04/09/2026
O que caracteriza a literatura fantástica e por que ela ainda é tratada como gênero menor?
A literatura fantástica sempre me fascinou. Desde que aprendi a ler, fui atraída por essa literatura que dá vida aos elementos da imaginação e da fantasia, assim como a temas que não existem em nossa realidade como fatos comprovados.
Porém, o que caracteriza a literatura fantástica?
A literatura fantástica, a fantasia e a ficção científica são conceitos que podem ser diferenciados teoricamente. A primeira costuma apresentar o sobrenatural rompendo uma realidade considerada normal. Um exemplo é Os Sete, de André Vianco: uma caixa de prata é encontrada em um navio naufragado e, a partir dela, sete vampiros voltam à vida.
Na fantasia, por outro lado, o sobrenatural é normalmente incorporado à própria realidade da narrativa. Um exemplo clássico são os contos de fadas. Já na ficção científica, a narrativa tem como ponto de partida hipóteses científicas, tecnológicas ou especulações sobre a sociedade, a humanidade e o universo.
Também é comum encontrarmos subdivisões dentro da fantasia: alta fantasia, baixa fantasia, fantasia urbana, fantasia sombria, entre outras.
Porém, parte da crítica trata a ficção especulativa (termo próximo ao que aqui chamo de literatura fantástica) como uma categoria guarda-chuva, capaz de aglutinar ficção científica, fantástico, horror, fantasia e realismo mágico¹. Concordo com essa visão, porque percebo que existe uma dificuldade em seguir rigidamente essas classificações, já que muitas obras misturam diferentes conceitos e características. Por isso, considero que não existe uma separação totalmente visível entre essas categorias. Existem, sim, diferentes maneiras de escrever o fantástico.
Neste texto, portanto, utilizarei “literatura fantástica” em um sentido amplo, abrangendo diferentes formas de fantasia e também a ficção científica.
Para iniciar o assunto, gostaria de informar um fato bastante curioso: a literatura fantástica parece encontrar um público especialmente forte em outros países. No Brasil, o cenário é distinto: segundo levantamento da Folha de S.Paulo de 2019, a fantasia representa uma fatia pequena (cerca de 4%) do total das vendas de ficção do mercado editorial brasileiro, enquanto autoajuda e biografias, categorias de não ficção, seguem entre as preferidas do público. Esse padrão de consumo é reforçado por outras análises do setor, que apontam o brasileiro como um leitor historicamente mais inclinado à não ficção do que à ficção. No entanto, no ano de 2026, há a presença de uma obra de fantasia nacional entre os livros mais vendidos, contudo é uma obra voltada ao público infantojuvenil: O diário de uma princesa desastrada 4 da escritora Maidy Lacerda. Será que o brasileiro não gosta da literatura fantástica? Ou será que há um certo preconceito no mercado editorial para esse gênero? Ou será, ainda, que a visão a respeito desse tipo de literatura é superficial?
Essa última hipótese parece a mais provável. A verdade é que muitos ainda consideram esse gênero literário uma literatura de menor valor, porque o vinculam ao entretenimento, à fuga da realidade e ao público infantojuvenil, e essa ideia não existe só no Brasil. Sabe-se que apenas entre as décadas de 70 e 80 as universidades abriram mais espaço para esse tema. No entanto, como acontece com qualquer outro gênero, existem obras boas e ruins. Os críticos deveriam avaliar cada obra por sua qualidade literária, e não simplesmente pelo gênero ao qual pertence. E se o mercado editorial abrisse um espaço maior para a literatura fantástica, talvez teria uma grata surpresa.
Como considerar menor um autor como Gabriel García Márquez, que transformou o chamado realismo mágico em uma das expressões mais importantes da literatura latino-americana? Em suas obras, a realidade se mistura a acontecimentos extraordinários, muitas vezes tratados com naturalidade. Além disso, García Márquez recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Cá entre nós, é soberba a maneira como ele junta momentos repletos de fantasia e simbolismo à crítica social em algumas de suas obras.
O que dizer de Tolkien, criador de um universo distante da nossa realidade, construído com enorme riqueza mitológica, linguística e histórica, em sua obra de fantasia O Senhor dos Anéis? Aliás, na minha opinião, ele é o papa do fantástico.
E Isaac Asimov, que criou as famosas Três Leis da Robótica e explorou, em Eu, Robô, as relações entre seres humanos, máquinas, ética e tecnologia? Simplesmente genial, não concordam comigo?
Não vejo, portanto, como diminuir a literatura fantástica ou considerar estranho o reconhecimento que ela recebe do público.
Dentro da literatura fantástica, existe a possibilidade de apresentar tantos temas, tantas mensagens e tantas maneiras de expressar simbolicamente a realidade quanto há grãos de areia na beira de uma praia qualquer.
Há obras em que o terror é o mote; outras são envolvidas pela magia; em algumas, o sobrenatural permeia tudo. Também existem aquelas que nos conduzem por paisagens de sonho ou nos apresentam futuros distantes. Podemos ainda encontrar as lendas, narrativas provenientes da imaginação pop**ar, assim como as narrativas mitológicas.
Particularmente, gosto bastante de diferentes formas desse gênero. Gosto de tudo aquilo que pode me tirar da realidade e do tempo presente. Assim, escrever literatura fantástica é, para mim, passear em um parque de diversões.
Além da admiração que tenho por Gabriel García Márquez e Tolkien, também aprecio a incrível imaginação e as descrições detalhadas de J. K. Rowling e adoro a estrutura narrativa criada por George R. R. Martin em As Crônicas de Gelo e Fogo.
Acredito que esses autores me influenciaram.
O autor brasileiro que mais admiro é Machado de Assis. Seu sarcasmo é maravilhoso. E ele é considerado um autor realista. Porém, o interessante é que ele iniciou seu período realista com uma obra chamada Memórias Póstumas de Brás Cubas, cuja narrativa se desenrola através do olhar crítico de um defunto sobre a própria vida e sobre a sociedade na qual estava inserido.
Algo um pouco fantástico, não acham?
Blog do site LivroÁrvoredeFamília