grupo C) em queijos frescos não pasteurizados, embora o agente não tenha sido isolado dos alimentos em questão, bem como das vacas analisadas. Entretanto, na maior propriedade produtora de queijo fresco, o agente foi isolado da garganta de duas mulheres que participavam do processamento do produto. Os autores alertaram para os perigos de consumo de produtos lácteos não pasteurizados e sobre a necessidade de esforços globais para promover alimentos seguros (BALTER et al. 2000).
5) Tuberculose zoonótica (M. bovis)
O Mycobacterium bovis, causador da tuberculose bovina, é responsável por parte dos casos de tuberculose em humanos, parcela esta desconhecida no Brasil. Estima-se que o M. bovis seja responsável por 3% de todas as formas de tuberculose humana na América Latina (Cosivi et al. 1998). De acordo com a Organização Mundial de Saúde (WHO, 1993), a infecção pelo M. bovis é responsável por aproximadamente 5% dos casos humanos de tuberculose no Brasil, sugerindo a importância de maior controle da transmissão de bovinos a humanos no país. Como a própria OMS estima que aconteçam anualmente no Brasil cerca de 110.000 novos casos de tuberculose humana, o M. bovis seria responsável por 5.000 deste total.
O maior envolvimento de M. bovis nas formas extrapulmonares que nas pulmonares de tuberculose humana se deve ao consumo de leite cru, oriundo de vacas infectadas (COSIVI et al., 1998; DABORN & GRANGE, 1993). O período de incubação da tuberculose humana extrapulmonar de origem zoonótica (M. bovis) é variável, apresentando diversas formas de manifestação: ganglionar, cervical e óssea (BRYAN, 1982).
Como a combinação “tuberculose – infecção pelo HIV/AIDS” é responsável por elevadas taxas de mortalidade humana, pesquisadores têm alertado para o risco de consumo de leite e produtos derivados crus por pessoas soropositivas para HIV, principalmente em países em desenvolvimento, onde as prevalências de tuberculose bovina (M. bovis) são significativas. A referida combinação é vista com muita preocupação, principalmente para países em desenvolvimento, por poder complicar tanto a epidemia humana de tuberculose causada por M. bovis, como a situação da tuberculose bovina, já que o bacilo pode ser retransmitido de pessoas a bovinos. Com o advento da AIDS/infecção pelo HIV acredita-se que o ser humano poderá passar da situação de “hospedeiro acidental” para “reservatório” de M. bovis (COSIVI et al., 1998; DABORN & GRANGE, 1993).
No Brasil, um estudo realizado em Minas Gerais alerta para o fato de que queijo frescal é manufaturado por 32% das fazendas estudadas, das quais 93% utilizam leite cru. Essa prática implica risco potencial de transmissão de M. bovis ao ser humano (GONÇALVES et al., 2003).
6) Colibacilose: Alimentos contaminados com fezes, principalmente leite cru e derivados lácteos não processados termicamente, constituem-se em fontes potenciais de E. coli causadoras de DTA (BRYAN, 1982). GIL et al. (2001) relataram a ocorrência de ETEC em dezesseis amostras de queijo colonial consumido em Pelotas – RS. Adicionalmente, E. coli foi responsável por 3,8% dos surtos de DTA ocorridos no Estado do Paraná no período 1978/1997 (CAMARGO, 1998). Outro estudo mostra que, no Estado de Minas Gerais, E. coli (EPEC, O127: B8) foi responsável por 2,6% dos surtos de infecção de origem alimentar no período 1991/1998 (MARTINS VIEIRA et al., 1998).
7) Colite hemorrágica e Síndrome Hemolítica Urêmica (SHU)
Escherichia coli O157:H7, é responsável emergente, em alguns lugares do mundo, por casos agudos de colite hemorrágica e, em situações mais graves, pela síndrome hemolítica urêmica (SHU). Os bovinos são reservatórios naturais da E. coli O157:H7, razão pela qual os alimentos de origem animal, principalmente a carne bovina, parecem ser o principal veículo desse patógeno, que tem causado vários surtos associados ao consumo de hambúrgueres, principalmente no Canadá, Estados Unidos e Japão (FRANCO & LANDGRAF, 1996). Nos EUA, estima-se que a taxa de hospitalizações seja de 29,5%, que ocorra 83 casos fatais em 10.000 e que 85% dos casos humanos seja de origem alimentar (MEAD, 1999).
No Brasil, a primeira amostra de E. coli O157:H7 foi isolada e identificada em Parelheiros, no município de São Paulo, a partir de uma amostra de água de poço, em uma chácara. Embora ainda não bem documentada em humanos no país, há o registro de E. coli O 157:H7 em um paciente aidético, em 1992, onde não foi possível estabelecer relação com alimentos ou origem da infecção. Não há dados sistematizados sobre a E. coli O157:H7 no Brasil e nem sobre a SHU (SES/SP, 2000). ntretanto, estudos demonstraram no Brasil a presença de E. coli O157:H7 em fezes de bovinos provenientes da Região do Norte Fluminense (GONZALEZ et. al., 2001). Percebe-se, assim, a possibilidade de veiculação desse agente pelo leite fluido cru ou por derivados a partir de leite não processado termicamente, mediante contaminação desses alimentos por fezes de bovinos infectados.
8) Listeriose: As principais fontes de L. monocytogenes para o ser humano são: tecidos, urina ou leite de animais infectados e fontes ambientais. A listeriose humana acomete principalmente recém-nascidos, gestantes e idosos. Apesar de ser pouco comum, a percentagem de casos fatais de listeriose é elevada (30%), excedendo inclusive a de Clostridium botulinum (BRYAN, 1982; FRANCO & LANDGRAF, 1996). Estima-se que nos EUA, 92,2% dos casos humanos reportados ao CDC resultaram em hospitalização e que 2.000 em 10.000 casos sejam fatais (MEAD, 1999). . monocytogenes é um agente ocasionalmente associado com mastite em bovinos e pode ser isolado de leite cru (BOURRY et al., 1995). Isto pode representar um risco para os consumidores de leite não pasteurizado ou produtos derivados.
9) Brucelose: O PI da doença em humanos é de 5 a 21 dias até vários meses. Os sinais e sintomas possuem um início insidioso com febre, calafrios, transpiração, insônia, astenia, mal-estar, cefalalgia, mialgias e artralgias, perda de peso e anorexia. As principais fontes de Brucella ao ser humano são placentas, fetos abortados, secreções vaginais, tecidos, sangue e leite de animais infectados, sendo o principal modo de transmissão o contato com tecidos infectados (BRYAN, 1982).
NAMIDURU et al. (2003) observaram que a ingestão de produtos lácteos de animais doentes foi a via de transmissão mais comum ao homem. Os principais alimentos implicados na transmissão de Brucella ao ser humano são leite cru e queijos processados com leite cru (BRYAN, 1982). O consumo de produtos lácteos e queijo do México implicou em 45% dos casos humanos reportados pela Califórnia de 1973 a 1992 (Mead 1999). Adicionalmente, BIKAS et al. (2003) apontam como importante fator de risco para brucelose humana a ocupação profissional com animais.
10) Yersiniose: Levantamentos epidemiológicos conseguiram isolar Y. enterocolitica no leite cru em taxas significativas em vários países, incluindo o Brasil. Talvez esse fato possa ser justificado, principalmente, pela ampla disseminação do agente no ambiente. No país, Y. enterocolitica tem sido encontrada no homem, e em animais (cães e suínos), enfermos ou sadios, na água e vários tipos de alimentos (leite, carne e derivados, vegetais) principalmente nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul (CECCARELLI et al. 1990, NUNES & RICCIARDI 1986, TASSINARI et al. 1994, WARNKEN et al. 1987).
11) Bacillus cereus, encontra-se amplamente distribuído no solo. Está presente no leite cru, primariamente na forma de esporos, resistentes à pasteurização. A pasteurização pode ativar a germinação dos esporos e, posteriormente, pode ocorrer a multiplicação microbiana se o leite for mantido sob temperaturas maiores que 7o C. Nesse processo pode ocorrer produção de toxinas e/ou deterioração do leite. As toxinas por eles produzidas podem causar gastrenterites em humanos. Poucos casos de intoxicação alimentar são documentados talvez, porque o agente produza enzimas que modificam o sabor e o odor, sendo o produto rejeitado pelo consumidor (MEAD et al 1999).
Embora a infecção pelo B. cereus em humanos ocasionalmente ocorra por meio de outras rotas, nos Estados Unidos praticamente todos os casos são de origem alimentar, sendo estimado que para o mesmo país a taxa de hospitalizações seja de 0,6% e, praticamente nula, a de casos fatais (MEAD 1999).
12) Toxoplasmose
O agente etiológico da toxoplasmose é o protozoário Toxoplasma gondii. O PI da toxoplasmose em humanos é de cinco dias a mais de três semanas. Os sinais e sintomas geralmente são subclínicos, podendo ser congênita ou adquirida. A forma adquirida apresenta: linfadenopatia com ou sem febre; cura espontânea ou formas mais graves com diferentes localizações, tais como pneumonia, miocardite, meningoencefalite, entre outras. As fontes de infecção na forma pós-natal são carnes de suíno ou cordeiro e mais raramente de bovinos. Carne crua ou insuficientemente cozida de suíno, ovino e bovino (cistos com bradizoítos); alimentos e água contaminados com fezes de gatos (oocistos); bem como leite de cabras (taquizoítos) são os principais alimentos envolvidos na transmissão de Toxoplasma gondii (BRYAN, 1982; TENTER et al., 2000).
13) Febre Q: No Brasil, houve evidências sorológicas de Febre Q em rebanhos (BORGES, 1962). Então, um estudo realizado em Belo Horizonte encontrou entre 144 trabalhadores de abatedouros, 29% de soropositivos para C. burnetii. Neste mesmo estudo foram testados 156 bovinos, sendo que 29% deles apresentaram anticorpos para C. burneti (RIEMAN et al. 1975).
C. burnetii possui alta resistência ao calor, sobrevivendo a 61,7oC por 30 minutos. Para garantir a completa destruição desse agente no leite, atualmente são exigidos tempos e temperaturas de pasteurização mais rigorosos (de 62,8 º C por 30 min ou 71,1 º C por 15 segundos).
14) Virús: O leite pode veicular vírus como o da Hepatite A, o da poliomielite e, possivelmente, outros diversos vírus entéricos.
A hepatite A é uma doença infecciosa viral, de distribuição mundial. É uma doença leve, de curta duração. O homem é o reservatório principal do vírus e os demais primatas são hospedeiros secundários. A enfermidade se propaga por via fecal-oral e por consumo de alimentos contaminados. Entre os alimentos implicados nos surtos humanos, cita-se moluscos bivalvos (consumidos crus como principais veículos), carnes, produtos lácteos, pães, frutas e vegetais. O Brasil não possui provas contundentes de que a transmissão do vírus da hepatite A por alimentos seja de importância epidemiológica no país (FERRARI & TORRES, 1998). Em um estudo realizado em 1987 foi analisado, detalhadamente, a epidemiologia das hepatites nas Américas. As incidências mais altas de hepatite vírica aguda foram registradas nas ilhas mais povoadas do Caribe, como Cuba e República Dominicana. No norte do Brasil e no Canadá, Costa Rica, El Salvador, Estados Unidos, Guatemala, México e Uruguai a incidência foi menor. Por outro lado, a mortalidade foi baixa no Canadá, Cuba e Estados Unidos e elevada no Brasil e Guatemala (HADLER et al. 1987). Nos EUA, estima-se que 0,3% dos casos humanos sejam fatais e a transmissão por alimento explica 5% dos surtos humanos de fontes conhecidas. Entretanto, a fonte é indeterminada em aproximadamente 50% dos surtos de hepatite A (FERRARI & TORRES, 1998).
Antes de 1940, a poliomielite era conhecida como uma enfermidade de origem alimentar associada ao consumo de leite, não pasteurizado ou mal pasteurizado, contaminado por manipulação humana. Nos anos 90 a poliomielite foi erradicada das Américas. Os últimos Poliovírus selvagens nativos tinham sido isolados nas Américas em 1991, mas a ameaça de Poliovírus importados permanecia como uma preocupação (EPI NEWSLETTER, 1996). Em 1996, foram relatados novos isolamentos do agente causal em 16 de 33 amostras de camarão branco Panaeus schimitti extraídos de águas venezuelanas (BOTERO et al. 1996). Esse fato confirma a necessidade de se intensificar a vigilância da poliomielite e a imunização infantil, bem como de monitorar a higiene dos alimentos a fim de manter a enfermidade sobre controle nas Américas (FERRARI & TORRES, 1998).
Entre vírus entéricos, Rotavírus são causadores de gastrenterites em humanos. Na contaminação humana que se produz por via fecal-oral, os alimentos desempenham um papel ocasional, pois a transmissão direta é a mais importante. Tem sido postulado que Rotavírus são viáveis no meio ambiente e capazes de infectar animais e seres humanos (FERRARI & TORRES, 1998). Em 1994, foram os vírus intestinais isolados com maior freqüência (16%) no Brasil (PEREREIRA et al. 1994). A taxa de casos humanos fatais nos EUA é muito baixa (20 a 40 mortes por ano), sendo que a participação de alimentos nos casos humanos é provavelmente muito baixa, menor que 1% (MEAD, 1999).
O gênero Norovirus (Norwalk e Norwalk-like ou NVL) têm sido implicado como principal agente viral responsável por surtos de origem alimentar nos Estados Unidos, produzindo gastrenterite, diarréia, anorexia, cefaléia e, em certas ocasiões, febre. Ainda que frutas, vegetais, ovos e pães estejam implicados, os moluscos e a água contaminada possivelmente constituem os veículos mais importantes para a transmissão desses vírus ao homem (FERRARI & TORRES, 1998). Em 1984, em uma escola dos Estados Unidos, 120 alunos e 19 empregados se infectaram como conseqüência do consumo de sanduíche de carne e queijo. Entretanto, não foi identificada a fonte da contaminação. Os autores alertam para a necessidade de investigadores atentarem para possibilidade de uma etiologia viral em surtos de DTA (GROSS et al. 1989). Quatro grandes surtos de gastrenterite acometeram crianças em creches do Rio de Janeiro, de abril de 1996 a março de 1998, não tendo sido bactérias isoladas como causa. Em três desses surtos, maio 1997, Setembro 1997, e Março 1998, Noroviroses foram detectadas em 6/26 (23%), 27/71 (38%) e 8/12 (67%) amostras, respectivamente (GALLIMORE et al 2004). Nos EUA, assume-se que o NLV seja responsável por 11% das hospitalizações por gastrenterites virais e 11% dos casos fatais de gastrenterite viral, sendo assumido que a porcentagem de casos humanos de origem alimentar é de 40% (MEAD, 1999).
Considerações finais: a comercialização informal do leite e dos derivados crus sem o processo de pasteurização é um dos grandes contribuintes para os surtos alimentares, é preciso conscientização e o incentivo do ato da pasteurização por p parte dos órgãos competentes.
As doenças abordadas nesse texto foram retirados do artigo: http://cienciadoleite.com.br/noticia/128/doencas-transmitidas-pelo-leite-e-sua-importancia-em-saude-publica
No link acima o artigo esta completo.
Para quem tem interesse, uma pesquisa que nos deixou um pouco preocupados sobre queijos clandestinos produzidos por leite cru.
“Agora senta aí para a notícia ruim: a pesquisadora e veterinária Simone Miyashiro - diretora de triagem animal do instituto - analisou cento e noventa e dois queijos clandestinos de Minas e São Paulo. Trinta e sete estavam contaminados com Brucella. Sete deles com estirpes de campo e trinta com B19, ou seja, a bactéria usada na fabricação da vacina das bezerras segue no leite do animal com potencial para contaminar humanos:
O centro de doenças de Atlanta nos Estados Unidos também anda emitindo alertas desse tipo. Lá, eles conseguiram comprovar que algumas pessoas se contaminaram ao ingerir leite cru de animal vacinado com RB51, a outra vacina disponível no mercado.
Apesar dos problemas para o ser humano, a pesquisadora reconhece que é importante continuar vacinando o rebanho. O jeito, então, segundo ela, é evitar o consumo de leite cru e seus derivados. E sempre usar equipamentos de proteção individual na lida com o gado.
Se você costuma fazer queijo de leite cru tem que aguardar o tempo certo de maturação do produto. Esse processo - quando bem feito - elimina a bactéria. O Ministério da Saúde afirmou que não vai comentar o assunto”
http://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2017/11/brucelose-e-causada-por-bacteria-e-atinge-mamiferos.html
Julliana Bortolato