14/05/2026
“No fundo, é boa pessoa.”
Não suporto esta frase. Não estamos a cavar petróleo. Quando alguém diz “no fundo é boa pessoa”, o que quer dizer é: à superfície, é um desastre humano, mas algures, numa câmara secreta da alma, existe um ser puro, invisível, com uma bondade platónica, que não serve para nada.
Uma bondade inútil é uma espécie de maldade, talvez a pior de todas.
“Eu faço as coisas com o coração”, dizem muitos dos que, “no fundo, são boas pessoas”. Não fazem. Não é isso fazer algo com o coração. Fazer algo com o coração não é fazer aquilo que lhes apetece, no momento que lhes convém, sem qualquer consideração pelo impacto nos outros.
O coração não é ego; acho até que é contrário de ego.
Ser boa pessoa é um comportamento, é uma prática visível: é uma escolha consistente.
Uma boa pessoa não é boa apenas quando escavamos fundo o suficiente. É boa à superfície. É boa nos gestos pequenos, no modo como fala quando está cansada, no que faz quando ninguém está a aplaudir, na forma como recua quando percebe que pode ferir alguém. “No fundo” é onde se guardam as desculpas. A bondade dá trabalho. incomoda, exige autocontrolo. É mais fácil fazer de conta, acreditar que a bondade está lá algures, invisível.
É a melhor maneira de não ter de a praticar.
“Pedro Chagas Freitas”.