20/04/2020
A polêmica sobre Vargas tem coisas um tanto cômicas de um lado ou de outro, por entre outras razões, a compreensão deliberadamente insuficiente da coisa.
Quem é getulista ortodoxo, que leu Benayon, leu nacionalistas apologistas do período, talvez textos do Pasqualini, entre outros... olha para as acusações dos "comunistas" anti-etapistas, ou dos maoístas, e não consegue vê como elementos suficientes as questões que estes mesmos trazem. Costumam transitar nos seguintes níveis de compreensão:
• 1) Eles não leram nada, mas confiam muito na opinião daqueles que eles reproduzem posições, incluso amigos;
• 2) Eles até leram os textos de teor nacionalista e apologias ao Vargas, e fazem pouco caso de quem escreve contra; ou
• 3) Eles até leem essas críticas do maoismo, ou dos anti-etapistas, ao invés de ignorar, mas não se convencem.
Quem é da linha que acha que a teoria atualmente já superou os equívocos do "programa democrático-popular" (quiçá jurando que isso se deu desde Caio Prado Jr), ou até quem defende um programa democrático de novo tipo (como os maoistas), costumam ter oposições mais hostis a qualquer defesa do Vargas, obviamente, estes dois grupos por razões distinas.
Mas igualmente esses "comunistas" possuem três níveis de compreensão:
• 1) Eles não leram nada, mas se convenceram ou confiam muito na opinião daquelas pessoas próximas no qual reproduzem posições, amigos, colegas, camaradas;
• 2) Eles até leram as análises do PCB da época do IC sobre Vargas apontando que Vargas só era mero representante do imperialismo norte-americano (contra a República Oligárquica pró-Inglesa), ou o Fausto Arruda; ou ATÉ superaram "e evoluiram" sua teoria para algo anti-etapista (o que nem desmente o Vargas como autêntico representante do nacionalismo, mas afirma só a revolução diretamente socialista tem chances de imperar); ou
• 3) Até leram coisas além disso, e até chegaram a ler a polêmica com Benayon, mas vêem os argumentos do Benayon como insuficientes para a compreensão do que significou Vargas.
Ironicamente, ambos os lados estão certo em alguma medida, já que lê somente Benayon realmente é insuficiente para uma compreensão do período.
Mas o que ignora-se do outro lado, também, é que as informações que os comunistas veicularam sobre a Revolução de 1930, bem como sobre a própria situação do país para a Internacional Comunista (ou III Internacional), eram informações bastante imprecisas e que superestimavam as forças dos próprios revolucionários no país, assim como resumia o conflito de Vargas com a República Velha a uma mera contradição de EUA vs Inglaterra (sendo Vargas um fantoche norte-americano, e a República Coronelista um fantoche britânico).
Os norte-americanos disputavam hegemonia entre os próprios oligárquicos e financiaram pessoas que tentaram combater Vargas, e eu não estou falando da tentativa de golpe de 1954. Os EUA se inclinaram à oligaquia paulista desde o incidente de 1932!
Há claro, o argumento de que, para resolver plenamente a Questão Nacional, precisamos dá conta satisfatoriamente também da Questão Agrária, isso é, a reforma agrária, o que sou inclinado a concordar. É um argumento pertinente. O que vocês ignoram, entretanto, é que o Kuomitang, o partido nacionalista chinês, com todas as suas contradições e disputas de linha (onde os próprios comunistas pressionaram e apoiaram certas alas em detrimento de outras, por algum tempo), TAMBÉM não pautou autenticamente a Reforma Agrária na China, e isso não impediu os chineses de darem informações mais fidedignas à III Internacional sobre a situação chinesa, o que mais tarde resultou numa melhor atuação do Partido Comunista sob a liderança de Mao.
Prestes poderia ter tensionado, poderia ter exercido pressão no núcleo governalmental de 1930, e seria o segundo homem mais importante do Estado (afinal, ele foi convidado DIRETAMENTE PELO VARGAS). Ele poderia usar seu capital político e sua influência - que já era grande e poderia CRESCER - para gerar uma cisão e, senão tentar covencer ou radicalizar o próprio Vargas, carregar consigo várias pessoas que se vislumbraram com o processo (já limitado de 1930) para tocar algo muito melhor e fazer uma Revolução realmente profunda e radical, demonstrando ao povo brasileiro que "tentou compôr, mas as circunstâncias do próprio governo forçaram os comunistas e as camadas populares a romper".
Não nos mesmos termos, mas os chineses foram mestres nisso. Eles forçaram diálogos com o KMT sucessivas vezes, e aproveitaram das circuntâncias adversas, mais tarde até da própria II Guerra Mundial, para demonstrar todas as limitações dos "nacionalistas" chineses, e desmoralizá-los perante o povo conforme o KMT ia se afundando em erros e queria hostilizar os revolucionários.
Não havia revolução socialista 'soviética' iminente no Brasil de 1930. Poderia ter tido uma mais a frente, se atrelando uma posição oficial de "segundo maior homem do Estado" (oportunidade do Prestes tristemente perdida), amparando movimentos extra-institucionais e clandestinos que visassem derrubar o próprio Estado (até numa futura guerra prolongada, se necessário, semelhante ao exemplo chinês).
Mas não houve.
Não é que as orientações da IC sobre o Partido Comunista de nosso país estivessem erradas. É que o PC não amparou nenhuma informação correta, superestimou um suposto apoio norte-americano de um lado, subestimou o apoio do mesmo imperialismo do outro, deu a entender que viviamos uma situação revolucionária com vistas a implementação que logo viria do poder soviético brasileiro...
A irônia da coisa é que as análises sobre Vargas dos comunistas que fizeram isso no passado incorrem nestes mesmos erros de posição histórica que hoje alguns "comunistas" insistem em ter. Erro que o Mao Tsé-Tung nunca cometeu manejando com maestria a relação com o KMT, seja nas aproximações ou nos distanciamentos.
Demonstrar-se disposto ao diálogo, sem abandonar os princípios, e aproveitar-se quando o inimigo ceder e apresentar oportunidade de conversa. Apontar que quando o diálogo for rompido (e ele QUASE SEMPRE O É), a culpa sempre é do outro lado, que não respeita os nossos princpios inegociáveis, e nos ataca forçando um rompimento.
Conquistar legitimidade com o povo na aproximação do inimigo.
Manter legitimidade com o povo na hostilidade do inimigo.
Essas coisas foram feitas lá.
Não aqui.
Os nacionalistas chineses, mesmo cheio de contradições, mesmo não fazendo reforma agrária, mesmo em certas fases históricas perseguindo lideranças camponesas e do partido, foram tratados taticamente dessa forma na China.
O problema é que não querem atualizar os relatórios do Partido Comunista da década de 1920 e 1930, com informações mais precisas e pormenorizadas que hoje temos o privilégio (por nossa posição "histórica" distante) de vermos sob um melhor ângulo.
Eu compreendo o comunista em 1930 não saber que os EUA na verdade ampararam setores anti-varguistas e até apoiaram a contrarrevolução de 1932... Mas um comunista em 2020 não ter ciência desse balanço de forças? Não saber que essas coisas foram admitidas pelos próprios agentes históricos pró-americanos e anti-varguistas já perto de 1940?
Aí é um pouco demais.
Getulistas dogmáticos: leiam Benayon, leiam Pasqualini... Mas também NÃO se limitem em sua bibliografia.
Comunistas "flexíveis": leiam Fausto Arruda, leiam Caio Prado, Marini, os relatórios do PC à IC, mas leiam também Moniz Bandera, leiam também a gigantesca bibliografia de Nelson Werneck Sodré (o que como marxista "sodresiano" é o que mais endosso que leiam).
O debate não parou aí onde vocês querem que pare.
Há níveis mais profundos - e mais completos - de discussão.
Como diria aquele professor do "Brio":
Vocês tem o cérebro do tamanho normal, a mãe deu leite na infância a você como uma criança normal, neurônio em funcionalmento normal... Se o debate tá todo aí acessível para vocês se aprofundarem, basta vocês mergulharem e não se estancarem.
Não seja "tosquinho".
Senão, bem, qualquer um chega e "caga" na sua cabeça.
(Como estão cagando, aliás).
Texto: Bruno Torres