23/11/2016
Imagine a cena. Você tá ansiosa por uma festa, e descobre que pode pagar menos de 5 reais pra entrar nela. Até aí tudo bem. Open bar ainda? Caraca! Um preço quase irreal. Mas aí percebe que, no convite masculino, o mínimo é 30 reais. Parece um baita benefício, né? Exceto pelo fato de que por trás disso, existe uma lógica muito mais perversa.
1. O QUE TÁ POR TRÁS DISSO?
Quando um cara paga quase dez vezes mais que você pra entrar na festa, a ideia por trás disso é que ele está pagando por ele e por você. Uma festa cheia de mulheres é um atrativo pra ele. "Um prato cheio", como alguns disseram. As mulheres, nessa lógica, se tornam uma das atrações da festa. E isso é bastante machista! É uma objetif**ação. É uma forma de tornar a presença feminina uma atração para agradar homens.
2. POR QUE ISSO É TÃO RUIM?
"Eu já fui. E me senti um verdadeiro pedaço de carne", falou uma moça. Afinal, a ideia de que você paga tão barato e os homens tão caro também reforça a suposição de que ele tem passe livre sobre você. Já que o cara pagou tão caro pra uma festa com tanta mulher, ele se sente no direito de chegar em quem quiser do jeito que quiser. Por isso, nesses lugares, não são raros os relatos de minas que tem os cabelos puxados, são beijadas ou agarradas à força, e até agredidas depois de dizerem "não". É claro que isso pode acontecer em qualquer festa. Mas em festas com diferenças tão grandes de valor, a ideia de que ali você é um mero pedaço de carne, é reforçada subjetivamente.
3. AH, O OPEN BAR...
"Elas bebem, f**am soltinhas, f**am facinhas. Dá pra passar a mão em tudo e nem precisa fazer esforço", falou um dos caras que tentava vender convite. Parece quase irreal que com 5 reais dê pra comprar uma festa open bar, né? É claro que não criticamos ou estamos contra mulheres que bebem e se divertem bebendo, muito pelo contrário. Mas, por trás da ideia de um open bar TÃO BARATO pra mulheres, existe também a ideia de que a mulher bêbada é mais uma das atrações da festa. E na triste maioria dos casos, homens encaram mulheres bêbadas como "mais vulneráveis", e portanto, "alvos fáceis". E aqui, a gente precisa falar sobre a cultura do estupro. Casos de assédio e abuso acontecem em festas o tempo todo. E quando a mulher está bêbada, ela é desacreditada e até culpada pela violência que pode vir a sofrer. "Ninguém mandou f**ar loca, agora aguenta. Eu paguei caro pra isso", escutei numa festa.
4. "SE VOCÊ NÃO GOSTA, É SÓ NÃO IR"
Pois é, não é bem assim. O feminismo existe para que todas as mulheres possam lutar por todas as mulheres. Enquanto nós formos tratadas como pedaços de carne e atrações de festa, não estamos livres do machismo. Enquanto nós quisermos ir em festas e não nos sentirmos seguras, não estamos livres do machismo. É por isso que estamos reclamando. Não queremos destruir a cultura das festas e a diversão. Queremos que as coisas sejam justas, igualitárias e principalmente respeitosas. Queremos ser tratadas como gente. Será que é tão difícil assim?
*** Esse post não é uma crítica direta às mulheres que querem participar da festa.
*** "Mas nem todo homem é assim". Tudo bem. Estamos falando de um plano geral. Se os homens que você conhece não são completos babacas, ele é uma exceção bacana de se ter por perto.
*** Esses relatos foram escutados por membros do Coletivo depois de ações diretas na fila e festa da Vírgula nos anos de 2013 e 2015. As fontes são anônimas para preservar a identidade das pessoas.
*** Pra entender mais sobre a lógica por trás da "mulher vip":
( http://www.fridadiria.com/mulher-vip-em-festas/ )
*** Pra entender o que é cultura do estupro:
( http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2016/06/6-coisas-que-voce-precisa-entender-sobre-cultura-do-estupro.html )