03/11/2025
Quando eu nasci, a palavra mãe não me foi dada automaticamente. Tive que esperar. Nem todo bebê chega ao mundo e vai direto para o colo de sua família. Às vezes leva uma semana, às vezes levam anos. Até que elas chegam, as nossas mães (ou pais, que existem várias formas de ser família).
A minha mãe e eu nos conhecemos em Agosto. Ela teve que viajar para me encontrar e me trazer para casa, mas antes disso ela verbalizou um desejo e me iniciou em sua família. Foi ela quem disse "eu quero adotar" e então fez-se verbo. Foi aí que eu comecei a nascer, ainda sem ser eu.
Depois, nasci de verdade, esperei e ela veio. Seria mais enfeitado dizer que eu acredito em destino, mas eu acredito mesmo são nas escolhas, essas ações contínuas.
Sempre falo de um trecho de "Blue Nights", de Joan Didion, sobre sua filha Quintana, que questionava o que teria acontecido se seus pais não tivessem atendido aquele telefonema, justo aquele.
Como ela, eu sei que poderia ter sido adotada por outra família ou sequer ter sido adotada. Mas eu fui, ela foi, e por essas famílias. E isso deu o contorno que tenho nessa vida, meu nome Larissa, minha infância em Minas. Poderia ter sido outra, mas não foi, e por isso celebro esse encontro, essa mulher que me deu a chance de usar a palavra mãe nessa vida.
Antes mesmo que eu pudesse aprender a palavra mãe, vocalizar esse nome bonito, ela já me chamava filha e talvez aí esteja a magia dos renascimentos. Eu era um bebê em hiato, aguardando cuidado, mas ela disse "filha" e não "bebê" e minha vida foi reinaugurada.
Agora, filha, eu podia ser cuidada, afagada em colos.Eu podia não só nascer, mas crescer na vida de alguém.
Foi ela quem me quis - e fez todo mundo me querer, por bem ou por mal, que a decisão já tava tomada e eu estava ali, de sobrenome e tudo, pra ser filha dela.
Me cobriu de gibis e livros, pra gente ler juntas na sala de casa, partilhando histórias agora que as nossas estavam mais do que cruzadas.
Aprendemos juntas a navegar por gerações diferentes e a ser um tipo "diferente" de família. Sempre fui lida primeiro como sua neta e, só depois de explicado, como sua filha.
(Continua no comentário fixado)