06/06/2021
LEGADO
Conforme noticiam os principais jornais do país, o PSDB está organizando, para novembro, as prévias para a escolha do candidato a Presidente da República pelo partido.
Diferente do que faz crer parte da mídia e dos analistas, as disputas internas, pelas quais o PSDB costumeiramente passa, são benéficas e demonstram a força da agremiação, que não está ligada a uma liderança personalista e populista, mas a um projeto coletivo, que tem vários expositores. É verdade que, em outros tempos, as disputas tucanas ficavam restritas aos caciques, sem participação dos filiados, valendo citar o embate entre Serra e Tasso em 2002 e Serra e Aécio em 2010. Entretanto, desde as prévias feitas na cidade de São Paulo, no ano de 2016, para a escolha do candidato a prefeito e posteriormente as prévias para a escolha da candidatura a governador de São Paulo em 2018, esta última com mais de 15 mil votos (quantidade maior do que a população de 3.165 cidades brasileiras), trouxeram a certeza que os filiados devem ser consultados, principalmente considerando que, em ambas as vezes, o eleito nas prévias acabou por ser o eleito em outubro.
Diante disso, parece-me um absoluto descompasso distribuir, de maneira diferente, a importância do voto de cada filiado, afinal as experiências bem sucedidas foram justamente aquelas em que os filiados foram igualmente ouvidos.
Os 4 (quatro) nomes que se apresentam até o momento são: João Doria, Arthur Virgílio, Tasso Jereissati e Eduardo Leite. Indubitavelmente todos são bons quadros, com importantes contribuições para a sociedade, contudo, não há outra opção senão a preferência por João Doria, pelos motivos que passo a explicar.
A palavra que levei em consideração para decidir a minha preferência foi legado. A decisão foi difícil, exatamente em razão do peso político de cada um e da grandeza de suas ações. Entretanto, uma ponderação foi necessária: a eleição é em 2022, o legado mais recente, portanto, será mais fácil de ser lembrado pelo eleitorado e pela militância. Dividindo em duas frentes, estudei o legado do candidato para a sociedade e como isso será relacionado eleitoralmente e estudei o legado do candidato para o partido, importante termômetro para medirmos o comprometimento com a expansão das ideias tucanas e comprometimento com o conteúdo programático num futuro governo.
No primeira frente já foi necessário abandonar qualquer ideia de voto em Arthur Virgílio. Embora o pretenso candidato tenha, ao olharmos os números gerais, feito uma boa gestão em Manaus, será lembrado, pelos colegas da oposição, como o prefeito que entregou a cidade quase sem oxigênio para o seu sucessor, indubitavelmente um passivo eleitoral quase que incorrigível, mesmo com os melhores marketeiros. João Doria, neste ponto, deverá ser lembrado como o homem da vacina, o santo líquido que será responsável por nos arrancar da situação caótica em que nos achamos. Sempre é importante rememorar que a CoronaVac (ou como prefiro chamar: a vacina chinesa de João Doria, ou ainda, a vacina do Butantã) era, até abril, responsável por 80% dos vacinados no país.
No segundo ponto, por sua vez, é importante compararmos o desempenho dos 3 (três) pré-candidatos restantes em seus respectivos estados e a estruturação do PSDB por lá. Em SP, estado onde Doria é o homem central, os tucanos fizeram 170 prefeitos, 100 a mais que o segundo colocado, o DEM, que fez 70 alcaides. Este número tende a crescer ainda mais com a ida de Rodrigo Garcia para o ninho tucano, antes o nome principal do DEM em SP, certamente convencerá aliados a se juntarem ao projeto peesedebista. Mais que isso: Doria foi importante articulador na eleição de Bruno Covas, garantindo o PSDB também na capital.
De outro lado, no RS, estado onde Leite é o homem central, o PSDB fez somente 27 prefeitos, amargando o quinto lugar na classificação e, por pouco, não perdendo para o PT, que fez 23. Também houve pífio desempenho na capital, onde Nelson Marchezan, com a caneta na mão, ficou em terceiro lugar. A situação é ainda pior no Ceará, onde Tasso é o homem central, o estado é dominado pelo PDT e pela família Gomes (naturalmente, portanto, no PDT o candidato a presidente será Ciro Gomes) e o PSDB teve de se contentar com 4 (quatro prefeituras) e com somente 1 (um) vereador na capital Fortaleza.
João Doria, com o legado da vacina, demonstra a viabilidade eleitoral e a facilidade de trabalho ao redor de seu nome, possuindo um ativo eleitoral inquebrantável, até pelos bolsonaristas mais lunáticos e petistas mais fanáticos. De outro lado, ao conseguir manter a força do PSDB em São Paulo demonstra capilaridade e força a nível estadual, habilidade política mais que suficiente, sendo, portanto, plenamente capaz de expandir o PSDB para todo o país. Já que Victor Hugo dizia que não há ideia mais forte do que aquela cujo tempo chegou, é preciso dizer, pelos movimentos recentes, o tempo é de João Doria.
Nathan Lorenzetti
Advogado e delegado estadual do PSDB-SP.