07/05/2016
Braço Forte - O Holocausto
A Ilha do Braço forte situa-se à direita de quem transita a meio caminho entre a Praça XV de Novembro e a Ilha de Paquetá. Ruínas de um enorme galpão e de uma residência, semidestruídas pela ação do tempo e vândalos que ali aportam em busca de pássaros, gambás e outros pequenos animais, compõem a paisagem bucólica; o vento balança as palmas dos coqueiros continuamente, trazendo vida à ilha que hoje é considerada a sepultura dos bravos.
6 de maio de 1954.
Naquela tarde, chovia fininho. Após o jantar, Agapiro, o guarda da Capitania dos Portos escalado como vigia da ilha, observou chamas que brotavam de um dos dois galpões que lhe competia vigiar. Em princípio, com a escuridão já encobrindo a ilha e a chuva que teimava em cair, confundira o clarão com alguma embarcação que estaria aportando, mas logo percebeu que eram chamas partindo do interior do armazém “A”. Preocupado, tentou apagar as chamas com os meios disponíveis, mas, não conseguindo, conduziu os poucos moradores para o outro lado do único morro existente na ilha, acomodou todos sob um abrigo de barcos e entrou em contato com a 9ª Inspetoria do Cais do Porto, que por sua vez contatou os bombeiros da Estação do Cais do Porto anunciando o incêndio e solicitando auxílio.
Na 2ª Zona – Cais do Porto, Valmir Gualberto, telegrafista da hora, recebeu o aviso e o entregou ao Tenente Washington, Oficial de Dia e Chefe do Socorro daquela unidade. Minutos depois, mais exatamente às 8h40m, as viaturas vermelhas cruzavam os portais do “ninho de heróis” em direção ao cais da Praça XV de Novembro. Enquanto as viaturas rompiam a distância no asfalto molhado, a chuva teimava em cair.
O som das sirenes ecoavam, anunciando a corrida para o socorro que, para quase duas dezenas daqueles bombeiros, seria sem volta.
No cais, embarcou na lancha General Cunha Pires a guarnição do quartel do Cais do Porto, sob o comando do Major Gabriel da Silva Telles, e uma guarnição de socorro médico do Quartel Central, além do Subcomandante da Corporação, Coronel Rufino Coelho Barbosa. Durante o trajeto, o Cel Rufino e o Tenente Washington conjecturavam acerca do que estaria queimando naquela ilha e as providências que deveriam ser tomadas. A notícia dava conta apenas de que um depósito estava em chamas; os bombeiros não tinham a menor noção do risco a que seriam submetidos pouco tempo depois.
Não demorou até que vissem ao longe um ponto avermelhado; era ali o “vulcão”. Na medida em que a lancha avançava, os contornos da ilha iam se delineando. Vez por outra uma labareda emergia no negrume da noite, iluminando o palco onde se desenrolaria a tragédia. Os bombeiros, até então encolhidos em razão do frio, puseram-se em alerta! Quase não falavam, extasiados com a intensidade das chamas que agora viam perfeitamente, emoldurando a ilha.
No local, a guarnição desembarcada preparava o material para o combate enquanto o Coronel Rufino e o Major Gabriel procediam ao reconhecimento do local. Rufino, preocupado, falou qualquer coisa para o major, que lhe respondeu: “- Pode deixar, coronel, esse fogo eu acabo num instante”. Essas foram as suas últimas palavras. O Tenente Juergueps, Médico de Dia a Quartel Central e filho do Coronel Rufino, procurava um local para instalar um posto médico de emergência quando a explosão se deu. O Subcomandante foi jogado de encontro às pedras enquanto o enorme prédio voou completamente pelos ares deixando uma cratera de vinte metros de profundidade e cem de diâmetro. O ribombo estendeu-se por toda a baia, chegando às cidades serranas como Petrópolis e Teresópolis. No continente, as vidraças se quebraram e a população saiu às ruas, assustada com o que estaria acontecendo.
As paredes do galpão, de aproximadamente um metro de espessura, fragmentaram-se e foram lançadas a centenas de metros de distância; pedaços de concreto pesando toneladas voaram como se fossem de isopor. Os produtos inflamáveis, liberados pelo fragor da explosão, escorreram para o mar, formando um tapete de chamas sobre o espelho d’água. Junto com o galpão, a explosão lançou pelos ares os corpos da maioria dos bombeiros, alguns dos quais caíram sobre o tapete de chamas.
Pela manhã do dia 7 e nos que se sucederam, corpos e peças de uniformes seriam encontrados até mesmo na Ilha de Paquetá, distante mais de duas milhas do local.
Alguns bombeiros, ainda com vida, nadaram desesperadamente buscando um ponto de apoio na noite escura quando o tapete de chamas os alcançou. O que fazer? Mergulhar e morrer afogado ou manter-se à tona e morrer queimado? De uma forma ou de outra os heróis entregaram a vida em holocausto. Foi tudo muito rápido; não houve um grito de socorro... Os poucos sobreviventes estavam atordoados, sem noção exata do que havia acontecido.
Dos vinte e três que embarcaram na lancha General Cunha Pires, dezessete bombeiros não voltaram no dia seguinte para abraçar seus entes queridos e outros dois faleceram nos dias seguintes.
Mais de meio século se passou, mas Braço Forte continua sendo referência de bravura e heroísmo dos soldados do fogo. As feridas se transformaram em cicatrizes, em feias cicatrizes indeléveis na história do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro e hoje nos reunimos como preito aos que se foram pela nobre missão de salvar vidas e bens.
Honras aos heróis da Ilha do Braço Forte! Honras a todos os bombeiros que durante a trajetória histórica do Corpo de Bombeiros, tombaram no cumprimento do dever! Honras aos que entregaram suas vidas em holocausto pela missão que abraçaram com fervor! Honra ao valor do bombeiro, que nasce tão logo o jovem decidido e sonhador transpõe os umbrais do Casarão Vermelho e veste a armadura de brim caqui!
Os dezessete, mais dois bombeiros que faleceram em consequência da explosão da Ilha do Braço Forte foram os seguintes: † Major Gabriel da Silva Telles
† 2º Tenente Washington de Souza Lima
† 1º Sargento nº 295 – Edgar de Barros Lima
† 3º Sargento nº 1077 – Epitácio Costa
† 3º Sargento enfermeiro nº 1131 – Manoel Antonio Peçanha
† Cabo nº 35 – Cláudio de Souza
† Cabo nº 72 – Amâncio da Silva
† Cabo nº 82 - Antonio Pereira Brasil
† Cabo nº 197 – Jorge dos Santos Sant’Ana
† Cabo nº 316 – Thomaz da Silva Rufino
† Cabo nº 478 – Manoel Gomes da Cruz
† Cabo nº 507 - José Edson Villela † Cabo nº 643 - Orlando Xavier da Costa
† Cabo nº 956 – Antonio Cerázio
† Cabo nº 985 - Mozart Nery Bacellar
† Cabo nº 1.032 – Júlio José Martins Rosa
† Cabo nº 1.067 - Valter Mário Cardoso
Faleceram no hospital, em consequência da explosão:
† Cabo nº 30 – Enéas João de Souza
† Cabo nº 449 – Joppe da Silva