19/11/2019
DECLARAÇÃO DE VOTO CRÍTICO NA CHAPA FLORESCER ROSA VERMELHA PARA O CEUPES
O governo Bolsonaro declarou guerra contra as ciências humanas, não somente com o corte de verbas e de bolsas de pesquisa mas com uma forte perseguição ideológica ao livre pensamento e a produção de conhecimento. Como futuros cientistas sociais estamos convocados a ter um papel cada vez mais político diante deste cenário nacional de ataques a juventude, a educação, aos trabalhadores e ao povo pobre. Mas não é somente no Brasil: estamos vendo internacionalmente um levante da juventude e dos trabalhadores em vários países da América Latina, com a juventude chilena enfrentando a polícia nas ruas, a população indígena na Bolívia enfrentando o golpe militar, o Equador se mobilizando contra o FMI e no Haiti um forte levante negro contra as medidas de austeridade. São novos ventos que trazem pro Brasil também a ideia da luta de classes.
Nos últimos anos esteve a frente de nosso Centro Acadêmico Isis Dias de Oliveira a gestão Florescer Sem medo, que em nossa opinião cumpriu um papel importante na articulação dos estudantes do curso, para estarmos na vanguarda do movimento estudantil depois de anos de gestões petistas. Vemos como pontos importantes a paralisação das nossas aulas no dia do assassinato de Marielle Franco, a organização dos comitês contra Bolsonaro e pelo , e nas grandes manifestações dos dias 15 e 30 de maio desse ano, quando construímos juntos grandes blocos que mostraram nossa força nas ruas contra essa extrema direita que odeia a classe trabalhadora e o povo pobre, especialmente as mulheres, os negros, as LGBTs e indígenas. Essa articulação tornou o Centro Acadêmico mais próximo dos estudantes.
No entanto, acreditamos que a potencialidade mostrada pelos estudantes do curso, que nos últimos anos com a conquista das cotas raciais, passou a ter uma cara muito mais negra e trabalhadora, poderia ser ainda mais forte se as organizações que estão à frente dessa gestão buscassem fazer do CEUPES contraponto a política adaptada e imobilizadora das correntes ligadas ao PT e PCdoB que hoje dirigem o DCE da USP e a UNE. Se as entidades dirigidas por correntes de esquerda não aparecem como uma real alternativa as burocracias estudantis é muito difícil fazer florescer uma nova tradição no movimento estudantil. Por isso, a convivência pacífica com estas correntes – que no movimento dos trabalhadores dirigem as principais centrais sindicais – termina diminuindo o poder de alcance da forma dos estudantes.
Não se trata de uma discussão abstrata: porque os dias 15 e 30 de maio com todo o tsunami da educação não se transformou em uma luta coordenada e auto-organizada senão pelo fato das direções burocráticas terem impedido esse processo? Porque o Congresso da UNE acontece no mesmo dia da aprovação da reforma da previdência sem terem feito nada? São apenas alguns exemplos de uma política que quer jogar a energia dos estudantes para saídas meramente eleitorais rumo a 2022. Aqui, acreditamos que uma gestão de esquerda como a Florescer sem Medo poderia ter se colocado muito mais critica a estas políticas do PT e do PCdoB, propondo iniciativas de auto-organização que buscassem transcender o nosso dia a dia nas Ciências Sociais ou nossa participação em bloco nos atos, mas que propusesse linhas políticas para o conjunto do movimento estudantil nacional se articulando com outras entidade da esquerda para coordenar uma força que batalhasse por uma nova tradição anti-burocrática.
Para nós é preciso não somente resistir mas debater uma estratégia que possa enfrentar todos os ataques o que passa também por combater as burocracias que tentam impedir a mobilização. A experiência viva da luta de classes hoje no Chile e em outros países mostra que este tipo de adaptação cobra um preço caro quando as massas estão em ação. Apesar destas considerações, nós da Juventude Faísca – Anticapitalista e Revolucionária declaramos nosso voto crítico a nova chapa Florescer Rosa Vermelha pois consideramos muito importante que nosso Centro Acadêmico não volte para as mãos da burocracia petista mas que haja um forte debate de estratégias sobre qual movimento estudantil devemos batalhar. Apesar de divergências que temos com correntes que compõe essa chapa, com a posição defendida em seu momento pelo Juntos de defesa da Lava Jato, consideramos que os estudantes das Ciências Sociais devem votar criticamente na Chapa Florescer Sem Medo batalhando por este debate de estratégias e concepção do movimento estudantil.
Isso passa pro nos perguntar qual é a universidade que defendemos. Se lutamos todos juntos contra cada ataque à universidade, tampouco consideramos que nosso modelo é a universidade tal como ela é hoje, elitista e ra***ta. Um novo movimento estudantil precisa debater um outro modelo de universidade que entenda a luta por permanência estudantil e por cotas raciais como parte de uma batalha pra transformar a universidade radicalmente: abrir seus muros ao conjunto da população, dos movimentos sociais, dos trabalhadores. Fazer do conhecimento aqui produzido um combustível pra melhora de vida do povo pobre. Defendemos a universidade, mas queremos mais verbas pra educação, por mais vagas, pelo fim do vestibular, que todo jovem negro, pobre e trabalhador tenha o direito de estudar. Para esta batalha, deveríamos tomar nas nossas mãos os rumos da universidade, batalhando de imediato por uma assembleia geral universitária mas na luta para construir e impor uma Estatuinte Livre e Soberana que dissolva o anti-democrático Conselho Universitário cheio de empresas para que sejam os estudantes, os trabalhadores, os terceirizados e os professores que dirijam a USP a serviço da maioria da população.
Queremos debater com todos os companheiros da chapa Florescer e os estudantes que rechaçarem o projeto petista para a Ciências Sociais estas ideias com as quais construímos as chapas Pulso Latino nas eleições do CAELL na Letras, e a chapa Pra poder contra-atacar nas eleições do CAPPF na FEUSP.