14/03/2020
Com a força presente no março e sob a inspiração da histórica luta do Dia Internacional das
Mulheres, nós trabalhadoras do MST reunidas de 05 a 09 de março, realizamos nosso 1º Encontro
Nacional das Mulheres Sem Terra, embaladas pelo lema – Mulheres em luta, semeando resistên-
cia!
Somos 3.500 mulheres vindas dos acampamentos e dos assentamentos de todos os estados
e contamos com a participação de nossas queridas companheiras de movimentos populares e
organizações políticas do Brasil e também mulheres internacionalistas, de 14 países da América
Latina, América do Norte, Europa e África.
Levamos para a capital do país nossa diversidade cultural, expressões artísticas, experiên-
cias de educação do campo, produção de alimentos saudáveis, formas de organização popular
de base, formação política, trabalho com a juventude e principalmente a síntese da nossa trajetória
na construção de novas relações de gênero.
Sabemos que o patriarcado e o racismo são pilares estruturantes da sociedade de classes.
Nossa luta é para romper com todas as formas de dominação e opressão. O Feminismo Campo-
nês e Popular orienta nossos passos firmes e decididos em busca da nossa libertação.
Denunciamos o projeto político da extrema direita, ultraliberal e fundamentalista que amplia
o conservadorismo, a desigualdade social e a exploração do trabalho através de formas cada vez
mais precarizadas e humanamente aviltantes. O governo Bolsonaro é um serviçal do capital e do
Imperialismo norte americano. Ele entrega nossas riquezas, destrói a natureza, atenta contra a
Soberania Nacional e Popular, retira direitos trabalhistas, previdenciários e comanda uma máquina de guerra e extermínio dos ricos contra os pobres, sobretudo as negras e os negros, a juventude,
LGBTs e mulheres.
O sistema do capital vive uma crise profunda e por isso intensifica a intervenção política e
econômica sobre os países dependentes como o Brasil. Mas as medidas adotadas em nada con-
seguem resolver os problemas reais do povo e, portanto, esse projeto de dominação não durará
para sempre. E é justamente sobre as mulheres que a exploração é ainda mais brutal: segundo o
Dieese as mulheres ocupam 95% a mais de tempo que os homens nas tarefas domésticas e nossos
rendimentos são 22% menores, o que se agrava no caso das mulheres do campo e mulheres negras.
Denunciamos o aumento da violência contra as mulheres e os criminosos atos de feminicí-
dio. A violência contra as mulheres é incitada diretamente pelo presidente da República, que é ma-
chista, misógino e odeia quando uma mulher avança. Além da violência doméstica, as mulheres
do campo sofrem com a violência do latifúndio e do Estado, através das reintegrações de posse,
destruição das nossas casas e roças, assédios, perseguição, tortura e assassinatos.
Denunciamos as empresas do agronegócio e da mineração que seguem sem freios na im-
plantação de uma pauta máxima, ditada exclusivamente pelo aumento de suas taxas de lucro. São arquitetos da destruição ambiental, desmatadores da vida, saqueadores dos bens naturais e assassinos de vidas que se misturam em lama e sangue. São homens escravocratas que expropriam
as terras já conquistadas por indígenas, quilombolas e sem-terras. Levam o veneno diretamente
para o prato das famílias brasileiras, contaminam as águas e lucram com a venda do remédio,
para curar a doença criada por eles mesmos. Privam os povos do direito à alimentação e são os
responsáveis diretos pela fome, pela miséria e pela catástrofe climática.
Repudiamos a entrega das terras públicas da União e das terras devolutas dos Estados para
o capital. Exigimos que faça valer a Constituição Brasileira e que essas terras sejam destinadas
para a Reforma Agrária. Seguiremos ocupando os latifúndios, pois somente assim retomaremos
as terras usurpadas em 350 anos de escravidão do povo indígena e negro.
Repudiamos a privatização dos assentamentos, o fim das políticas públicas e programas so-
ciais importantes como o Pronera (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária), que já
escolarizou mais de 192 mil pessoas do nível básico ao de pós-graduação e que está sendo des-
truído pelo atual governo. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) foi total-
mente desestrurado e perdeu sua função de responsável pela reforma agrária, se transformando
numa imobiliária de regularização fundiária a serviço dos latifundiários.
Apesar de tudo que nos oprime e nos impede de ser livres, estamos despertas e seguimos
em luta semeando resistência. Lutamos por direitos sociais e por transformações radicais na polí-
tica e na economia. Nos somamos às lutas da classe trabalhadora iniciadas neste ano, com des-
taque para os petroleiros e as petroleiras.
Seguimos na nossa resistência ativa e na construção da Reforma Agrária Popular. Convoca-
mos a sociedade brasileira para as lutas de março, no 8 - Dia Internacional das Mulheres, no dia
14 - Justiça por Marielle Franco e Anderson Gomes e pelo fim das milícias e no dia 18 em defesa
da educação e contra a mercantilização e bestialização do conhecimento.
Nos comprometemos na construção de um março que pode marcar a virada política nas lu-
tas de massas que a nossa classe trabalhadora tanto necessita. Vamos com força para cima deste
projeto de morte que está no poder. Somos feitas de pedras e sonhos. Somos pequenas gotas
que juntas formam uma grande correnteza de lutas e também de conquistas, que arrancaremos
na marra como direito legítimo dos povos em movimento.
Reafirmamos toda nossa solidariedade aos povos do mundo em luta. Por uma Palestina livre!
Pelo fim ao bloqueio do Império contra Cuba! E pela Soberania Popular da Venezuela!
Quando as mulheres trabalhadoras entram para a luta é para decidir o presente e arrancar
das entranhas do futuro a alegria da realização dos seus sonhos. Não sonhamos pouco! Pisamos
ligeiro e seguimos em marcha, determinadas pela construção de uma sociedade socialista e um
mundo que não nos mate e aprenda a nos respeitar. Queremos e podemos tudo.
Somos a revolução silenciosa que rompe o possível e o estabelecido. Somos rebeldia e gritamos: não calarão a nossa voz!
Nós que amamos a revolução, resistiremos!
Mulheres em luta, semeando resistência!
Sem feminismo não há socialismo!
Brasília, 9 de março de 2020.