22/05/2026
Nos anos 90, quando fui policial civil, o discurso oficial era sempre o mesmo: “não há dinheiro para melhorar salários”. Mas, curiosamente, nunca faltava verba para comprar viaturas novas, distribuir armas, coletes, equipamentos e fazer anúncios de modernização. O policial seguia mal remunerado, acumulando desgaste físico e psicológico, enquanto o governo parecia acreditar que dignidade profissional podia ser substituída por marketing administrativo. Entregavam ferramentas para quem precisava, antes de tudo, de valorização humana e financeira.
Passaram-se décadas e a lógica continua exatamente igual — apenas mudou o personagem da propaganda. Hoje, os governos anunciam linhas de financiamento subsidiado para motoristas de aplicativo como se estivessem realizando uma grande revolução social. A promessa parece bonita no papel: crédito facilitado, carro novo, oportunidade de renda. Mas basta olhar cinco minutos para a realidade para perceber o desastre lógico da ideia.
Se qualquer pessoa que trabalhou um ano e fez cem corridas pode financiar um veículo novo, o que acontece? As ruas se enchem de novos motoristas. A concorrência explode. O valor das corridas, que já era insuficiente para cobrir combustível, manutenção, pneus, seguro e depreciação, cai ainda mais. O resultado é matematicamente previsível: mais gente disputando menos renda. O motorista passa a trabalhar dentro de um carro financiado sem ter garantia mínima de que conseguirá pagar as parcelas.
E então surge a pergunta inevitável: será que não existe ninguém nesses governos que saiba fazer uma conta básica? Porque não é necessário ser economista renomado para entender que aumentar brutalmente a oferta de trabalhadores em um mercado já saturado reduz a renda média de todos. Isso é matemática elementar. É lógica simples.
O mais preocupante é que esse tipo de improvisação parece ter virado método de gestão pública. Criam programas com enorme impacto social sem estudar efeitos de médio prazo, sem analisar sustentabilidade econômica e sem compreender a dinâmica real do trabalho. Tudo funciona até a “página 3” da apresentação bonita. Depois, a realidade aparece: profissionais endividados, atividades precarizadas e setores inteiros operando no limite da inviabilidade.
Existe uma espécie de política pública baseada apenas em aparência. O governo anuncia algo que soa moderno, tira foto, faz propaganda e produz manchete. Mas quase nunca enfrenta o problema central. O policial não precisava apenas de viatura nova; precisava de salário digno. O motorista de aplicativo não precisa apenas de crédito para trocar de carro; precisa de corridas que paguem de forma minimamente racional.
Quando o Estado passa a tratar consequência como se fosse causa, entra-se num ciclo permanente de soluções superficiais. E talvez o mais perigoso seja justamente isso: não parece falta de inteligência. Parece uma opção deliberada por medidas que produzem impacto visual imediato, mesmo quando o resultado prático já nasce condenado pela lógica mais básica.