Curso de Leitura e Redação

Curso de Leitura e Redação O curso objetiva contribuir efetivamente para a expansão da capacidade crítica de interpretação e construção de textos voltados para os vestibulares e ENEM

O curso objetiva, em seus alunos, contribuir efetivamente para a expansão da capacidade crítica de interpretação e construção de textos voltados para os vestibulares e o ENEM. Além das tradicionais regras da Língua Portuguesa, é trabalhada também uma visão mais ampla sobre linguagem, língua e sociedade, para uma melhor compreensão das complexas provas dos vestibulares e do ENEM atuais.

25/02/2014

Matrículas Abertas para o Curso de Leitura e Redação para Vestibular e ENEM 2014. Para mais informações, ligue (62)9922-9290 | (62)8244-3949 | (62)9358-3920

Concisão: o menos vale maisPor Chico Viana*“Quem muito fala muito erra” – diz o ditado. E quem muito escreve, além de ta...
25/02/2014

Concisão: o menos vale mais
Por Chico Viana*

“Quem muito fala muito erra” – diz o ditado. E quem muito escreve, além de também correr o risco de errar, tende a se perder no excesso de palavras. O exagero dessa tendência constitui a verborragia, ou seja, o ato de escrever demais e expressar um mínimo de ideias.

O oposto da verborragia é a concisão, que se define como a economia de palavras. O poeta Jose Paulo Paes destaca essa qualidade em “Poética”: “Conciso? Com siso // Prolixo? Pro lixo.” Jogando com os homônimos, ele afirma que o que é escrito com poucas palavras revela sensatez. E o que tem palavras em excesso (prolixidade é a “demasia ao falar ou escrever”) deve ir para o lixo. O poeta pratica o que defende, pois seu poema não tem mais do que dois versos.

Um dos maiores desafios para quem escreve é mesmo eliminar o entulho verbal. Às vezes o autor tem que escrever duas ou mais versões do texto, sempre cortando, para chegar à simplicidade e à clareza que garantem a comunicação.

Um dos excessos por vezes encontrado nas redações é a duplicação de palavras. Parece que usar apenas um verbo ou um substantivo não satisfaz. É preciso emparelhá-lo com outro, embora nem sempre o resultado seja bom.

Por exemplo: “Necessitamos de medidas para preservar e cuidar do ecossistema”, “O trabalho estimula e eleva o amor-próprio”, “Nosso sistema carcerário limita e inibe a reintegração do preso à sociedade”, “Os pais precisam orientar e dirigir os filhos”, “É preciso manter a atenção e o foco nas metas”, “O professor deve estimular a solidariedade e a união do grupo”.

O propósito dos alunos é dar ênfase, mas o que eles conseguem é o oposto. Um dos termos, por nada acrescentar ao outro ou estar nele contido, acaba enfraquecendo-o. Na correção deve-se cortar o que tem menor peso semântico. Basta dizer: “Necessitamos preservar o ecossistema”. É impossível preservar sem cuidar; logo, o segundo verbo está sobrando. Isso vale para todos os pares apresentados no parágrafo anterior. Se o leitor tem dúvida, faça o teste.

O valor da concisão se revela especialmente nos provérbios. Eles resumem a sabedoria popular e devem parte do seu “caráter sentencioso” à forma condensada. Já imaginaram enunciar os provérbios de outra maneira? Desmembrá-los, preservando o conceito e deixando de lado a forma? O conhecido “Quem não tem cão caça com gato”, por exemplo, f**aria mais ou menos assim: “Aquele que não dispõe de um mamífero carnívoro da família dos canídeos persegue animais silvestres para caçar ou matar com um pequeno mamífero carnívoro, doméstico, da família dos felídeos.”

Reescrever provérbios é um bom exercício para avaliar o efeito da concisão. De quebra, tem o mérito de levar a que se consulte o dicionário. Leia a reescrita que fizemos de algumas conhecidas sentenças populares e compare, no final, como a formulação sintética aumenta o impacto sobre o leitor:

1) Cada espécime dos primatas deve permanecer na subdivisão do caule de uma árvore ou arbusto que lhe é devida.
2) O Todo-Poderoso presta assistência aos que antes da ocasião própria levantam da cama ao alvorecer.
3) Quem sente grande afeição por alguém de aparência desagradável, desproporcional ou disforme, terá a impressão de que essa pessoa lhe suscita prazer estético.
4) Cada indivíduo cujo comportamento ou raciocínio denota alterações patológicas das faculdades mentais cultiva seus hábitos peculiares e obsessivos.

Provérbios: 1) Cada macaco no seu galho. 2) Deus ajuda quem cedo madruga. 3) Quem ama o feio, bonito lhe parece. 4) Cada louco com sua mania.

Chico Viana é doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou, entre outros títulos, "O evangelho da podridão; culpa e melancolia em Augusto dos Anjos" e quatro livros de crônicas.

05/02/2014

Tirando conclusões

A riqueza argumentativa dos processos de dedução, como os da inferência lógica

Por José Luiz Fiorin*

O romance policial Assassinato no Expresso Oriente (1934), de Agatha Christie, relata um crime de morte cometido no Expresso Oriente, luxuoso trem que ia de Istambul a Londres. Na cidade turca, tinha embarcado o célebre detetive Hercule Poirot. O comboio estava estranhamente cheio para aquela época do ano. Durante a madrugada, um passageiro é assassinado a facadas, o que Poirot só vai descobrir pela manhã. Foi esfaqueado doze vezes, enquanto dormia. Alguns ferimentos são profundos e outros, superficiais; alguns parecem resultados de golpes desferidos por uma pessoa canhota e outros por alguém destro. Como o crime foi cometido depois de o trem entrar numa nevasca, que impede qualquer pessoa de deixar o comboio, o assassino está dentro do Expresso.

O que faz Poirot, como, aliás, qualquer detetive dos chamados romances policiais de enigma, é verif**ar cada indício, cada pista, cada álibi e, fazendo inferências, chegar ao culpado. Em meio às investigações, Poirot percebe uma grande ligação desse assassinato com o caso do desaparecimento e morte de Daisy Armstrong nos Estados Unidos. Isso permite descobrir que os assassinos são doze, que construíram álibis uns para os outros.

Nos romances policiais de enigma, a parte final é dedicada às explicações das inferências feitas pelo detetive para solucionar o mistério.

Inferência é a operação pela qual se admite como correta uma proposição em virtude de sua ligação (por implicação, por generalização ou mesmo, segundo alguns autores, por analogia) com outras proposições consideradas verdadeiras.

O raciocínio inferencial pode estar ou não expresso integralmente no texto. Assim, o processo de leitura implica a realização de inferências. O texto diz mais do que aquilo que está enunciado: ele apresenta pressuposições, subentendidos, consequências não ditas, etc.

As inferências podem ser de ordem lógica, semântica e pragmática.

Inferências lógicas são determinadas por relações entre proposições; são decorrências necessárias de implicações entre proposições.
Um silogismo, por exemplo, apresenta duas premissas (a maior e a menor) e uma conclusão que decorre necessariamente das proposições apresentadas:

As cidades grandes são perigosas.
São Paulo é uma cidade grande.
Logo, São Paulo é perigosa.

Inferência semântica é a que decorre do signif**ado de palavras ou expressões, como no caso dos pressupostos. A frase "André parou de beber" pressupõe que André era alcoólatra.

Inferência pragmática é a que deriva de regras do uso da linguagem. Quando se diz "A bandeira paulista tem 13 listras", isso signif**a que ela tem só 13 listras e não mais de 13 e, portanto, treze, já que uma bandeira que tem, por exemplo, 14 listras tem também 13. Essa conclusão decorre de que um princípio conversacional é que o falante deve dar a informação mais forte de que dispõe. Assim, se ele afirma que a bandeira paulista tem 13 listras isso quer dizer que ela tem só esse número de listras.

Estas páginas trazem alguns processos de inferência lógica.

A eliminação de Sherlock
O primeiro é denominado eliminação. No capítulo 6 do livro O sinal dos quatro, de Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes diz a Watson:
- Você não aplica meus preceitos. (...) Quantas vezes já lhe disse que, quando tiver eliminado o impossível, o que f**a, por mais improvável que seja, deve ser a verdade? Sabemos que ele não entrou pela porta, nem pela janela, nem pela chaminé. Também sabemos que não podia estar escondido no quarto, porque não havia onde se esconder. Logo, por onde ele veio?
- Pelo buraco do teto! Gritei.
- Certamente.
Esse processo se enuncia assim: dados a ou b e não a, podemos concluir b. O criminoso poderia ter vindo pela porta, pela janela, pela chaminé ou pelo buraco do teto ou poderia ter f**ado escondido no quarto. Como não veio pela porta, pela janela ou pela chaminé nem poderia ter f**ado escondido no quarto, então se pode tirar a conclusão de que ele veio pelo buraco do teto.

A afirmação do consequente
O segundo processo de inferência lógica é o da afirmação do consequente, conhecido em lógica pela expressão latina modus ponendo ponens (= modo que afirmando afirma): se a implica b e a é verdadeiro, então b é verdadeiro. É um raciocínio que afirma (a conclusão) pela afirmação do antecedente.
"Se meu time ganhar o campeonato, irei festejar na Avenida Paulista. Meu time ganhou o campeonato. Então, fui festejar na Avenida Paulista."

A negação do antecedente
O terceiro processo é a negação do antecedente, denominado usualmente em lógica como modus tollendo tolens (= modo que negando nega). É aquele que nega (a conclusão) pela negação do consequente: se a implica b e b não é verdadeiro, então a não é verdadeiro:
"Se eu ganhar na loteria, comprarei uma casa nova. Não comprei uma casa nova. Portanto, não ganhei na loteria."

Disjunção exclusiva
O quarto processo é conhecido como regra da disjunção exclusiva: dados a ou b, não sendo b verdadeiro, então a é verdadeiro e vice-versa.
"Ou ele é palmeirense ou é corintiano. Ele não é corintiano. Então, é palmeirense."

Encadeamento
O quinto processo é denominado de regra de encadeamento: se a, então b; se b, então c; logo se a, então c.
"Se comprar uma casa, deixarei de pagar aluguel.
Se deixar de pagar aluguel, sobrará mais dinheiro de meu salário.
Se comprar uma casa, sobrará mais dinheiro de meu salário."
Não custa lembrar a piadinha famosa entre muitos nova-iorquinos. Havia uma pizzaria onde se lia: a melhor pizza do mundo. Inauguraram outra casa do gênero no mesmo quarteirão e escreveram no letreiro: a melhor pizza de Nova York. Abriram outra na mesma quadra e escreveram: a melhor pizza do quarteirão. (Ivan Angelo, VejaSP, 11/7/2012, p. 154).

Contraposição
O sexto processo é chamado de contraposição: se a, então b, se não a, então não b. Nesse caso, a implica b, se e somente se não a implica não b:
"Se um polígono tem três lados, então é um triângulo.
Se um polígono não tem três lados, então não é um triângulo.
Este polígono não tem três lados, então não é um triângulo."

Regra nem-nem
O sétimo processo é alcunhado regra do nem/nem ou de negação da conjunção dupla: se não a e não b, então não a ou não b:
"Não se pode assoviar e ch**ar cana. Como estou assoviando, então não estou chupando cana ou, como estou chupando cana, não estou assoviando."

Não as duas
O oitavo processo é cognominado de regra de não as duas ou de negação da disjunção dupla: se não a ou não b, então não a e não b:
"Pedro não é gaúcho ou não é paraibano. Então, ele não é gaúcho e paraibano simultaneamente."

Bicondicionalidade
O nono processo é conhecido como regra da bicondicionalidade: a se e somente se b, ou, em outros termos, se a, então b e se b, então a, então se a, então b e vice-versa.
"Quatro é maior que dois, se e somente se dois for menor que quatro. Se quatro é maior que dois e dois é menor que quatro, então quatro é maior do que dois e dois é menor do que quatro."
"Alguém tem nacionalidade romena se e somente se for descendente de romenos. Pedro é romeno, então é descendente de romenos; Pedro é descendente de romenos, então é romeno."

Dupla negação
O décimo processo é designado por regra da dupla negação, em que se postula que dupla negação equivale a uma afirmação: se não não a, então a.
"Não é verdade que ele não trabalha.
Portanto, ele trabalha."
Esse é um procedimento lógico que nem sempre funciona na comunicação cotidiana, pois o português é uma língua que admite a dupla negação, sem que isso configure uma afirmação: por exemplo, Isso não apresenta nenhum interesse.

*José Luiz Fiorin é licenciado em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Penápolis (1970), tem mestrado em Linguística pela Universidade de São Paulo (1980) e doutorado em Linguística pela Universidade de São Paulo (1983). Fez pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris) (1983-1984) e na Universidade de Bucareste (1991-1992). Fez livre-docência em Teoria e Análise do Texto na Universidade de São Paulo (1994). Atualmente é professor associado do Departamento de Linguística da FFLCH da Universidade de São Paulo.

Tirando conclusõesA riqueza argumentativa dos processos de dedução, como os da inferência lógicaPor José Luiz Fiorin*O r...
05/02/2014

Tirando conclusões

A riqueza argumentativa dos processos de dedução, como os da inferência lógica

Por José Luiz Fiorin*

O romance policial Assassinato no Expresso Oriente (1934), de Agatha Christie, relata um crime de morte cometido no Expresso Oriente, luxuoso trem que ia de Istambul a Londres. Na cidade turca, tinha embarcado o célebre detetive Hercule Poirot. O comboio estava estranhamente cheio para aquela época do ano. Durante a madrugada, um passageiro é assassinado a facadas, o que Poirot só vai descobrir pela manhã. Foi esfaqueado doze vezes, enquanto dormia. Alguns ferimentos são profundos e outros, superficiais; alguns parecem resultados de golpes desferidos por uma pessoa canhota e outros por alguém destro. Como o crime foi cometido depois de o trem entrar numa nevasca, que impede qualquer pessoa de deixar o comboio, o assassino está dentro do Expresso.

O que faz Poirot, como, aliás, qualquer detetive dos chamados romances policiais de enigma, é verif**ar cada indício, cada pista, cada álibi e, fazendo inferências, chegar ao culpado. Em meio às investigações, Poirot percebe uma grande ligação desse assassinato com o caso do desaparecimento e morte de Daisy Armstrong nos Estados Unidos. Isso permite descobrir que os assassinos são doze, que construíram álibis uns para os outros.

Nos romances policiais de enigma, a parte final é dedicada às explicações das inferências feitas pelo detetive para solucionar o mistério.

Inferência é a operação pela qual se admite como correta uma proposição em virtude de sua ligação (por implicação, por generalização ou mesmo, segundo alguns autores, por analogia) com outras proposições consideradas verdadeiras.

O raciocínio inferencial pode estar ou não expresso integralmente no texto. Assim, o processo de leitura implica a realização de inferências. O texto diz mais do que aquilo que está enunciado: ele apresenta pressuposições, subentendidos, consequências não ditas, etc.

As inferências podem ser de ordem lógica, semântica e pragmática.

Inferências lógicas são determinadas por relações entre proposições; são decorrências necessárias de implicações entre proposições.
Um silogismo, por exemplo, apresenta duas premissas (a maior e a menor) e uma conclusão que decorre necessariamente das proposições apresentadas:

As cidades grandes são perigosas.
São Paulo é uma cidade grande.
Logo, São Paulo é perigosa.

Inferência semântica é a que decorre do signif**ado de palavras ou expressões, como no caso dos pressupostos. A frase "André parou de beber" pressupõe que André era alcoólatra.

Inferência pragmática é a que deriva de regras do uso da linguagem. Quando se diz "A bandeira paulista tem 13 listras", isso signif**a que ela tem só 13 listras e não mais de 13 e, portanto, treze, já que uma bandeira que tem, por exemplo, 14 listras tem também 13. Essa conclusão decorre de que um princípio conversacional é que o falante deve dar a informação mais forte de que dispõe. Assim, se ele afirma que a bandeira paulista tem 13 listras isso quer dizer que ela tem só esse número de listras.

Estas páginas trazem alguns processos de inferência lógica.

A eliminação de Sherlock
O primeiro é denominado eliminação. No capítulo 6 do livro O sinal dos quatro, de Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes diz a Watson:
- Você não aplica meus preceitos. (...) Quantas vezes já lhe disse que, quando tiver eliminado o impossível, o que f**a, por mais improvável que seja, deve ser a verdade? Sabemos que ele não entrou pela porta, nem pela janela, nem pela chaminé. Também sabemos que não podia estar escondido no quarto, porque não havia onde se esconder. Logo, por onde ele veio?
- Pelo buraco do teto! Gritei.
- Certamente.
Esse processo se enuncia assim: dados a ou b e não a, podemos concluir b. O criminoso poderia ter vindo pela porta, pela janela, pela chaminé ou pelo buraco do teto ou poderia ter f**ado escondido no quarto. Como não veio pela porta, pela janela ou pela chaminé nem poderia ter f**ado escondido no quarto, então se pode tirar a conclusão de que ele veio pelo buraco do teto.

A afirmação do consequente
O segundo processo de inferência lógica é o da afirmação do consequente, conhecido em lógica pela expressão latina modus ponendo ponens (= modo que afirmando afirma): se a implica b e a é verdadeiro, então b é verdadeiro. É um raciocínio que afirma (a conclusão) pela afirmação do antecedente.
"Se meu time ganhar o campeonato, irei festejar na Avenida Paulista. Meu time ganhou o campeonato. Então, fui festejar na Avenida Paulista."

A negação do antecedente
O terceiro processo é a negação do antecedente, denominado usualmente em lógica como modus tollendo tolens (= modo que negando nega). É aquele que nega (a conclusão) pela negação do consequente: se a implica b e b não é verdadeiro, então a não é verdadeiro:
"Se eu ganhar na loteria, comprarei uma casa nova. Não comprei uma casa nova. Portanto, não ganhei na loteria."

Disjunção exclusiva
O quarto processo é conhecido como regra da disjunção exclusiva: dados a ou b, não sendo b verdadeiro, então a é verdadeiro e vice-versa.
"Ou ele é palmeirense ou é corintiano. Ele não é corintiano. Então, é palmeirense."

Encadeamento
O quinto processo é denominado de regra de encadeamento: se a, então b; se b, então c; logo se a, então c.
"Se comprar uma casa, deixarei de pagar aluguel.
Se deixar de pagar aluguel, sobrará mais dinheiro de meu salário.
Se comprar uma casa, sobrará mais dinheiro de meu salário."
Não custa lembrar a piadinha famosa entre muitos nova-iorquinos. Havia uma pizzaria onde se lia: a melhor pizza do mundo. Inauguraram outra casa do gênero no mesmo quarteirão e escreveram no letreiro: a melhor pizza de Nova York. Abriram outra na mesma quadra e escreveram: a melhor pizza do quarteirão. (Ivan Angelo, VejaSP, 11/7/2012, p. 154).

Contraposição
O sexto processo é chamado de contraposição: se a, então b, se não a, então não b. Nesse caso, a implica b, se e somente se não a implica não b:
"Se um polígono tem três lados, então é um triângulo.
Se um polígono não tem três lados, então não é um triângulo.
Este polígono não tem três lados, então não é um triângulo."

Regra nem-nem
O sétimo processo é alcunhado regra do nem/nem ou de negação da conjunção dupla: se não a e não b, então não a ou não b:
"Não se pode assoviar e ch**ar cana. Como estou assoviando, então não estou chupando cana ou, como estou chupando cana, não estou assoviando."

Não as duas
O oitavo processo é cognominado de regra de não as duas ou de negação da disjunção dupla: se não a ou não b, então não a e não b:
"Pedro não é gaúcho ou não é paraibano. Então, ele não é gaúcho e paraibano simultaneamente."

Bicondicionalidade
O nono processo é conhecido como regra da bicondicionalidade: a se e somente se b, ou, em outros termos, se a, então b e se b, então a, então se a, então b e vice-versa.
"Quatro é maior que dois, se e somente se dois for menor que quatro. Se quatro é maior que dois e dois é menor que quatro, então quatro é maior do que dois e dois é menor do que quatro."
"Alguém tem nacionalidade romena se e somente se for descendente de romenos. Pedro é romeno, então é descendente de romenos; Pedro é descendente de romenos, então é romeno."

Dupla negação
O décimo processo é designado por regra da dupla negação, em que se postula que dupla negação equivale a uma afirmação: se não não a, então a.
"Não é verdade que ele não trabalha.
Portanto, ele trabalha."
Esse é um procedimento lógico que nem sempre funciona na comunicação cotidiana, pois o português é uma língua que admite a dupla negação, sem que isso configure uma afirmação: por exemplo, Isso não apresenta nenhum interesse.

*José Luiz Fiorin é licenciado em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Penápolis (1970), tem mestrado em Linguística pela Universidade de São Paulo (1980) e doutorado em Linguística pela Universidade de São Paulo (1983). Fez pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris) (1983-1984) e na Universidade de Bucareste (1991-1992). Fez livre-docência em Teoria e Análise do Texto na Universidade de São Paulo (1994). Atualmente é professor associado do Departamento de Linguística da FFLCH da Universidade de São Paulo.

A comunicação curta é a + forteEspecialistas começam a duvidar do peso da internet, dos SMS e das redes sociais nas difi...
31/01/2014

A comunicação curta é a + forte

Especialistas começam a duvidar do peso da internet, dos SMS e das redes sociais nas dificuldades de escrita dos adolescentes

Adriana Natali

Começa a ser posta em dúvida a ideia generalizada de que o uso prolongado de tecnologias da comunicação necessariamente corrói anos de esforço de alfabetização. Estudo realizado este ano pela British Academy e pela Universidade de Coventry, na Inglaterra, mostrou que crianças e jovens que recorrem regularmente à linguagem abreviada em SMS (Short Message Service, serviço de mensagem curta) têm maior capacidade de soletrar e melhores resultados em te**es de fluência verbal.

Para chegar à conclusão, os pesquisadores analisaram um grupo de 63 crianças, entre 8 e 12 anos. E verif**aram que há relação positiva entre o uso de SMS e a alfabetização, porque a leitura de abreviaturas típicas da linguagem cifrada da internet ("kbça" em vez de "cabeça", etc.) requer alta consciência da combinação de sons.

Segundo outro estudo, no entanto, a coisa pode não ser bem assim. Divulgada em agosto, uma pesquisa da agência americana New Media & Society garante que o uso de mensagens de texto altera a capacidade de estudantes identif**arem e usarem a gramática tradicional. Os pesquisadores sondaram hábitos, relacionados a mensagens de texto, da 6ª à 8ª série da Pensilvânia. Constataram que os alunos passaram a ver suas adaptações de texto para a internet como padrão para qualquer comunicação escrita.

Para o consultor de marketing digital Denis Zanini é um equívoco atribuir aos celulares e às redes sociais a responsabilidade pela proficiência da escrita das crianças, já que eles são apenas os canais por onde a mensagem é encaminhada. A escrita depende da educação escolar, da feita em casa e em ambientes de convívio social.

- Se ela não receber as orientações gramaticais adequadas, apresentará deficiências de escrita e leitura em qualquer tipo de texto, seja carta, artigo escolar, discurso, e-mail ou torpedo. Mídias sociais e celulares, por serem plataformas mais ágeis e imediatas, pedem escrita sucinta, condescendente com abreviações. Com boa educação, as crianças terão discernimento e habilidade para usarem a escrita adequada a cada tipo de ocasião - avalia.

Convergências
As professoras Dieli Vesaro Palma e Alexandra Geraldini acreditam que novos usos de tecnologias, como o de celulares para digitar e enviar escritos e não só para teclar chamadas, estimulam o desenvolvimento de novas habilidades. Doutoras em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, Dieli atua no Programa de Estudos Pós-Graduados em Língua Portuguesa e Alessandra, do Curso de Letras, ambos da PUC-SP.

Por e-mail, explicam que o celular e computador requerem novas competências técnicas (o manuseio do teclado, da tela e do mouse, por exemplo) e comunicativas.

- Isso signif**a que os usuários ampliam seus conhecimentos e competências, partindo das conhecidas rumo às novas. Escrever uma mensagem de texto para celular é diferente de redigir um post a ser publicado no Facebook e redigir um e-mail a um amigo que, por sua vez, terá características diferentes de um e-mail a ser enviado a um superior hierárquico. São formas diferentes de uso da língua, não melhores nem piores, porque são novos usos linguísticos decorrentes da influência da tecnologia.

Divergências
Para o professor Mauro Dunder, mestre em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), a pesquisa britânica não leva em conta avanços na alfabetização e letramento em produzir usuários mais competentes do idioma. Por sua vez, a pesquisa norte-americana parte do pressuposto de que a escrita formal, gramatical, é o padrão para qualquer uso de linguagem, além de desprezar o fato de que a gramática não precede o uso.

- Se um usuário do idioma que tenha vivido no século 19 pudesse ter acesso ao modo como liam e escreviam os norte-americanos de meados do século 20 talvez fizesse a mesma constatação, a de que os mais recentes destruíram a língua que lhes fora deixada como herança - compara.

Ele diz que as redes sociais têm uso próprio da língua, criam códigos e, por definição, um usuário que transite entre diferentes normas linguísticas saberá que não se digita um SMS da mesma forma como se escrevem parágrafos jornalísticos, por exemplo.

- O problema está na adoção das diferentes formas em contextos aos quais não se aplicariam. Sou professor de uma escola de ensino médio e observo, in loco, alunos transferindo hábitos digitais para o texto manuscrito. Mas não creio que o número de alunos que faz isso tenha aumentado tão vertiginosamente assim - diz.

Versatilidade
A internet e os dispositivos computacionais móveis, em especial os smartphones, apenas potencializariam o nível de aprendizado. Uma criança de 4 anos consegue internalizar os princípios do funcionamento gramatical. Com o tempo e a escolarização, tende a adquirir detalhes e a absorver as irregularidades comuns do idioma.

- Para abreviar uma palavra ou expressão cristalizada pelo uso, precisamos ter clara noção de que modo ela é grafada por inteiro. Como as mensagens que trocamos com as pessoas do nosso convívio devem ser emitidas com rapidez e velocidade, adotamos abreviações de palavras e reduções de frases, sabendo que o contexto em que são enviadas e recebidas e a intimidade entre os interlocutores são de fundamental importância no momento da interpretação, já que portadoras das intenções comunicativas dos usuários - pondera Antonio Carlos Xavier, professor de linguística da Universidade Federal de Pernambuco.

Para Ricardo Fotios, professor de jornalismo da Universidade Metodista (SP), é razoável imaginar que o tipo de escrita e leitura em celulares e redes sociais deixará marcas na maneira como as pessoas se comunicam.

- Antes das novidades tecnológicas atuais, o e-mail já interferiu positivamente no modo como escrevemos. Jovens preferem escrever uma mensagem, no computador ou celular, a falar ao telefone. É uma valorização inédita do texto, em detrimento de formatos bem mais atraentes pelas facilidades e pelos recursos - diz.

O papel da escola é lembrar que em certos momentos devemos nos expressar de forma mais livre e, em outros, de modo mais organizado. É importante que a escola reconheça as múltiplas formas de escrever e parta do ponto em que os alunos estão no aprendizado para ajudá-los a valorizar, quando necessário, textos com diferentes níveis formais, mais complexos e estruturados.

- As redes sociais e celulares são usados para comunicação ao vivo, não está em cogitação a melhoria da escrita. O texto neles é funcional: as pessoas escrevem como uma das formas de manter o vínculo afetivo, aumentar suas redes de relacionamento, mostrar-se, fazer divulgação e promoção. A prática constante da escrita desenvolve habilidades de comunicação, de síntese, de agilidade na expressão. Como é informal, pode comprometer, se não há cuidado na escola, a organização mais estruturada, profunda de ideias e a norma culta - avalia José Manuel Moran, especialista em projetos inovadores na educação presencial e a distância pela USP.

Adequação
Luiz Antonio da Silva, professor de sociolinguística da USP, considera que há preocupação exagerada com os efeitos do avanço tecnológico na linguagem.

- Não devemos nos preocupar com a evolução tecnológica, se vai prejudicar ou não o aprendizado. Ela faz parte de nosso tempo, não há como evitá-la, ela nos ajuda e facilita o dia a dia. Permitir que crianças e adolescentes deixem de praticar a escrita e a leitura pode levar à piora na leitura e escrita, porém a inovação tecnológica não leva à piora dessas práticas - completa.

Flexibilidade
Para Liney de Mello Gonçalves, da Faculdade de Letras da PUC Campinas, o falante ideal é aquele que consegue usar todos os registros de língua oral e escrita, do mais coloquial, uma mensagem instantânea ou uma conversa familiar, ao mais formal, uma leitura de um texto didático-científico, uma redação de vestibular ou uma conversa com uma autoridade numa solenidade. Algumas formas, diz Liney, são aprendidas com a mãe, outras na escola, com o professor, que não pode conformar-se com o fato de o aluno ter um único registro, aquele que traz de casa, que pode impedir sua ascensão socio-econômico-profissional.

- Não tenho nada contra a língua usada pelos usuários da internet. Mas ela virá a transformar as regras gramaticais. A mudança linguística é inevitável, mas muito demorada na língua escrita, já que qualquer alteração implica ampla divulgação, mudança de hábitos, cursos de reciclagem e treinamento de professores, alunos e profissionais que trabalham com esse registro - completa Liney.
Para ela, a solução é de realização improvável.

- Os professores de todos os níveis teriam de aprender, novamente, a gramática descartada do ensino por teorias pedagógicas, utilizada no código da língua escrita, para ensiná-la aos seus alunos; depois, exigir que eles a empreguem, para que possam reconhecê-la ao ler um texto. Sem regras que todos conheçam, é impossível formar um código que lhes permita ler, entender e produzir textos de vários gêneros. Se os alunos se comunicarem apenas por língua oral, que é aquela escrita nas mensagens instantâneas, apenas poderão interpretar e entender textos nesse registro - diz.

Polarização
Já na opinião de Denis Zanini, o problema é deixar que a criança exercite a escrita só por meio de smartphones, tablets e aparelhos de "escrita curta". Ela tem de ser estimulada a escrever textos elaborados, em que poderá desenvolver sua linha de raciocínio e exercitar sua capacidade de questionamento.

- Fora da escola, os professores e pais podem sugerir que a criança crie um blog, como uma espécie de diário. Ou até uma fanpage. Veja o caso da menina que criou uma fanpage para retratar o dia a dia da sua escola e conseguiu trazer melhorias para todos. É mais ou menos por aí. E sim, estimular sempre a criança a ler, sejam jornais, revistas, livros - conclui.

A onipresença das novas tecnologias provoca debates polarizados.

- Há diversas pesquisas com enfoques diferenciados em todas as áreas do conhecimento, tentando entender a complexidade desse fenômeno. Por ser uma questão recente em nossa cultura, os resultados ainda não são conclusivos e nem permitem generalizações, demonstrando a necessidade e a urgência de continuarmos pesquisando a esse respeito para entender melhor como tais processos ocorrem. Nem sempre as práticas de pesquisa possuem implicações diretas e imediatas em termos didáticos e metodológicos no processo de ensino-aprendizagem e na formação, o que requer um tempo para elaboração das sínteses e suas aplicações, seja na escola, seja na educação informal que envolve a família e a sociedade - afirma a professora de metodologia de ensino Monica Fantin, da Universidade Federal de Santa Catarina.

Qualidade
O Twitter alcançou, em junho, a marca de meio bilhão de contas criadas, segundo a Semiocast, empresa com sede em Paris, que realiza pesquisa sobre mídias sociais. Os Estados Unidos representam o maior número de novas contas desde o começo do ano - mais de 140 milhões. Já o Brasil foi o país que mais cresceu, com 41,2 milhões de usuários - contra os 33,3 milhões registrados em janeiro. No ranking de postagens de tweets, São Paulo ficou em 4º lugar, perdendo apenas para Tóquio e Londres. A pesquisa foi realizada com base em uma amostra de pouco mais de 1 milhão de tweets públicos registrados no mês de junho.

Para a professora Monica Fantin, mais importante que ser o país com "mais internautas do mundo" é discutir a qualidade de participação de tais internautas nas redes e como essas e outras formas de participação se transformam em experiências de cidadania e inclusão social, econômica, política e cultural.

- Num primeiro momento, há que se perguntar de que crianças estamos falando, visto que no Brasil ainda há grande parcela de crianças e jovens excluídas do acesso qualif**ado à tecnologia digital. Em segundo lugar, precisamos saber o que as crianças realmente fazem com o celular e quando estão nas redes sociais. São questões importantes para avaliar o papel da mediação crítica do adulto diante de usos, consumos e práticas culturais e midiáticas - explica.

Desafio
José Manuel Moran acredita que o Brasil aprendeu a ser ativo na internet. Os jovens escrevem, falam, interagem continuamente e, em casa, fazem múltiplas tarefas: estudam, ouvem música, veem TV, navegam.

- Por isso, é importante que pais e professores ajudem os jovens a valorizar o que há de positivo nessa efervescência e a perceber o que há de exagero, de perda de tempo, de dependência. É importante equilibrar a quantidade com a qualidade das interações - afirma.

Segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil, crianças e jovens entre 10 e 24 anos são muito mais habilidosos no uso de computador e internet do que os de outras faixas etárias. O brasileiro vê nas redes sociais um forte elemento de socialização, sendo o maior usuário da rede em tempo de conexão. Seu perfil de uso da internet também mudou nos centros de acesso pago: aumentou o uso brasileiro das redes sociais e há queda no de jogos. Tal contexto sugere um potencial das redes sociais a ser explorado pelo contexto educacional.

- Para tanto, é necessária a presença de políticas públicas de inclusão digital, que compreendam desde a garantia de acesso (material, físico) até a formação de professores. É preciso expor os jovens, de forma orientada, aos diferentes usos, em diferentes contextos, levando-os a se conscientizar da adequação da linguagem - explicam Dieli e Alessandra, da PUC-SP.

Estudo
Nancy dos Santos Casagrande, coordenadora de Letras da PUC-SP, vê a internet como um grande instrumento de estudo, cujo impacto ainda deve ser dimensionado.

- Não acho que o celular ou a internet sejam responsáveis diretos pela "ignorância" nacional na escrita. Se grande parte das crianças tem acesso a esses recursos é porque de alguma forma tem condições econômicas para isso. Mudanças na escrita não acontecem de repente, se houver algum "prejuízo" nesse processo, só poderá ser avaliado daqui a alguns anos; a língua é viva e suas mudanças acontecem por meio do uso constante de uma forma em detrimento de outra. Não creio que haverá, a curto prazo, um grande impacto na escrita da língua portuguesa no Brasil - acredita.

Luiz Antonio da Silva, professor de sociolinguística da USP, afirma que todas as inovações tecnológicas trazem benefícios e alguns prejuízos.

- Hoje é muito fácil comprar um carro e, com isso, deixamos de andar a pé, por isso é preciso buscar uma academia para suprir tal necessidade. É mais interessante gastar tempo ao computador do que ler um livro ou praticar alguma atividade física. É o preço que pagamos, mas nada que o bom-senso não possa resolver. O problema está no fato de que o ensino não acompanha e não se beneficia, pelo menos como poderia, dessas inovações - avalia.

Fonte: site http://revistalingua.uol.com.br/

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