18/07/2026
MARIA DE EDIMBURGO: A RAINHA QUE ESCOLHEU UMA PÁTRIA E DEIXA 88 ANOS DE SAUDADE
Existem soberanos que herdaram uma coroa. Outros conquistaram-na pelo dever. Maria de Edimburgo pertence a uma categoria mais rara: a daqueles que conquistaram um povo. Nascida princesa britânica, descendente direta da Rainha Vitória e do czar Alexandre II da Rússia, trazia nas veias o sangue das mais poderosas dinastias da Europa. Ainda assim, o destino reservar-lhe-ia uma glória que nenhuma genealogia poderia conceder: tornar-se, por vontade própria, a alma da Romênia.
Maria Alexandra Victoria nasceu em 29 de outubro de 1875, em Eastwell Park, no condado inglês de Kent. No seio da Casa de Saxe-Coburgo-Gota, foi criada entre a disciplina vitoriana, a etiqueta germânica e a imponência da tradição imperial russa. Em casa, porém, era apenas “Missy”, apelido carinhoso utilizado pelos familiares, inclusive pela própria Rainha Vitória. Poucos imaginariam que aquela menina de olhos claros e espírito inquieto seria um dia reverenciada muito além das ilhas britânicas, nos vales dos Cárpatos e nas planícies do Danúbio.
Sua infância transcorreu entre a Inglaterra, Malta, onde seu pai servia como oficial da Marinha Real, e Coburgo. A sucessão de culturas moldou-lhe um espírito extraordinariamente cosmopolita. Dominava o inglês, o francês e o alemão desde muito jovem, cultivava a leitura com fervor e revelava uma imaginação artística incomum. Desenhava, escrevia, observava jardins, estudava tecidos e encantava-se com a arquitetura. O mundo, para Maria, era antes de tudo uma obra de beleza.
Contudo, a beleza nem sempre coincide com a felicidade.
Em 1893, aos dezessete anos, casou-se com o príncipe herdeiro Fernando da Romênia. A jovem princesa britânica partiu para um país que lhe era praticamente desconhecido. Ao cruzar as fronteiras romenas, encontrou uma terra de contrastes, onde influências latinas, eslavas, balcânicas e orientais conviviam sob uma monarquia ainda jovem. Nos primeiros meses, registrou em seus diários um sentimento de solidão. Era uma estrangeira entre pessoas cuja língua mal compreendia, cercada por protocolos diferentes daqueles da corte britânica.
Mas Maria possuía uma virtude rara: recusava-se a permanecer estrangeira.
Enquanto muitos soberanos exigiam que o país se adaptasse à corte, ela decidiu adaptar-se ao país. Aprendeu romeno, percorreu aldeias, ouviu camponeses, estudou as tradições populares, observou os trajes regionais, interessou-se pelos costumes religiosos e descobriu, pouco a pouco, aquilo que chamaria de “a verdadeira alma romena”. Anos depois escreveria que já não era inglesa vivendo na Romênia, mas romena pelo coração, uma declaração que ainda hoje emociona historiadores e permanece gravada na memória nacional.
Sua transformação foi também artística.
Muito antes de os estudos sobre identidade cultural ganharem espaço nas universidades, Maria compreendeu intuitivamente que uma nação precisava reconhecer sua própria beleza. Passou a colecionar bordados tradicionais, cerâmicas, entalhes em madeira, ícones ortodoxos e objetos produzidos por artesãos do interior. Frequentemente aparecia em público vestindo o traje popular romeno, não como simples ornamentação folclórica, mas como afirmação consciente de pertencimento.
Sua influência ultrapassou os salões do palácio.
No Castelo de Pelișor, cada ambiente recebeu sua intervenção pessoal. Maria desenhava móveis, escolhia vitrais, discutia tecidos, idealizava jardins e harmonizava estilos que iam do Art Nouveau ao simbolismo celta, da arte bizantina ao artesanato romeno. Poucas rainhas europeias participaram tão diretamente da criação estética de suas residências. Pelișor tornou-se, em essência, um autorretrato arquitetônico.
Escrever era outra de suas paixões.
Mantinha diários quase diariamente, registrando acontecimentos políticos, encontros diplomáticos, paisagens, aromas, sentimentos, sonhos e inquietações espirituais. Não escrevia apenas para preservar a memória; escrevia para compreender a própria existência. Publicaria ao longo da vida 34 livros, entre memórias, romances, contos infantis, ensaios e reflexões. Seu monumental The Story of My Life, publicado simultaneamente em Londres e Nova York, permanece uma das autobiografias mais ricas produzidas por uma soberana europeia. Milhares de páginas manuscritas permanecem preservadas em arquivos britânicos e romenos, muitas delas ainda pouco exploradas pelos estudiosos.
Foi durante a Primeira Guerra Mundial, contudo, que Maria deixou de ser apenas rainha para tornar-se símbolo nacional.
Enquanto muitos soberanos permaneciam protegidos nos palácios, ela percorreu hospitais militares, enfermarias improvisadas e postos de campanha. Visitava soldados acometidos por tifo, cólera e outras doenças contagiosas, segurava-lhes as mãos, confortava famílias e recusava qualquer distanciamento protocolar. Conta-se que, ao sugerirem que utilizasse luvas para evitar o contato direto com os feridos, respondeu que aqueles homens haviam arriscado a própria vida pela pátria e mereciam sentir o calor de uma mão humana. O povo passou então a chamá-la “Mama Răniților”, a “Mãe dos Feridos”, e também “Regina-Soldat”, a “Rainha-Soldado”. Nenhum decreto lhe concedeu tais títulos; nasceram espontaneamente da gratidão popular.
A guerra revelou outra faceta de sua personalidade: a diplomata.
Em 1919, na Conferência de Paz de Paris, Maria compreendeu que tratados não eram escritos apenas por ministros, mas também pela força moral daqueles que sabiam inspirar confiança. Encontrou-se com Woodrow Wilson, Georges Clemenceau, David Lloyd George e inúmeras personalidades políticas da época. Sua inteligência, seu domínio de idiomas, seu prestígio familiar e sua extraordinária capacidade de comunicação contribuíram decisivamente para fortalecer a posição romena nas negociações que consolidariam a chamada Grande Romênia. Historiadores romenos frequentemente sustentam que sua atuação produziu mais resultados para a imagem internacional do país do que centenas de diplomatas.
Existe um episódio particularmente simbólico.
Grande parte das joias da Coroa Romena havia sido enviada à Rússia durante a guerra e jamais retornara após a Revolução Bolchevique. Quando Maria chegou a Paris, apresentava-se com muito menos luxo do que se esperava de uma rainha europeia. Transformou essa ausência em argumento político, recordando discretamente aos Aliados que o tesouro nacional romeno permanecia retido em território russo. Sua elegância já não dependia do brilho das pedras preciosas; irradiava da própria dignidade.
Apesar da intensa atividade política, Maria jamais abandonou sua natureza contemplativa.
Amava profundamente dois lugares: o Castelo de Bran e sua residência em Balcic, às margens do Mar Negro. Dizia que ambos eram “as casas do seu coração”. Em Balcic criou jardins suspensos, terraços mediterrânicos, pequenas capelas e recantos destinados ao silêncio. Ali encontrava a paz que tantas vezes lhe faltava nas cerimônias oficiais.
Sua busca espiritual também foi singular.
Criada entre tradições anglicanas e luteranas, aproximou-se gradualmente da Igreja Ortodoxa Romena, à qual aderiu oficialmente em 1926. Simultaneamente, interessou-se por diferentes correntes filosóficas e religiosas, incluindo a Fé Bahá’í, sempre procurando conciliar fé, beleza e humanidade. Para Maria, a religião jamais foi mero protocolo dinástico; representava uma busca permanente pelo sentido da existência.
Foi também uma mulher extraordinariamente moderna.
Apaixonava-se por automóveis, apreciava fotografia, acompanhava as transformações da moda internacional e compreendeu, décadas antes da comunicação contemporânea, o poder político da imagem pública. Sabia que retratos, livros, viagens e fotografias podiam fortalecer a identidade de uma monarquia tanto quanto discursos parlamentares. Em muitos aspectos, antecipou aquilo que hoje se chamaria de diplomacia cultural.
Nos últimos anos de vida dedicou-se principalmente à escrita, organizando suas memórias com a serenidade de quem contemplava uma existência intensamente vivida.
Em 18 de julho de 1938, no Castelo de Pelișor, sua longa jornada chegou ao fim. Tinha apenas sessenta e dois anos de idade. O corpo da rainha foi conduzido ao Mosteiro de Curtea de Argeș, tradicional panteão da monarquia romena. Contudo, antes de partir, deixou um dos mais belos desejos já registrados por uma soberana europeia: que seu corpo repousasse entre os reis, mas que seu coração permanecesse onde fora verdadeiramente feliz. Assim foi feito. Depositado inicialmente em Balcic e, mais tarde, trasladado para o Castelo de Pelișor, seu coração permanece até hoje como um símbolo material do vínculo indissolúvel entre a rainha e a nação que escolheu amar.
Hoje, 18 de julho, a História volta a deter-se por um instante diante de sua memória. Transcorreram-se 88 anos desde que o coração daquela que nasceu princesa britânica e escolheu tornar-se rainha dos romenos deixou de pulsar, mas sua presença continua viva nas montanhas dos Cárpatos, nos salões de Pelișor, nos jardins de Balcic e, sobretudo, na alma de um povo que jamais a esqueceu. Há soberanos que legam palácios, tratados ou conquistas; Maria legou algo infinitamente mais raro: o afeto de uma nação inteira. Seu corpo repousa entre os reis, conforme desejou, mas seu coração permanece, literal e simbolicamente, unido à Romênia. Que sua lembrança continue a atravessar os séculos como um testemunho de coragem, sensibilidade e amor à pátria, provando que as coroas mais duradouras não são forjadas em ouro, mas na eterna gratidão dos povos.
Carlos Egert
Diretório Monárquico do Brasil