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Wanderlino  Letras Página destinada a publicações de textos em prosa e poesia.

DENGUE E CHIKUNGUNYA, S**O DE PANCADAS                                          Wanderlino Arruda                Baseand...
01/03/2023

DENGUE E CHIKUNGUNYA, S**O DE PANCADAS
Wanderlino Arruda
Baseando-me em um texto – ao mesmo tempo médico e pessoal - da minha estimada confreira Mara Narciso, perfeita médica e escritora, tenho que dizer também um pouco, em minha rude impressão de leigo, sobre a ação virótica da chikungunya e da dengue, males mais do que democráticos, pois de quase todas as pessoas de sorte negativa, a partir de 1952, quando o mosquito transmissor apareceu na Tanzânia.
Informo, sem qualquer honra e prazer, que foi, agora, comecinho de fevereiro, em início de uma noite de verão, que surgiram, em minha estrutura física de quase oitenta e nove anos, dores terrivelmente intensas em todas as partes do primeiro e do segundo andar: região lombar, pescoço, braços, mãos, quadril, pernas, joelhos, tornozelos e até nas unhas dos pés, o que traduzido em linguagem mais interiorana, poderá ser qualificada de ofensas no cangote, na cacunda, nas apás, na espinhela, nos quartos, além das mãos de pés. Um universo tão violento de dores, que até me travou a capacidade de andar, o ir e vir dos direitos humanos. Sem saber o porquê, de pé, encostado, sentado, deitado, tudo doía e pedia cama, mesmo que a cama não oferecesse alívio.
Não pensei em covid, porque covid eu já tive um ano e meio atrás, sem muitas consequências. Respiração, temperatura, pressão, saturação, tudo normal, embora as dores chegando a jato, velocidade do som e do ultrassom. Uma fraqueza muscular assumiu geral, até com um pouco de fadiga, inteireza tão grave que eu não conseguia, deitado, mudar de posição, sem escolha de me encolher ou de me espichar. Quase impossível trocar de lado, cada tentativa de movimento frustrada pelo dolorido, duríssimo virar para a esquerda ou para a direita, uma paralisia danada substituindo qualquer intensão ou vontade.
Minha cabeça não doía, porque nunca doeu, em nenhuma fase da vida, graças ao bom Deus. Nos olhos e entorno dos olhos, tudo sofrido. Toda a noite foi um soninho mal dormido, sem encontrar lugar, nem jeito mais cômodo. Somente pela manhã, quando relatei as ocorrências para as netas Natália e Gabriela, quando elas diagnosticaram tudo, Wladênia me ofereceu um comprimido de dipirona para combater as dores grandes e pequenas, mas a dipirona só tomou conhecimento do muito sofrer depois de mais de uma hora de ação. No quarto, deitado, uma saudade imensa do escritório, que só tomei consciência do impossível, porque as pernas – bambas e sofridas - não queriam ou não podiam caminhar, nem com os passos curtinhos. Só o ato de doer.
Mesmo totalmente sem fome, levantei-me para almoçar, já que almoçar e jantar para mim sempre foi questão de horário, procedimento que acho da civilização que cedo aprendi em São João do Paraíso, minha terra natal. Mastigando com dificuldade, porque ainda em repouso de uma cirurgia de implantação óssea, ficou longe a função do sabor de tudo: do peixe, do pirão, da farofa, da salada, dos molhos, até o docinho da sobremesa. O cansaço e a dor muscular não me deixavam segurar o garfo e a faca, total falta de força e habilidade. Dos dedos, do mindim, seu vizinho, maior de todos, fura bolo e cata piolho, nada, nem para funções estéticas. Até para beber água, necessário o canudinho, porque a mão não podia segurar o copo.
Ainda pela manhã, Gracielle correu rápido ao telefone para consultas com o dr. Antônio Carlos Maldonado, a dra. Nydia Rego Cunha Santiago e o dr. Manoel Fernandes Neto, meu confrade de Academia e Instituto Histórico e cardiologista. Além dos remédios, as recomendações de tomar o máximo de água e de líquidos. Dra. Nydia pediu vários exames, já pensando em covid, dengue, chikungunya e zica. Coletado o sangue pelo Laboratório Santa Clara, quase tudo confirmado, ficaram de fora a zica e a covid. Tomei muita água de coco, chá de capim santo, erva-cidreira ·e moringa, e vitaminas de jaca e graviola, mesmo sem sentir sede, o que é normal na minha idade. Problema maior era ficar longe do computador, tendo de acompanhar muita coisa pelo celular, longe da eficiência do monitor grandão. A única coisa que me servia mesmo era a cama, que, dependendo da temperatura, era soprada pelo ventilador ou pelo ar condicionado.
As articulações inflamadas e doloridas perderam suas funções. As mãos mudaram de cor e perderam a capacidade de abrir e fechar com naturalidade. Toda a extensão dos ossos, tendões, nervos e músculos estavam comprometidos. A dengue ataca os músculos e os nervos e a chikungunya põe veneno em todos os ossos, principalmente nas articulações, dos pulsos e das canelas próximo aos pés. Dores multiplicadas não só nos chamados ossinhos da miséria, mas nos calcanhares, no peito e nas solas dos pés e até nos artelhos. Ainda mais com uma insidiosa coceira - parecendo sarna - invadindo tudo, de todas as formas, começando da minha pequena área do couro cabeludo, retaguarda da cabeça até as partes pudendas e os entrededos dos pés. Quanto tempo assim? Inicialmente quatro dias, quando pude deixar e tomar o analgésico, que já havia destoado a minha pressão mínima, deixando-a entre quatro e cinco. Além da sensação de fraqueza, a decisão de não fazer nada, só considerar a preguiça forçada, a fraqueza e as perdas físicas e psicológicas. Por demais malvados esses os dois vírus africanos.
Já quase completando um mês de experiências no viver e sofrer, de humildade compulsória, de coragens fracassadas, sei conscientemente que só tenho de ter paciência, resignação e conformidade. No plano da fé, a certeza de estar pagando algumas prestações de dívidas e ofensas atuais e atávicas, que os indianos sempre chamaram de registros akáshicos das múltiplas vivências no plano físico. Que a minha amiga dra. Mara Narciso, em que me baseei para redigir este texto, me perdoe pela popularização de um assunto técnico e do seu setor de medicina. Sei que, nem para ela nem para mim, o assunto é de prosa e poesia.
Como cada um tem o jeito seu de dizer as coisas, eu comigo mesmo e com as minhas circunstâncias, aproveito para dizer que a minha primeira doença, aos dois meses de idade, foi a terrível varíola, que matava 998 em cada mil afetados. Minha mãe D. Anália sempre lembrava que só folha de bananeira servia para encostar na minha pele – uma ferida só. Era folha de bananeira na rede, no berço, na cama, em qualquer lugar que pudesse colocar o doentinho. Depois da bexiga matadeira, o sarampo, a catapora, a caxumba, a coqueluche, doenças que não se repetem. De esquistossomose nem consigo lembrar, tantas foram as incidências até os trinta e muitos anos.
Se está difícil, agora, nesta fase antes dos noventa, imagine o que vai acontecer na vizinhança dos cem!

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