21/09/2025
Declaração Pública diante das expulsões na LIT
Aos companheiros e companheiras que em todo o mundo enfrentam o imperialismo, os governos, a patronal e as burocracias na luta pelo socialismo
Com esta Declaração informamos que a LIT-QI (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional), fundada por Nahuel Moreno, a partir de seu XVI Congresso lamentavelmente está morta como organização revolucionária.
No primeiro dia do Congresso Mundial, domingo 15 de setembro de 2025, a Fração Majoritária que dirige a LIT-QI utilizou sua maioria para, em uma votação de 12 a 8, expulsar toda a delegação de uma fração minoritária, a FDR (Fração pela Defesa e Reconstrução da LIT-QI). Os expulsos foram Maria Rivera, dirigente do MIT do Chile, reconhecida defensora de presos políticos, Deputada Constituinte em 2022, com 41 anos de militância em nossa corrente e delegada do seu partido ao Congresso Mundial. Também foram expulsos Bernardo Cerdeira, dirigente nacional do PSTU do Brasil, ex-dirigente da LIT-QI, com 50 anos de militância na corrente e delegado do seu partido ao Congresso Mundial; Martín Hernández, membro da direção internacional e fundador da LIT-QI, com 57 anos de militância na corrente; Alicia Sagra, responsável pela formação marxista na LIT-QI, ex-membro da direção e da comissão de moral da LIT-QI, com 54 anos de militância na corrente, convidada ao Congresso Mundial para apresentar um contrainforme.
A Fração Majoritária tentou justificar essa medida dizendo que os expulsos descumpriram várias vezes o centralismo democrático, mas não só não apresentou provas como não permitiu a defesa dos acusados. O fato é que, como consequência desta ação, as posições políticas da FDR, expressas em dezenas de documentos, foram vetadas, ficando de fora do Congresso Mundial.
Isso não deixa nenhuma dúvida de que a expulsão se deu porque as críticas e posições políticas da FDR eram inaceitáveis para a Fração Majoritária e, de conteúdo, implica que toda a FDR foi expulsa, o que inclui companheiros do Brasil, Chile, Peru, Paraguai Portugal e Estados Unidos. Isso significa, por exemplo, que Altino Prazeres, reconhecido dirigente do PSTU do Brasil, do Metrô de São Paulo e da CSP-Conlutas, candidato a prefeito de São Paulo nas últimas eleições foi colocado para fora da LIT-QI, assim como dirigentes e ativistas operários, professores, funcionários públicos, de direitos humanos, trabalhadores imigrantes, do Brasil, Chile, Paraguai, Peru, Portugal e Estados Unidos. Além disso, com a expulsão da delegada do MIT do Chile, todo o partido chileno foi deixado de fora do Congresso, e da LIT-QI,.
Implica também a expulsão post-mortem do camarada Zezoca, fundador da LIT-QI, nosso maior especialista no Oriente Médio, com 50 anos de militância, falecido recentemente, fundador e dirigente da FDR até o dia da sua morte.
Em momentos em que a luta de classes mundial, com seus pontos mais altos no genocídio provocado por Israel e a heroica resistência palestina e na guerra da Ucrânia com a também heroica resistência ucraniana, exige mais que nunca avançar na solução da crise de direção revolucionária, a Fração Majoritária da LIT-QI comete esse crime político.
Trata-se de um crime político não só porque deixa de fora da LIT-QI cerca de 200 militantes revolucionários, entre eles quadros com mais de 40 anos de trajetória, mas também porque, como vínhamos alertando, essas expulsões provocaram um processo de dispersão da Internacional.
Diante da concretização das expulsões, o partido da Costa Rica se retirou do Congresso Mundial e anunciou sua saída da LIT-QI; o mesmo foi feito por um setor de outra tendência minoritária, a TOUPI (Tendência Operária pela Unidade Principista da Internacional). O delegado do PST do Peru se retirou do congresso, anunciando que seu partido discutirá que decisão irá tomar sobre sua relação com a LIT-QI. O delegado do PT do Paraguai continuou no congresso, mas também avisou que seu partido discutirá sobre sua relação com a LIT-QI. O setor de militantes organizados no Grupo de Opinião da Argentina também anunciou sua saída da LIT-QI. A mesma atitude foi assumida por Daniel Ruiz, dirigente do partido argentino, que foi preso político por mais de um ano e por quem foi realizada uma importante campanha internacional. Os representantes da Corriente Roja, partido do Estado Espanhol, renunciaram a seu status de delegados, ficando somente como observadores no congresso, informando que no retorno ao seu país discutirão com seu partido que atitude vão tomar.
Reivindicamos a atitude de todos esses setores que, independentemente de suas posições políticas, enfrentaram e enfrentam, de uma forma ou de outra, essas expulsões que implicam uma ruptura com nossos princípios democráticos e não tem nada a ver com tradição da nossa corrente, que nunca expulsou ninguém em meio a uma discussão política.
As expulsões e a dispersão significam que a LIT de Moreno já não existe mais
A LIT-QI foi fundada em 1982, sob a direção de Nahuel Moreno e nesses mais de 40 anos os seus partidos, em diferentes partes do mundo, foram e são conhecidos por estarem sempre junto à luta dos explorados e dos oprimidos, pelo seu consequente combate pelo socialismo, pela democracia operária, contra o imperialismo, os governos, as patronais, as burocracias e as organizações reformistas que defendem a aliança com a burguesia e apoiam governos como o de Lula no Brasil. A LIT-QI sempre funcionou com o regime do centralismo democrático que, como consta em seus Estatutos, significa a máxima democracia interna e a mais férrea disciplina na ação. Ao mesmo tempo em que a defesa da democracia operária é uma de suas principais bandeiras.
Tudo isso mudou. Com a expulsão da FDR e a saída dos outros setores em protesto contra as expulsões, o XVI Congresso Mundial deixou de ser o Congresso da LIT-QI para se tornar o congresso unicamente da sua Fração Majoritária. A LIT-QI de Moreno foi destruída, não existe mais.
A causa da destruição não foi a existência de diferenças políticas. As diferenças sempre podem ser discutidas no marco do centralismo democrático. A destruição ocorre porque a Fração Majoritária degenerou o regime, substituindo o centralismo democrático por um regime centralista burocrático. A maior prova de que isso é o que provoca a dispersão e a destruição da LIT foi dada pelos delegados da Corriente Roja que, tendo concordâncias políticas com a Fração Majoritária, enfrentam as expulsões e se negam a validar esse congresso burocrático.
Como se chegou a esta situação
Essas expulsões foram precedidas por cinco anos de ataques caluniosos; sanções a dezenas de companheiros, sem motivos e sem direito à defesa; ameaças; perseguições políticas. Por exemplo, Martín Hernández foi, durante 23 anos, o editor responsável pela revista teórica da LIT-QI, Marxismo Vivo, em que se desenvolviam debates teóricos e programáticos internos e externos. Há um ano, a Fração Majoritária excluiu Martín do Conselho Editorial e todos os demais integrantes que tinham uma visão crítica às elaborações programáticas da maioria. A Marxismo Vivo deixou de ser uma revista de debate teórico para se tornar uma revista que publica apenas as elaborações teórico-programáticas da Fração Majoritária.
Tudo isso começou como resposta da direção do PSTU do Brasil (que hoje dirige a Fração Majoritária da LIT-QI) ao questionamento à política de adaptação ao reformismo, que o partido brasileiro vinha implementando. Política que também começava a se expressar em outros partidos da LIT-QI.
Existem diferenças políticas e programáticas na LIT-QI. Isso não tinha por que ser um problema, é algo normal e saudável no marxismo revolucionário. As diferenças políticas não impedem a unidade do partido que funciona com um regime leninista. Por isso, a FDR lutou internamente pela unidade da LIT-QI e do PSTU e se comprometeu a respeitar as decisões do Congresso e a direção eleita, porque confiamos na discussão política no marco do centralismo democrático.
O problema foi que a Fração Majoritária da LIT-QI (hegemonizada pela direção do PSTU brasileiro), diante das críticas políticas, começou a destruir o regime leninista, desrespeitando os estatutos e começando a impor um novo regime que pretende centralizar as ideias, as opiniões, um regime centralista burocrático. A existência desse novo regime foi totalmente confirmada com as expulsões.
A essa deterioração do regime por parte da Fração Majoritária se somou uma deterioração política para encarar os casos de violação da moral revolucionária, por parte dos dirigentes, principalmente nos casos de machismo. Isso chegou ao ápice quando, a partir da direção da LIT-QI, tentaram fazer uma conspiração de silêncio para que uma agressão machista de um dirigente da Internacional contra sua ex-companheira não chegasse à base da Internacional. Esse tipo de atitude, que já causou a destruição de outras organizações trotskistas, contra o qual sempre combatemos, penetrou e provocou estragos na LIT-QI.
Nós nos organizamos como Fração pela Defesa e Reconstrução da LIT-QI para dar esse combate no XVI Congresso Mundial. Demos, junto com outros camaradas, uma grande batalha contra as expulsões e para reverter esse processo degenerativo do regime, impulsionado pela Fração Majoritária e que estava provocando uma grande desmoralização na base. Não conseguimos vencer essa batalha. As expulsões aconteceram e o processo de dispersão da LIT-QI é um fato.
Esse resultado lamentável confirma as questões centrais sobre as quais vínhamos alertando: 1 – que a maioria de fato se organizou em uma Fração Majoritária; 2 – que essa Fração Majoritária preparava a nossa expulsão; 3 – que a nossa expulsão era uma política liquidacionista que levaria à dispersão da LIT-QI; 4 – que o regime da LIT-QI tinha passado de centralista democrático a centralista burocrático; 5 – que a única maneira de deter esse processo era derrotando a Fração Majoritária e construindo uma nova direção para a LIT-QI que, independentemente de suas posições políticas nas discussões internas, estivesse comprometida com o regime centralista democrático como consta em nossos Estatutos.
Um chamado a lutar contra a dispersão
As tarefas da FDR estão sendo concluídas e iniciamos a sua dissolução. A LIT-QI da qual fomos parte, a de suas bases fundacionais, hoje já não existe mais. Ainda que mantenha o nome, morreu como organização revolucionária. O que está colocado é a sua reconstrução, começando por batalhar contra a atual dispersão.
Fazemos um chamado a todas as companheiras e companheiros expulsos; aos partidos e companheiros que acabam de sair como forma de repúdio às expulsões; aos que se manifestaram contra as expulsões; aos diferentes camaradas que, nos últimos anos, desmoralizados, abandonaram as filas dos nossos partidos e aos que ficaram com dúvidas e foram surpreendidos por este crime cometido. Chamamos todos a nos encontrarmos para discutir como encarar a reconstrução de um projeto internacional, baseado nas Bases e Estatutos Fundacionais da LIT-QI elaborados por Nahuel Moreno. Precisamos dessa ferramenta para responder ao que a luta de classes mundial exige e para avançar no objetivo estratégico de reconstrução da Quarta Internacional, como continuidade da Terceira dirigida por Lenin e Trotsky.
Setembro de 2025
Em nome da plenária de 140 camaradas que a aprovaram, assinam esta declaração
Alberto, EUA;
Alicia Sagra, Argentina;
Altino Prazeres, Brasil;
Bernardo Cerdeira, Brasil;
Dayse Oliveira, Brasil;
Diego Russo, Brasil;
Eduardo, Portugal;
Edu Aguayo, Paraguay;
María Rivera, Chile;
Martín Hernández, Brasil;
Narciso Soares, Brasil;
Silas, Suíça;
Simón, Peru;
Vanessa Valverde, Chile.