16/12/2025
Entre o Poder e a Urgência: a Presidência da Câmara, a Crise na Saúde e os Novos Desafios Políticos de Viamão-RS
Por : Magda Chagas
Coletivo Pra Elas Com Elas Viamão-RS
Núcleo Morhan POA e Região Metropolitana
A eleição da Mesa Diretora da Câmara de Vereadores de Viamão revela muito mais do que uma simples mudança de comando no Legislativo. A ascensão da primeira-dama Michelli Galvão (PSDB) à presidência da Casa marca um novo momento político no município, carregado de simbolismos, articulações estratégicas e contradições que merecem análise cuidadosa.
Além de assumir a presidência da Câmara, Michelli Galvão deixará o comando da Secretaria Municipal de Saúde para, então, exercer plenamente o mandato de vereadora. Essa transição, embora legítima do ponto de vista político, ocorre em um momento sensível para o município. A saúde pública de Viamão enfrenta uma situação precária, com inúmeros problemas espalhados pelos bairros, filas, dificuldades de acesso e carência de ações estruturantes. Há a percepção, compartilhada por grande parte da população, de que se investe mais em “vitrines” e anúncios do que em soluções concretas e permanentes. Nesse cenário, a presença de um(a) secretário(a) de Saúde atuante, técnico e com dedicação exclusiva torna-se fundamental. A troca de função reforça o debate sobre prioridades: saúde pública exige gestão diária, presença no território e respostas rápidas, algo que dificilmente se concilia com a dinâmica política e institucional de um mandato legislativo.
Do ponto de vista histórico, a eleição da primeira mulher presidente da Câmara é um marco importante para Viamão. Michelli construiu sua trajetória pública afirmando que seria “a voz das mulheres e das mães” , compromisso que agora ganha ainda mais visibilidade e responsabilidade. A expectativa social é de que esse discurso se traduza em ações concretas, especialmente em políticas públicas voltadas às mulheres, às famílias e às populações mais vulneráveis.
Entretanto, esse simbolismo convive com uma contradição política relevante. Embora Michelli sustente publicamente a defesa das mulheres, seu companheiro, o prefeito Rafael Bortoletti, carrega o peso político de um processo relacionado à violência contra a mulher. Esse fato impõe um desafio ético e simbólico permanente à nova presidente da Câmara, sobretudo em um contexto em que a coerência entre discurso e prática será constantemente observada e cobrada pela sociedade.
Nesse contexto, ganha ainda mais importância o papel dos movimentos sociais. São eles que historicamente garantem espaços de educação continuada, formação política, atualização do debate público e pressão social por políticas efetivas. Em um cenário de concentração de poder institucional e de fragilidade da oposição partidária, os movimentos sociais, coletivos, associações comunitárias e organizações da sociedade civil tornam-se fundamentais para manter vivo o debate democrático, atualizar os marcos políticos do município e tensionar o poder público por respostas concretas nas áreas de saúde, educação, assistência social e direitos humanos.
Com a eleição marcada para 23 de dezembro de 2025, tudo indica que o governo municipal entra em 2026 com forte controle institucional. Isso pode facilitar a governabilidade, mas também exige maior vigilância social. Um Legislativo alinhado ao Executivo só cumpre seu papel democrático quando há participação popular ativa, imprensa crítica e movimentos sociais organizados, capazes de transformar insatisfação em debate qualificado e ação política.
O momento vivido por Viamão não encerra conflitos — ele redefine prioridades e responsabilidades. A ida de Michelli Galvão para a presidência da Câmara, somada à saída da Secretaria de Saúde e ao contexto político mais amplo, coloca em evidência uma questão central: quem perde e quem ganha quando a política institucional se afasta das urgências reais da população. É nesse ponto que a sociedade organizada será decisiva para escrever os próximos capítulos da história política do município.