16/06/2026
De quem eu escrevo?
Nesta nossa Maia, até o Entroncamento deixa de ser a apregoada terra dos Fenómenos.
Está a acontecer, agora mesmo entre Águas Santas e Pedrouços.
Crónica Profética da Travessia dos Mandatários
“E aconteceu, nos dias do fim do mandato, que o eleito levantou os olhos não para o povo que o sustentou, mas para a terra vizinha, onde julgava haver leite, mel e votos.”
Assim começa o capítulo perdido do Livro das Freguesias, onde os escribas anotaram o que acontece quando o poder envelhece e a ambição rejuvenesce.
Em Águas Santas, o povo viu sinais:
• O Sinal do Desvio — o olhar que antes era firme torna-se oblíquo, como quem procura outra plateia.
• O Sinal da Obra Suspensa — aquilo que era urgente torna-se “para depois”, e aquilo que nunca foi prioridade ganha altar.
• O Sinal da Fotografia Repentina — aparições súbitas, sorrisos de peregrino, promessas que brilham como ouro falso.
• O Sinal da Palavra Untuosa — discursos que escorrem como azeite rançoso, dizendo tudo e nada.
E o profeta — esse que ninguém elegeu, mas que todos ouvem quando o rio fala — ergueu a voz:
“Ai de ti, Águas Santas, quando o teu pastor começa a pastar nos campos de Pedrouços antes de te alimentar.
Ai de ti, Pedrouços, quando te oferecem presentes que não pediste, pois quem chega com pressa não vem servir — vem instalar-se.”
“Porque o eleito que abandona a sua casa antes de a arrumar, esse não parte — esse foge.
E aquele que promete a dois povos, a nenhum serve.”
E o Leça, testemunha milenar, murmura nas suas águas:
“Vi muitos assim: começam em Águas Santas, terminam em Pedrouços, e pelo caminho deixam apenas placas, fotografias e silêncio.”
No final do capítulo, o escriba deixa a advertência:
“Reconhece o líder não pelo que diz no fim, mas pelo que fez no início.
Pois no fim todos prometem, mas só alguns permanecem.”
O autor,
Rui Parada