29/07/2026
Padre Gaspar Alves Gondim
De acordo com o site Family Search, Gaspar Alves Gondim era do norte de Portugal, tendo nascido em 1714, na freguesia de Santa Eulália de Cerval, lugar de Gondim, localizado na comarca de Valença do Minho, no arcebispado de Braga. Gaspar foi o segundo filho de um casal de lavradores. Assim como outros emigrados portugueses do seu tempo, Gaspar veio para o Brasil na idade da plenitude física, com 21 ou 22 anos, em meados da década de 1730. Foi logo morar na freguesia de São Sebastião, no termo da vila do Ribeirão do Carmo. Pode–se supor que tenha se envolvido na época com os irresistíveis, para um jovem colonial, negócios de fronteira do sertão do oeste, pois alguns agentes da abertura da picada de Goiás, como Francisco Rodrigues Gondim e Manuel Rodrigues Gondim, talvez seus parentes, seriam anos mais tarde constantes defensores dos direitos paroquiais do padre Gaspar. Além disso, o jovem Gondim, quando passou a morar na zona do Ribeirão do Carmo, deve ter estabelecido laços de amizade, e sujeição, com o influente coronel Matias Barbosa da Silva e os seus aliados locais (o coronel Caetano Rodrigues e Maximiano Leite), na época tratando da Picada de Goiás. Em São Sebastião e Guarapiranga, associando–se a um irmão, o capitão Antônio de Souza Ferreira, Gaspar Alves Gondim se dedicava a roças e lavras de ouro. Mas, há indícios que o ligam às atividades comerciais. As testemunhas arroladas no inquérito sobre os seus costumes, para que fosse ordenado presbítero, eram naturais de Portugal, e quase todas viviam "de seu negócio". Em 1750, sendo fundado o seminário da Boa Morte em Mariana (sede do bispado criado em 1745), Gaspar entrou para a instituição, então com a idade de 38 anos. Teve uma vida de seminarista elogiada e promissora, tornando–se, depois de promovido nas ordens maiores, capelão da Sé de Mariana. Ali ele permaneceu até ser nomeado vigário da recém-criada Paróquia de São Bento do Tamanduá por Dom Frei Manuel da Cruz em 1757.
O padre encontrou, em Tamanduá, uma ermida coberta de palha. Sua primeira providência foi promover a construção de uma igreja decente. O termo que o vigário emprega com frequência, em sua correspondência, com referência a seu apostolado, é “domesticar” os moradores daquele sertão. Padre Gaspar foi sempre zeloso, conseguiu realmente “domesticar” os aventureiros, edificou boa matriz, chegou a construir sete capelas filiais da freguesia de São Bento do Tamanduá, e, acima de tudo, conseguiu formar ali uma verdadeira comunidade de homens trabalhadores, com famílias de moral rígida.
Logo após assumir a paróquia, o padre Gaspar enfrentou também uma questão de limites com o padre Antônio Mendes Santiago, vigário de São Romão do Bispado de Pernambuco. Em seguida, foi a vez de enfrentar os padres Marcos Freire de Carvalho (que tinha provisão de uso de ordens e altar portátil) e Félix José Soares acerca da Capela Filial do Arraial do Rio das Abelhas, que o vigário fundara juntamente com seu irmão o Sargento-Mor Manoel Alves Gondim. O padre Félix José Soares, aliado do padre Marcos Freire de Carvalho, interessado também nas funções pastorais lucrativas das rotas do trânsito colonial, estava ameaçado de prisão pela Sé de Mariana. No entanto, o padre Félix requereu ao governo da Capitania de Goiás que apossasse o Arraial do Rio das Abelhas, resguardando para si o posto de vigário do arraial, que passou a ser chamado de Rio das Velhas. A capela deste arraial, situada na convergência dos caminhos das Minas e de São Paulo que se dirigiam às povoações de Goiás, exercia um papel importante na disputa pelo território, por isso houve o empenho dos agentes de Tamanduá, apoiando–se nas autoridades da Capitania de Minas Gerais, em desalojar aquele que pretendia ser o novo pároco. A resistência do padre Félix em submeter-se ao poder do vigário de Tamanduá, afetava claramente os interesses do padre Gondim e do povo tamanduaense, pois eles procuravam impedir que outras autoridades coloniais avançassem sobre as rendas eclesiásticas, a administração dos legados pios, as terras e lavras de ouro das dotações patrimoniais e os lucros comerciais advindos dos rituais cotidianos das capelas. Todos estes interesses estavam relacionados ao conflito de jurisdições entre as autoridades judiciais, militares e eclesiásticas das duas capitanias.
Passados 25 anos de paroquiato do padre Gaspar, em 1782, quando a paróquia rendia 17 mil cruzados de dízimos, entra em cena o vigário de São José Del Rei, padre Carlos Correia de Toledo, pretendendo transformar aquela freguesia que vinha funcionando havia um quarto de século, em simples capela filial de sua matriz. De acordo com o padre Toledo, a Paróquia de Tamanduá era subordinada à vara (comarca eclesiástica) de São José, e, portanto, todos os capelães que ali servissem deviam ser escolhidos pelo vigário desta vila. Além disso, a capela do Arraial de Tamanduá não tinha legitimidade para se intitular matriz, pois, respeitando os direitos tradicionais de posse, o vigário de São José era o verdadeiro pároco dos moradores do lugar. O padre Toledo obteve uma decisão favorável aos seus direitos no juízo da Coroa, e com isso, pediu e obteve do governador ordem ao Bispado, no sentido de que o vigário Gaspar Gondim desistisse de seu emprego e todos os moradores de Tamanduá obedecessem a ele, padre Toledo.
Após conseguir a destituição do padre Gaspar, partiu o padre Toledo para o Arraial de Tamanduá em companhia do Juiz Ordinário da Vila de São José. Chegaram os dois, hospedaram-se e trataram de dormir. Mas não dormiram. Durante a noite, fizeram-se ouvir gritos de protesto, tiros, uma barulheira infernal; e, a certa hora, apareceu debaixo da porta do quarto do Juiz Ordinário uma carta, intimando-o a sair cedo do arraial, pois, do contrário, o vigário iria assistir ao seu funeral. O juiz não se intimidou e não saiu. No dia seguinte, pela manhã, dirige-se padre Toledo à igreja, que encontra fechada; e ninguém dava notícia das chaves. A quase totalidade da população saíra do arraial. O Comandante Inácio Correia Pamplona, depois disso, escreveu ao governador, reclamando providências do governo. Era o protetor do vigário, que ali, não pudera exercer seu ministério. No ano seguinte, 1783, usando da faculdade concedida aos vigários da vara, o vigário de São José nomeou o padre Lourenço Pinto Barbosa como capelão, o Comandante e Mestre de Campo Inácio Correia Pamplona escreveu ao Comandante de Tamanduá, capitão José Pais de Miranda, ordenando que facilitasse a posse do novo capelão. Chegou o padre Lourenço, mas o capitão Miranda alegou que havia perdido as chaves da igreja. Durante dois dias procurou-se inutilmente. Padre Lourenço teve vontade de mandar arrombar a porta da igreja; mas examinando o ambiente em que se encontrava, julgou mais prudente não o fazer. Afinal, desiludido, retirou-se de Tamanduá, segundo ele próprio declarou em carta a Pamplona, “antes que façam alguma desatenção”. Foi então o próprio Pamplona à Tamanduá, abriu inquérito e expulsou do arraial três elementos dentre os que julgou mais responsáveis pela resistência popular: Antônio Rodrigues Azambuja, Custódio José da Silva e João da Silva Pereira. O comandante do distrito de Desterro, a pedido de Pamplona, também esteve em Tamanduá, numa tentativa de conciliar a situação, porém não obteve êxito.
O padre Toledo apelou até mesmo para o mais alto tribunal eclesiástico português, a Mesa de Consciência e Ordens, mas perdeu. Por fim, o padre Gaspar Alves Gondim saiu vitorioso e fortalecido, pois os habitantes de Tamanduá lhes foram sempre fiéis. Depois de 34 anos, sendo boa parte deles com disputas jurisdicionais, chegou ao fim o paroquiato do padre Gaspar.
Referências bibliográficas:
ARAÚJO, Célia Lamounier de. Itapecerica: antologia nº 1. Belo Horizonte: CMC - Consórcio Mineiro de Comunicação Ltda, 1993. 173p.
DIOCESE DE DIVINÓPOLIS. Histórico da Paróquia de São Bento – Itapecerica. Disponível em: https://diocesedivinopolis.org.br/historico-da-paroquia-de-sao-bento-itapecerica/
FAMILYSEARCH. Gaspar Alves Gondim. Disponível em: https://ancestors.familysearch.org/pt/GVGL-W14/gaspar-alves-gondim-1743-1800
GONDIM, Carlos; LOPES, Geraldo Magela Gondim. Memorial do Legislativo de Itapecerica. Itapecerica (MG): Câmara Municipal de Itapecerica, 2007. 536p.
Pesquisa feita pelo professor Leonardo Alves
Figura: Mapa da Freguesia de São Bento do Tamanduá produzido provavelmente na década de 1770.