02/07/2019
BONS TEMPOS
Vazamento de amônia: Uma nuvem branca sufocante cobria um bairro todo, chegando ao local e usando a única máscara autônoma da viatura, adentrei as dependências do frigorífico e juntamente com um funcionário, estancamos o vazamento através do fechamento de uma
válvula de segurança. Durante uma semana fiz tratamento em assaduras na virilha, pescoço e axilas, a vantagem é que fiquei loiro durante algum tempo.
Incêndio indústria de baterias: Um Pavoroso de grandes proporções, 24 horas do início ao
rescaldo. Tratamento para toda a guarnição e acompanhamento por lesões ocasionadas pelaradioatividade derivada da queima das baterias automotivas.
Incêndio depósito de produtos alimentícios: Explosões de embalagens contendo margarina, banha, óleos e outros produtos. Consequência: queimadura de 1º grau no rosto e mãos.
Salvamento aquático: Pessoa em risco de afogamento no interior do Rio Tamanduateí em SP. Ao chegarmos no local, saltei no Rio com mais um companheiro para efetuarmos a retirada da vítima. Missão realizada com sucesso. Consequência: internação no HC para desinfecção e assepsia dos orifícios do corpo.
Salvamento: Colisão Automóvel x Ônibus na madrugada de um sábado. Foram socorridos 04 jovens ao PS do HC. Em verificação da documentação dos rapazes foi constatado que os mesmos eram portadores de HIV e estavam ali realizando uma roleta russa. A guarnição ao ficar ciente do fato e ao se olharem, perceberam que estavam cobertos de sangue (Rosto, braços, fardamento). Resultado: acompanhamento médico pelo período de 01 ano, através de exames periódicos de sangue.
Após criação do serviço de resgate em 1990 com mais salvamentos bem-sucedidos e diversos contatos com agentes contaminantes e abrasivos, recebi uma “recompensa” por 16 anos de serviços ativos: fui transferido para a assessoria militar do Palácio do Governo com um aumento nos vencimentos de até 50%. Consequência: depressão, angústia e arrependimento por ter aceito. Não aguentando, solicitei afastamento sem remuneração e posteriormente exoneração
a pedido em 1995.
Assim sendo, após 24 anos da minha saída, todo consumido pelo tempo, sentindo vertigens em altura, não conseguindo nem mais dar umas braçadas em uma piscina, só tenho uma coisa a pensar... se pudesse, faria tudo de novo...
Sei que a maioria das pessoas se valorizam pelos seus ganhos financeiros, mas faço parte daqueles que se valorizam pelos atos.
Hoje, na era da informática, encontro frases na internet acompanhadas de fotos de bombeiros exaustos com os seguintes dizeres: “E os jogadores é que ganham milhões”. Eu aprendi que a esperança da humanidade está em quem valoriza a vida e não o dinheiro.
A todos os bombeiros, resgateiros, socorristas, e os que lutam pela vida, segue o lema
estampado em alguns quartéis “Quem não vive para servir, não serve para viver”.
Praia Grande, 02 de julho de 2019.
José Carlos Boccoli
SdPm de 1.974 a 1.995.