23/09/2022
Em 1850, a morte prematura do Príncipe Pedro Afonso trouxe um golpe de realidade dura para seu pai, o Imperador Pedro II do Brasil.
Para um homem do século XIX, ou melhor, um monarca do século XIX, era difícil crer numa sucessora mulher.
A perda dos dois filhos varões em um curto espaço de tempo, segundo seus biógrafos, resignou Pedro II acerca da continuidade de seu império após sua morte.
O fim era inevitável para ele, tanto para sua vida, tanto para o regime o qual encabeçava.
Ele amava as filhas, isso é inegável.
Isabel, na condição de herdeira, recebeu toda a instrução e educação possível para a época, afim de se preparar para uma sucessão que jamais viria.
Uma soberana, apesar de constitucionalmente permitida, era considerada inaceitável tanto para Pedro quanto para aqueles no poder.
A questão foi ignorada durante décadas enquanto o país progredia e o imperador mantinha boa saúde.
Em 1864 estoura a Guerra do Paraguai.
O maior conflito armado abaixo da linha do Equador naqueles anos, atrás apenas da Guerra da Secessão estadunidense.
Em seus 58 anos de reinado, seria o apogeu de sua popularidade e também, o início de seu fim.
A guerra se mostrou longa demais, cara demais e sangrenta demais.
A obsessão de Pedro II em capturar e não matar o ditador paraguaio Solano Lopez mesmo depois de dizimado o exército paraguaio e capturada Assunção, legou para ele uma imagem desgastada.
A briga que teve com o Duque de Caxias em 1869 deixou claro tudo isso, porém continuaram amigos íntimos.
O saldo do conflito foram mais de 50 mil soldados brasileiros mortos e os custos da guerra foram equivalentes a onze vezes a receita anual do governo.
Ainda, surge nesse momento, pela primeira vez em nossa história, a figura do exército como parte ativa da vida pública e o gosto dos militares pela política e pelo poder.
Em 1871 surgiria o primeiro partido republicano do Império, bastante insignif**ante, mas uma semente preocupante quando germinada no seio de uma monarquia parlamentarista.
A partir do final de 1880, cartas entre Pedro II e a Condessa de Barral, sua amiga e confidente, revelam um homem que se tornara cansado do fardo monárquico e cada vez mais com uma visão austera e decepcionada.
A saúde do Imperador começou a piorar a partir de 1880, Pedro II contava com apenas 56 anos, mas seu grande envelhecimento era nítido.
Ele estava cansado, doente e enfadado, gradualmente começou a se afastar dos assuntos públicos.
Mas cumprindo integralmente a Constituição por pura ética do dever.
Mesmo cansado de estar preso a um trono que duvidava que sobrevivesse após sua morte, ele perseverou por responsabilidade e também porque não parecia existir alternativa imediata.
Porém, tanto Pedro quanto Isabel eram amados pelo povo, que apoiava o regime integralmente.
Cansado do reinado e sofrendo de doenças frequentes, o imperador retirou-se cada vez mais dos negócios do governo, frequentemente comportando-se como um espectador.
Ele aboliu vários rituais relacionados com a Casa Imperial, como por exemplo o beija-mão em 1872 e a Guarda dos Arqueiros em 1877, "a guarda palaciana que trajava uniformes multicoloridos e portava alabardas".
Pedro II considerava tais rituais ultrapassados e muito custosos ao dinheiro público.
O Paço Imperial, onde o governo se reunia, foi praticamente abandonado assim como o Paço de São Cristóvão, agora desprovido de cortesãos.
O diplomata austríaco, barão Joseph Alexander Hübner resumiu a situação em 1882:
“Encontro o Palácio de São Cristóvão como sempre. É o castelo encantado dos contos de fada. Uma sentinela à porta e fora disso nem viva alma. Erro só pelos corredores que circundam o pátio. Não encontro ninguém, mas ouço o tilintar dos garfos num quarto ao lado onde o Imperador janta só com a Imperatriz sem o seu séquito, que se compõe de uma dama e de um camareiro.”
A p***a e os ritos foram descartados.
Isso fez com que Pedro fosse visto como "um grande cidadão" na imaginação popular, porém ao mesmo tempo sua imagem como monarca, como um símbolo vivo e figura de autoridade, foi diminuída.
A aristocracia da época dava grande importância aos cerimoniais e costumes, mas o imperador descartou muito do simbolismo e aura que o sistema imperial possuía.
A indiferença com as p***as do sistema por parte tanto do imperador quanto de sua filha permitiu que a descontente minoria republicana, formada principalmente por oficiais militares insubordinados e fazendeiros insatisfeitos com as medidas abolicionistas, f**asse audaciosa e de olho no centro do poder governamental.
A Lei do Ventre Livre em 1871 e a Abolição total da escravidão, a Lei Áurea em 1888 foi o golpe fatal para o Império do Brasil, a elite econômica e política do país, totalmente dependente da mão de obra cativa, debandou em peso para as facções republicanas e militares.
Os milionários escravocratas da época travestiram-se de apoiadores ao sistema republicano e começaram a financiar reuniões e literalmente comprar a influência de políticos da época.
O ano de 1889 seria decisivo.
Em 15 de novembro de 1889, o já conhecido golpe militar ditatorial que instaurou a ditadura militar destronou D. Pedro II, seu governo e seu regime.
O exílio e o posterior banimento foram uma grande humilhação desnecessária e uma afronta a sua dignidade. Ele aguentou estoicamente.
Pedro pode ser considerado um caso raríssimo de um chefe de estado que foi derrubado apesar de ser amado pela maioria esmagadora de seu povo, da admiração e aclamação internacional, de ter sido um instrumento fundamental em avançar grandes reformas sócio econômicas de cunho liberal, de supervisionar durante um reinado de quase seis décadas uma época de incrível prosperidade e influência, e de ser considerado um governante altamente bem sucedido.
A revolução militar que substituiu o império levou a mais de um século de ditaduras e instabilidade política...
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