Cebrapaz Mato Grosso do Sul

Cebrapaz Mato Grosso do Sul Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz - Núcleo Mato Grosso do Sul. São Paulo Brasil, 10 de dezembro de 2004

Carta de Princípios

A humanidade toma consciência da necessidade urgente da paz mundial para que possa organizar a vida dos povos e usufruir as conquistas científ**as que enriqueceram o conhecimento humano. Em todo o mundo os povos manifestam-se contra as guerras, a violência e as injustiças que têm sido promovidas por elites que exercem o poder absoluto no planeta através da concentração dos rec

ursos econômicos, políticos e bélicos. Em defesa da democracia condenam a escalada do autoritarismo que os transformam em escravos dos desígnios imperialistas.Os atos de violência de variada natureza se sucedem em resposta à crescente opressão exercida por governos que se distanciam da ONU, criada para a defesa dos Direitos Humanos e da autonomia das nações. Lideradas pelos Estados Unidos, as elites autoritárias impõem a sua vontade pela força, destruindo países e massacrando populações civis. A partir do uso da bomba atômica contra Hiroshima e Nagasaki no Japão e do bombardeio que destruiu a cidade de Dresden na Alemanha, quando a Segunda Grande Guerra já havia terminado, os governos que hoje alimentam as guerras mantiveram a estratégia do poder bélico como afirmação do seu poder no mundo. Seguiram-se guerras de caráter neocolonialista que resultaram na divisão de países como Coréia, Vietnam, Palestina, Afeganistão, Iugoslávia, Iraque e vários países da África, Ásia e América Central, além de intervenções políticas que impediram o fortalecimento democrático de diversas nações. Como resultado dessa estratégia de dominação, foram impostos governos subordinados aos interesses imperialistas, acentuando a exploração e o controle da economia e da vida dos povos dominados, a quebra das condições de desenvolvimento nacional com a conseqüente fome e dependência de ajudas humanitárias para a sobrevivência. Segundo o Informe do Milênio do secretário-geral das Nações Unidas, quase a metade da população mundial tem que subsistir com menos de dois dólares ao dia. Um bilhão e duzentos milhões de pessoas dispõem de menos de um dólar diário. As populações da África subsaariana são hoje em dia quase tão pobres como há 20 anos. De uma força de trabalho ao redor de três bilhões de pessoas, 140 milhões de trabalhadores estão desempregados e entre um terço e um quarto estão subempregados. A nível mundial, um bilhão de pessoas que vivem nos paises desenvolvidos recebem 60% da renda mundial, enquanto três bilhões e meio de habitantes dos países pobres recebem menos de 20%. Enquanto isso, as grandes potências disputam o controle das riquezas nacionais, dos mercados e das esferas de influência no mundo. Com falsos pretextos, como o da existência de armas de destruição em massa no Iraque, os Estados Unidos e seus aliados têm desenvolvido a estratégia das guerras preventivas que aniquilam a vida nacional e instalam o caos, permitindo o controle externo das riquezas, como o petróleo por exemplo, e a proliferação de recursos para as redes internacionais do crime, como é o caso do aumento da produção de dr**as no destroçado Afeganistão. Populações indefesas subordinam-se à miséria e às redes do crime organizado, incorporando-se nos serviços de prostituição, de tráfico de dr**as e armas, de crimes contratados, como se fossem os modernos escravos. Em discurso no dia 02/09/04, o presidente Bush traçou a sua filosofia do conservadorismo compassivo que está na base deste esforço para substituir a consciência política e social, que os povos alcançam com a vida democrática, pela confiança cega na sua liderança: cada um melhora as suas vidas mas não dirige as suas vidas. Proclama-se um protetor, um líder predestinado a combater o eixo do mal em qualquer ponto do planeta, eliminando as normas do direito internacional. Invasão e ocupação de países soberanos, massacres de populações civis e a abominável prática das torturas são as resultantes da política da superpotência do mundo contemporâneo, um sinal de retrocesso civilizacional e de barbárie. As ameaças à paz são particularmente agudas em sociedades marcadas pela fome, a miséria, a dependência econômica e o crime organizado. Lutamos pela paz mundial empenhando-nos também em favor de iniciativas que visam a solucionar os graves problemas que tornam a população vulnerável a um nefasto controle externo dentro da estratégia de domínio imperialista. Defendemos a paz mundial, com justiça social, distribuição de renda e de riqueza, democracia, soberania nacional e desenvolvimento. No Brasil vivemos um momento histórico em que a sociedade se mobiliza para combater esses males que existem há séculos, impondo situações de insegurança e de violência. Muitas são as iniciativas voltadas para reforçar a consciência social levadas às áreas mais carentes do território nacional através de educação, formação de cooperativas, apoio religioso, manifestações artísticas, que aplicam o valioso sentido de solidariedade e a criatividade dos brasileiros na luta persistente para que o Brasil se fortaleça por meio do seu povo. Concebemos a luta pela paz integrada na mobilização do esforço nacional para combater o crime organizado, a lavagem de dinheiro, a corrupção, a expansão da AIDS, a proliferação das dr**as e o uso descontrolado das armas. Essa mobilização tem sido extraordinária e representa um grande passo no desenvolvimento de uma consciência social que reforça a independência nacional. Importantes meios de comunicação, profissionais, Universidades e ONGs participam dessas campanhas, investindo recursos e talento para a obtenção do êxito que hoje sensibiliza outros povos. O laço da solidariedade internacional se estende nos dois sentidos, assegurando a presença do Brasil nas manifestações pela paz em todo o mundo. Entidade da sociedade civil, plural, democrática, patriótica, solidária e humanista, o Cebrapaz Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz adota estes princípios e assume os seguintes compromissos:

- Lutar pela paz mundial, contra as guerras de ocupação, em defesa da soberania de todos os povos e nações;

- Denunciar os crimes de guerra, os massacres de populações civis, a abominável prática da tortura e defender os Direitos Humanos;

- Prestar solidariedade a todos os povos que lutam por seus direitos sociais e políticos pela autodeterminação. Em nome destes princípios e compromissos, o Cebrapaz convida todos a unirem os seus esforços pela paz como condição de liberdade, de combate à miséria, de proteção à natureza, de desenvolvimento nacional, de democracia e independência, no reforço ao espírito de solidariedade com toda a humanidade .

ALEMANHA: TERREMOTO POLÍTICO!                         Raul Carrion, 03.09.24     Interessante análise do jornalista e  e...
03/09/2024

ALEMANHA: TERREMOTO POLÍTICO!
Raul Carrion, 03.09.24

Interessante análise do jornalista e escritor Thomas Fazi, sobre o terremoto político ocorrido na Alemanha nas duas últimas eleições - primeiro para o Parlamento Europeu e logo para o estados da Saxônia e da Turingia, da antiga Alemanha Oriental -, que expressaram uma grave derrota dos partidos que sustentam o atual governo (SPD-Verdes-FDP) e o avanço signif**ativo tanto à direita, com a "Alternativa para a Slemanha (AfD), quanto à esquerda, com a "aliança Sahra Wagenknecht" (BSW).
Em primeiro artigo, que compartilho hoje, Fazi examina os surpreendentes resultados do BSW - criado poucos meses antes - nas eleições para o Parlamento Europeu e analisa as suas principais bandeiras e propostas, mostrando que o seu sucesso se deveu a uma postura econômica e social claramente de esquerda, à sua crítica aberta à subordinação da Alemanha à política belicista dos EUA e da OTAN - que inclui o crescente envolvimento na Guerra da Ucrânia -, combinada com um posicionamento que ele chama de "conservador" nos costumes e a defesa da necessidade de regrar a imigração no país, de forma a viabilizar a assimilação e a integração dos imigrantes, pois, segundo Sahra, sem um "demos" unif**ado, não pode haver nem democracia, nem Estado Nacional.
em seu segundo artigo, que Compartilharei amanhã, Fazi trata dos resultados eleitorais nos pleito da Saxônia e da Turingia - ocorridos no final de semana passado - que confirmaram as tendências indicadas pelas eleições européias - e busca prospectar o futuro da política alemã.
Ainda que possamos ter reservas quanto ao uso de expressões como "populismo de esquerda" e "esquerda conservadora", a análise de Fazi é muito esclarecedora e merece a leitura!
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*"QUEM TEM MEDO DE SAHRA WAGENKNECHT?*

*A "esquerdista conservadora" da Alemanha que redefiniu o populismo*

Thomas Fazi, 31.08.24, unherd.com

Poucos teriam previsto que a Alemanha – há muito conhecida por ter a política mais chata do continente – se tornaria o epicentro da nova revolta populista da Europa, muito menos uma vinda tanto da direita quanto da esquerda. E, no entanto, é exatamente isso que está acontecendo.
Nas recentes eleições europeias, como amplamente esperado, o partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) ultrapassou o SPD de centro-esquerda pela primeira vez, tornando-se o segundo maior partido do país, depois da aliança de centro-direita CDU/CSU. Enquanto isso, os dois principais partidos entre eles ganharam menos de 45% dos votos — abaixo dos 70% de apenas 20 anos atrás. Foi o maior colapso do mainstream político alemão desde a reunif**ação.
A verdadeira surpresa, no entanto, foi o desempenho impressionante de um novo partido populista de esquerda lançado alguns meses antes pelo ícone da esquerda radical alemã: a Sahra Wagenknecht Alliance (BSW). No geral, o partido obteve 6,2% dos votos; mas, assim como a AfD em eleições anteriores, teve um desempenho muito melhor no leste do país, marcando dois dígitos em todos esses estados, mas apenas 5% no Oeste. Mais do que tudo, as eleições revelaram que a Alemanha pós-reunif**ação continua nitidamente dividida ao longo de sua antiga fronteira: enquanto os alemães ocidentais também estão sinalizando crescente insatisfação com a atual coalizão SPD-Verdes-FDP, mas permanecendo dentro dos limites da política convencional, os alemães orientais estão se revoltando contra o próprio establishment político.
Assim, com eleições estaduais ocorrendo em três estados do Leste no próximo mês — na Saxônia e na Turíngia neste fim de semana, e em Brandemburgo em 22 de setembro — não é de se admirar que o centro alemão esteja se preparando para o colapso. Mas, embora seja uma conclusão precipitada que a AfD fará ganhos massivos, com o partido liderando as pesquisas em dois dos três estados, a verdadeira surpresa pode ser, mais uma vez, o novo partido de Sahra Wagenknecht, que atualmente está entre 11% e 19%.
Por enquanto, Wagenknecht descartou a formação de governos de coalizão regionais com a AfD, bem como com qualquer partido que apoie entregas de armas para a Ucrânia (o que signif**a a maioria dos partidos tradicionais). Mas sua mera presença na cédula irá corroer ainda mais o apoio à coalizão governante — e tornar muito difícil, se não impossível, para esta última formar governos de coalizão centristas em nível estadual.
O fenômeno Wagenknecht é fascinante — e único — por várias razões. Ela não só conseguiu estabelecer o BSW como uma das principais forças políticas do país em questão de meses, mas também está concorrendo em uma plataforma que é única no panorama político ocidental, pelo menos entre os partidos eleitoralmente relevantes. Embora Wagenknecht tenda a evitar enquadrar seu partido em termos cansados de esquerda-direita, sua plataforma pode ser melhor descrita como conservadora de esquerda.
Em suma, isso signif**a que ele mistura demandas que antes seriam associadas à esquerda socialista-trabalhista — políticas governamentais intervencionistas e redistributivas para regular as forças do mercado capitalista, pensões e salários mínimos mais altos, políticas generosas de bem-estar e previdência social, impostos sobre a riqueza — com posições que hoje seriam caracterizadas como culturalmente conservadoras: antes de tudo, um reconhecimento da importância de preservar e promover tradições, estabilidade, segurança e um senso de comunidade.
Isso inevitavelmente implica políticas de imigração mais restritivas e uma rejeição do dogma multiculturalista, no qual as minorias se recusam a reconhecer a superioridade de regras comuns, ameaçando a coesão social. Como diz o texto fundador do partido: “A imigração e a coexistência de diferentes culturas podem ser enriquecedoras. No entanto, isso só se aplica enquanto o influxo permanecer limitado a um nível que não sobrecarregue nosso país e sua infraestrutura, e enquanto a integração for ativamente promovida e bem-sucedida.” O que isso parece na prática ficou claro em 2015, quando Wagenknecht criticou fortemente a decisão da então chanceler Angela Merkel de permitir a entrada de centenas de milhares de requerentes de asilo, invocando o mantra “Wir schaffen das!” (“Nós podemos fazer isso!”). Um ano depois, após uma série de ataques terroristas perpetrados por migrantes, Wagenknecht divulgou uma declaração que dizia: “A recepção e integração de um grande número de refugiados e imigrantes está associada a problemas consideráveis e é mais difícil do que o frívolo 'Nós podemos fazer isso!' de Merkel.”
Mais recentemente, após um ataque fatal com faca em Mannheim, Wagenknecht atacou novamente as políticas de imigração do governo: “Nós basicamente financiamos a radicalização [do agressor migrante] também. Ele viveu às nossas custas, do dinheiro dos cidadãos.” Seu foco nos benefícios aqui é crucial. Para Wagenknecht, a promoção da coesão social, inclusive restringindo os fluxos de imigração, não deve ser vista apenas como um fim positivo em si mesmo, como por razões de segurança pública, mas também como uma pré-condição para a busca de políticas economicamente redistributivas, e até mesmo da própria democracia. Somente uma comunidade política definida por uma identidade coletiva — um demos — é capaz de se comprometer com um discurso democrático e com um processo de tomada de decisão relacionado, e de gerar os laços afetivos e vínculos de solidariedade necessários para legitimar e sustentar políticas redistributivas entre classes e/ou regiões. Simplif**ando, se não houver demos, não pode haver democracia efetiva, muito menos uma democracia social.
O inverso, claro, também é verdade: a coesão social necessária para sustentar o demos só pode florescer em um contexto onde o estado intervém para restringir os efeitos socialmente destrutivos do capitalismo desenfreado (incluindo o impulso em direção ao livre fluxo de trabalho). Não há, em outras palavras, nenhuma contradição entre ser economicamente de esquerda e culturalmente conservador, diz Wagenknecht; em vez disso, as duas coisas andam de mãos dadas. Nenhum dos dois é o conceito particularmente novo, ela acrescenta: essa foi basicamente a plataforma (vencedora) da maioria dos partidos socialistas e social-democratas europeus da velha escola.
É também por isso que Wagenknecht coloca uma forte ênfase na importância da soberania nacional e é altamente crítica da União Europeia: não apenas porque a UE é fundamentalmente antidemocrática e propensa à captura oligárquica, mas porque não pode ser de outra forma, dado que hoje o estado-nação continua sendo a principal fonte de identidade coletiva e senso de pertencimento das pessoas e, portanto, a única instituição territorial (ou pelo menos a maior) por meio da qual é possível organizar a democracia e atingir o equilíbrio social. Como ela disse: “O apelo por 'um fim ao estado-nação' é, em última análise, um apelo por 'um fim à democracia e ao estado de bem-estar social'”.
Em suma, Sahra Wagenknecht é tudo menos uma típica esquerdista ocidental. Agora, isso tem a ver em parte com o fato de que ela nasceu do outro lado da Cortina de Ferro, na antiga Alemanha Oriental em 1969. Ela se interessou por filosofia e economia marxista quando adolescente, mas o fim da RDA socialista, em 1989, foi, de acordo com seu biógrafo Christian Schneider, "o momento em que o político Wagenknecht nasceu". Ela experimentou isso como um "horror único": como muitos alemães orientais, ela acreditava em um socialismo reformado, não em abraçar o caminho capitalista da Alemanha Ocidental.
No mesmo ano, ela se juntou ao partido comunista da Alemanha Oriental, pouco antes da queda do Muro de Berlim, e então, após a reunif**ação, tornou-se uma das principais figuras do sucessor do partido, o Partido do Socialismo Democrático (PDS). Mesmo naquela época, ela se destacou por ser mais radical e mais conservadora do que seus pares comunistas. "Havia agora essa jovem que queria desesperadamente voltar aos velhos tempos" da RDA, como disse um ex-líder do PDS.
Quando, em 2007, o PDS se fundiu com uma cisão do SPD para dar origem ao Die Linke (A Esquerda), Wagenknecht rapidamente emergiu como uma das principais vozes do partido — e o rosto da esquerda radical alemã. O apoio ao Die Linke disparou para 12% dos votos nas eleições de 2009 para o Bundestag, e permaneceu próximo disso por quase uma década. Wagenknecht também se tornou uma figura-chave no parlamento alemão, servindo como co-presidente parlamentar de seu partido de 2015 a 2019 e como líder da oposição (contra a grande coalizão da chanceler Angela Merkel) até 2017. Foi lá que ela ganhou reputação por sua retórica poderosa e capacidade de desafiar as narrativas políticas tradicionais.
Seu relacionamento com Die Linke, no entanto, tornou-se cada vez mais tenso ao longo dos anos: enquanto o partido foi capturado pelo tipo de "neoliberalismo progressista" que infectou, em um grau ou outro, todos os partidos de esquerda ocidentais, Wagenknecht permaneceu fiel às suas raízes socialistas da velha escola. Suas opiniões sobre imigração e outras questões — que antes seriam completamente não controversas nos círculos socialistas — estavam rapidamente se tornando um anátema na esquerda. Por fim, em novembro de 2019, Wagenknecht anunciou sua renúncia como líder parlamentar, citando esgotamento. Dois anos depois, nas eleições federais, Die Linke obteve menos de 5% dos votos e perdeu quase metade de suas cadeiras — seu pior resultado de todos os tempos. Para Wagenknecht, isso não foi uma surpresa.
Em um livro amplamente discutido publicado no mesmo ano, Die Selbstgerechten (“A Autojustiça”), Wagenknecht explicou as razões para seu crescente afastamento da esquerda dominante. “Esquerda”, ela argumenta, costumava ser sinônimo de melhorar a vida de pessoas comuns forçadas a se sustentar por meio de seu trabalho (frequentemente exaustivo); no entanto, o movimento progressista de hoje passou a ser dominado pelo que Wagenknecht chama de “esquerda de estilo de vida”, cujos membros “não colocam mais os problemas sociais e político-econômicos no centro da política de esquerda. No lugar de tais preocupações, eles promovem questões sobre estilo de vida, hábitos de consumo e atitudes morais”. Ela observa ainda que, longe de serem liberais, os esquerdistas de hoje tendem a ser cruelmente autoritários.
Para Wagenknecht, a tonalidade autoritária desse novo movimento ficou clara durante a pandemia. Ao contrário de praticamente todos os seus colegas — e da maioria da esquerda alemã — Wagenknecht se tornou uma crítica severa dos “bloqueios intermináveis” do governo e do programa coercitivo de vacinação em massa (ela se recusou a tomar a vacina). Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, Wagenknecht também surgiu como a crítica mais vocal do apoio militar da Alemanha à Ucrânia e ao regime de sanções. Isso aumentou sua rixa com o Die Linke, que votou a favor de sanções econômicas contra a Rússia.
Nesse ponto, a separação deles se tornou inevitável — e finalmente, no final do ano passado, Wagenknecht anunciou o lançamento de seu novo partido. A escolha levou ao desmantelamento do Die Linke, que foi forçado a dissolver sua facção parlamentar, e agora praticamente desapareceu do mapa político, recebendo apenas 2,7% dos votos nas eleições europeias de junho.
Desde o lançamento do BSW, Wagenknecht colocou a questão da détente com a Rússia no centro da plataforma de seu partido. Em várias ocasiões, ela destacou como a subordinação da Alemanha à estratégia de guerra por procuração dos EUA e da OTAN na Ucrânia e a recusa em se envolver em negociações diplomáticas com a Rússia são autodestrutivas tanto do ponto de vista econômico quanto geopolítico. Não apenas o embargo de petróleo e gás contra a Rússia é a principal razão para o colapso da economia alemã, mas o governo está, ela disse ao Bundestag, "brincando negligentemente com a segurança e, no pior dos casos, com as vidas de milhões de pessoas na Alemanha". Mais recentemente, ela condenou veementemente o plano do governo de implantar mísseis de longo alcance dos EUA em território alemão e, talvez mais dramaticamente, desafiou a versão em torno do ataque Nord Stream. De fato, após revelações recentes sobre o possível acobertamento do envolvimento ucraniano pelo governo alemão, ela pediu um inquérito público, dizendo que "se as autoridades alemãs tivessem conhecimento com antecedência sobre o plano de ataque ao Nord Stream 1 e 2, teríamos o escândalo do século na política alemã".
É importante notar que Wagenknecht vê a oposição à guerra por procuração contra a Rússia como parte de uma reformulação muito mais profunda da estratégia geopolítica da Alemanha. Seu objetivo, como Wolfgang Streeck escreveu , é "libertá-la do controle geoestratégico dos Estados Unidos, guiada pelos interesses de sobrevivência nacional alemães em vez de Nibelungentreue, ou lealdade à reivindicação da América de dominação política global". Isso necessariamente implica o restabelecimento de relações políticas e econômicas de longo prazo com a Rússia, o que poderia potencialmente estabelecer as bases para uma nova arquitetura de segurança eurasiana, e até mesmo uma comunidade eurasiana de estados e economias.
Em outro lugar, Wagenknecht criticou as políticas “verdes” e de afirmação de gênero do governo, argumentando que “o suprimento de energia da Alemanha não pode ser garantido atualmente apenas por energias renováveis”, e votando contra um projeto de lei aprovado pelo parlamento alemão no início deste ano para facilitar a mudança de gênero legal. “Sua lei transforma pais e filhos em cobaias para uma ideologia que só beneficia o lobby farmacêutico”, disse ela.
Se isso parece direto, é porque é. Mas, juntos, a economia esquerdista da velha escola de Wagenknecht, a política externa pró-paz e anti-OTAN e a perspectiva cultural conservadora estão repercutindo entre os eleitores. E, como resultado, ela agora se encontra na mira tanto do establishment quanto de seus concorrentes populistas. De fato, na direita em particular, a crítica comum dirigida a ela é que, ao afastar os eleitores da AfD, ela está enfraquecendo e dividindo a frente populista da Alemanha.
No entanto, as evidências para isso são um tanto instáveis. Em vez disso, pesquisas de opinião mostram que o surgimento do BSW não parece ter afetado excessivamente a AfD, que continua a manter uma parcela de votos de 30% em vários estados do leste da Alemanha e 20% nacionalmente. Na verdade, de acordo com um estudo recente da Fundação Hans Böckler, o BSW está na verdade atraindo eleitores principalmente do centro e da esquerda — Die Linke e o SPD — em vez da AfD. A agenda econômica firmemente de esquerda do BSW, que o coloca em desacordo com a política econômica neoliberal do AfD, parece ser a chave aqui: o estudo mostra que o BSW atrai apoio principalmente de grupos socialmente marginalizados e de baixa renda — tradicionalmente, o grupo-alvo clássico dos partidos social-democratas. Isso também explica por que ela desfruta de um apoio muito mais forte na Alemanha Oriental, que tem PIB per capita e salários signif**ativamente mais baixos, e maiores taxas de desemprego e pobreza do que a Alemanha Ocidental.
Isso sugere que a agenda conservadora de esquerda de Wagenknecht está preenchendo um espaço político que antes estava vago, aspirando eleitores alemães que estão desiludidos com a política convencional e até mesmo muito críticos da imigração, mas que ainda assim se sentem desconfortáveis em votar em um partido que tem traços inegavelmente xenófobos ou racistas. O BSW, por outro lado, representa uma opção "não extremista" muito mais palatável para esses eleitores populistas em potencial. Isso é ainda mais confirmado pelo fato de que, apesar de sua postura dura sobre a imigração, o BSW parece estar conquistando um número acima da média de eleitores de origens migrantes, um grupo demográfico que tradicionalmente vota em partidos de centro-esquerda. Em suma, as evidências sugerem que Wagenknecht está, na verdade, ampliando a frente populista em vez de simplesmente expulsar o grupo populista existente.
É isso, junto com o fato de Wagenknecht estar entre os três políticos mais populares da Alemanha, que explica por que o establishment decidiu partir para o ataque. Nas últimas semanas, a mídia de lá lançou uma campanha implacável contra Wagenknecht e o BSW, previsivelmente focada em alegações de que ela é uma "propagandista russa" — ou "Vladimir Putinova", como um artigo a chamou. Ainda mais desesperadamente, alguns tentaram pintar Wagenknecht, uma comunista literal, como uma "extremista de extrema direita". Só esta semana, o Politico, que é de propriedade do titã da mídia alemã Axel Springer, perguntou sem ironia: "A superestrela em ascensão da Alemanha é tão de extrema esquerda que é de extrema direita?"
A resposta, claro, é um chato nein. E sem dúvida uma pergunta muito mais interessante será lançada pelos resultados deste fim de semana: com uma eleição geral marcada para o ano que vem, a Alemanha finalmente encontrou um político capaz de romper seu muro ideológico?"

Link para o artigo de Thomas Fazi: https://unherd.com/2024/08/whos-afraid-of-sahra-wagenknecht/

18/08/2024

BATALHA DAS RUAS: CHAVISMO DÁ MAIS UMA "SURRA" CÍVICA NA EXTREMA-DIREITA GOLPISTA, PATROCINADA PELOS EUA - Eu sei que tem quem não goste que se fale, que f**a irritado e até te insulta, mas olha só esse regime "desagradável" e "autoritário" que resiste a mil sanções, roubo de contas no exterior, terrorismo, ameaça de intervenção estrangeira e guerra civil. Hegemonia nos poderes da República, inclusive no poder que viabiliza a democracia participativa, direta. Povo na rua.

Neste sábado, a oposição golpista de extrema-direita, patrocinada pelos EUA, tomou uma "surra" cívica do chavismo na batalha das ruas.

Enquanto isso, na nossa "agradabílissima" democracia brasileira, temos dificuldade com o Jornal Nacional, o Twitter e os tios e tias do zap, pra não falar das instâncias de poder, de um BC presidido por um indicado pelo desgoverno ultraliberal neofascista derrotado nas urnas...

O deputado estadual Renato Freitas (PT-PR) se agiganta! Nestes tempos ásperos, é preciso coragem para se colocar do lado...
17/08/2024

O deputado estadual Renato Freitas (PT-PR) se agiganta! Nestes tempos ásperos, é preciso coragem para se colocar do lado certo da história!

Afinal, o que está acontecendo na Venezuela? Maduro é um ditador ou democrata? Teve fraude eleitoral ou não? Por que esse é um tema tão debatido e ao mesmo t...

30/07/2024

A HIPOCRISIA DO IMPÉRIO, DA DIREITA, DA EXTREMA-DIREITA E DA "ESQUERDA" COLONIZADA SOBRE A VENEZUELA

Para os EUA, só existirão eleições limpas quando ganhar alguém que lhes entregue a maior reserva de petróleo do mundo. De preferência, uma terrorista de extrema-direita. Se não ganhar, a eleição não é limpa, então, ao de sempre: questionar a lisura da eleição junto com países vassalos, pressionar outros países vacilantes a fazer o mesmo, estabelecer sanções e embargos, roubar contas no exterior (só o Banco da Inglaterra, 31 bilhões se dólares em lingotes de ouro!), como os que causaram prejuízos de cerca de 300 bilhões de dólares ao país desde 2015, forçar o desabastecimento para causar fome, formar milícias terroristas, aterrorizar com as guarimbas assassinas, repetir à exaustão que Maduro é ditador, espalhando fake news na mídia se direita e nas redes da extrema-direita do mundo todo.

Eleição democrática é a deles, que há mais de 200 anos opõe apenas dois partidos tão diferentes entre si como a Coca-Cola e a Pepsi-Cola, decidida no Colégio Eleitoral, onde ganha quem leva pelo menos 270 votos, não no voto universal, onde não necessariamente ganha o mais votado, onde, por exemplo, se um candidato ganha por um voto na Califórnia, leva todos os 70 votos para o Colégio Eleitoral, ou seja, rasgando metade das dezenas de milhões de votos dos cidadãos e jogando tudo no lixo. Democrata é o regime nazista de Kiev, que baniu 14 partidos, inclusive de direita e contrários à Rússia, mantendo apenas os dois que sustentam Zelensky, que suspendeu as eleições com lei marcial e está no cargo sem legitimidade eleitoral, porém, chamado de presidente pelos EUA, pela Europa Ocidental vassala e pela "esquerda" neoliberal colonizada como a do presidente do Chile, Gabriel Boric,

Desde eleição de Chávez, a Venezuela enfrentou e derrotou 7 tentativas de assalto violento, golpista, do poder, 6 delas só contra Maduro, com republicano ou democrata no comando do Império do Norte e da Morte. Botou pra correr a máquina de guerra mais poderosa da história da humanidade, quando Trump esteve à beira de invadir o país. Superaram os embargos contra o petróleo, as quase mil sanções e o roubo/pirataria de contas no exterior, que causaram os prejuízos de centenas de bilhões de dólares mencionados.

Nesse meio tempo, ainda realizou 30 eleições, plebiscitos e referendos, com Chávez e Maduro perdendo apenas dois processos - um referendo constitucional, na época do Chávez, e uma eleição para a Assembleia Nacional, na época de Maduro -, reconhecendo de imediato a vitória da oposição. É o país que mais realiza eleições e consultas à população, com vigoroso exercício da democracia direta, participativa, que no Brasil é uma lenda, sufocada e boicotada, apesar de prevista na Constituição.

Mas aqui, tem a "esquerda" neoliberal que a direita gosta, invertebrada, colonizada e ajoelhada diante do Império, querendo dar lições à Venezuela sobre como lidar "democraticamente" com a "oposição" - leia-se extrema-direita golpista e terrorista -, sendo que, no Brasil, não aguentamos com o Jornal Nacional, o Twitter e as tias e tios do zap zap do Jair. Aliás, a estes que essa "esquerda" - Globo, CNN, Trump, Partido Democrata dos EUA (apesar da boa posição de Kamala Harris), aos terroristas da extrema-direita daqui (Bolsonaro) e da Venezuela (Corina Machado).

Mario Fonseca

"Não chores por mim Argentina, chores por tiDesde ontem à noite, quando ficou definido o resultado da eleição presidenci...
21/11/2023

"Não chores por mim Argentina, chores por ti

Desde ontem à noite, quando ficou definido o resultado da eleição presidencial argentina, ouvimos por todos os meios de comunicação tentativas de entender e explicar o que signif**ará a nova gestão do país que amarga desvalorizações quase diárias da moeda, fenômeno que nós brasileiros desconhecemos desde o final do governo de José Sarney, o primeiro presidente civil depois da ditadura militar.

*Caio Teixeira, de Buenos Aires

Milei, assim como Bolsonaro, nunca escondeu o que pretendia. Sempre esteve claras as promessas de dolarizar a economia, fechar o Banco Central e privatizar absolutamente tudo o que ainda não foi entregue. Nas suas primeiras manifestações o presidente eleito já afirmou que vai privatizar a empresa petroleira YPF e os meios de comunicação públicos. Disse ainda que vai começar as mudanças prometidas em ritmo acelerado. Apesar de esta segunda-feira pós-eleição ser feriado na Argentina, as ações da YPF já subiram na Bolsa de Nova Iorque, deixando claro o interesse do capital internacional em literalmente comprar o país vizinho.

Muitos economistas prevêem uma corrida ao dólar tão logo abra o mercado nesta terça (21) o que deve provocar o aumento drástico do seu valor e consequente impacto na capacidade de compra dos salários pagos em pesos que começam a desvalorizar no momento em que são recebidos.

Milei conseguirá maiorias no Congresso para aprovar seu programa

Do Brasil, a maior interrogação é se Milei terá maioria no Congresso para aprovar suas mudanças radicais. Pois bem, os peronistas elegeram 107 deputados na coalizão de Massa e mais 7 dissidentes independentes que se posicionam à direita da bancada majoritária, cujos votos são sempre uma incógnita. A direita tradicional da coalizão Juntos por el Cambio, de Patrícia Bullrich vai contar com 94 deputados que tendem a atuar em bloco com os 39 deputados eleitos pela coalizão de Milei. Além, desses há mais 4 deputados da Frente de Esquerda e outros 6 não alinhados com nenhuma dessas forças. No Senado a situação é mais favorável aos peronistas que elegeram 35 senadores contra 24 do Juntos por el Cambio de Bullrich, 7 de Milei, 3 peronistas de direita e outros 3 não alinhados a nenhum desses.

Para aprovação de leis comuns é necessário o voto de metade mais um dos membros de cada casa, e, em alguns casos apenas dos presentes e o novo governo em tese os teria. Já para reformas constitucionais, o quórum exigido é de 3/5, ou seja 155 deputados e 43 senadores e Milei não os tem. Ou seja, se votarem em bloco os peronistas conseguem impedir qualquer reforma constitucional, mas não são suficientes para impedir aprovação de leis ordinárias.

Entretanto, a direita de Milei-Bullrich escolherá os presidentes da Câmara e do Senado para o que necessitam apenas de maioria simples.
Ocorre que durante o governo de Carlos Menem, contemporâneo de Fernando Henrique Cardoso no Brasil e parceiro na implementação do neoliberalismo nos anos 90, se eliminou da Constituição os impedimentos para privatizar estatais, por exemplo, necessitando apenas uma lei. Entretanto para extinguir a moeda nacional e o Banco Central é necessária uma reforma constitucional e isso só será possível se os direitistas conseguirem cooptar deputados e senadores peronistas. Para dolarizar a economia do país, Milei vai ter muito trabalho e, além disso, enfrentará interesses de parte empresariado e dos bancos que durante a campanha já se manifestaram, contrários à medida. Talvez sabendo das dificuldades, ele que o processo de troca de moeda pode durar de 12 a 18 meses. A medida atende diretamente aos interesses estadunidenses que querem a todo custo impedir o abandono do dólar como moeda de transações internacionais em curso no mundo a partir da iniciativa dos BRICS e do próprio Mercosul que já deixou de utilizar aquela moeda no comércio entre os membros do grupo. Neste sentido, o presidente eleito da Argentina já declarou que a política externa do país se alinhará aos EUA e Israel, que serão destino de suas primeiras visitas oficiais, exatamente como fez Bolsonaro.

Trabalhadores preparem-se para as primeiras medidas

Durante esta segunda-feira Milei falou a diversos veículos de comunicação e antecipou algumas medidas que devem ser prioritárias e outras nem tanto. E os trabalhadores que o agraciaram com seus votos já podem ter uma ideia do que os espera.

Dentre outras coisas, fiel ao princípio de Estado Zero, prometeu revogar a “Lei dos Aluguéis”, uma conquista dos inquilinos que estabelece prazo mínimo para os contratos, índices de reajuste, proibição de cobrança antecipada, de vinculação ao dólar, dentre outras garantias essenciais a quem vive de salários. Os aluguéis serão tratados como contratos comerciais acertados livremente entre proprietários e inquilinos estabelecendo assim, a “liberdade” dos especuladores de cobrar o que bem entenderem.

Sobre a YPF, disse que vai demorar até dois anos para privatizar pois a empresa tem que ser preparada antes de colocada a venda. A “preparação” é o padrão em todas as privatizações e signif**a demissão em massa para que os novos donos possam recontratar pela metade do salário. É o que acontece em 100% dos casos.

As melhorias no valor ridículo das aposentadorias, promessa de campanha, vão ter que esperar, sem prazo, pois “há outros temas na frente”.

A espera não f**a por aí. O primeiro ato anunciado para o “ajuste fiscal” será paralisar as obras públicas, o que, segundo economistas pode signif**ar de imediato algo em torno de 250 mil empregos extintos. Aliás, ele afirmou textualmente que “o setor público vai pagar o ajuste”. Ou seja, preparem-se para o pior servidores públicos, vocês vão perder empregos e direitos e usuários vão perder os serviços essenciais. E preparem-se logo pois o futuro presidente avisou: “não há lugar para gradualismos nem fraquezas”. Em nome da “liberdade”, o autointitulado “libertário” avisa que serão anulados todos os controles de preços impostos pelo Estado.

Finalmente, sobre a política monetária, perguntado sobre a dolarização, avisou que a primeira medida será fechar o Banco Central e deixar as pessoas livres para escolher que moeda usar."

Desde ontem à noite, quando ficou definido o resultado da eleição presidencial argentina, ouvimos por todos os meios de comunicação tentativas de entender e explicar o que signif**ará a nova gestão do país que amarga desvalorizações quase diárias da moeda, fenômeno que nós brasileiros d...

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