23/07/2014
70% das imagens captadas em ônibus não chegam à Polícia e 30% são ruins
“Sorria! Você está sendo filmado!” Quem nunca observou esse aviso em algum ônibus pela cidade? O que ocorre é que os equipamentos de videomonitoramento instalados nos coletivos não têm inibido a ação de bandidos. Há alguns dias um cobrador levou um tiro na cabeça, após o ônibus em que trabalhava ter sido assaltado. Ainda assim, o comunicado deixa alguns passageiros com uma leve sensação de segurança. Mas será que você está mesmo sendo filmado?
Todos os coletivos devem ter três câmeras: uma na frente do motorista, outra capturando todo o corredor, e mais uma filmando o espaço em torno do cobrador. Mas muitas delas não funcionam, dificultando o trabalho da polícia em prender acusados de assaltos.
“Toda vez que existe uma denúncia de furto no interior do coletivo, ou até mesmo agressão física, nós solicitamos as copias das imagens. Ocorre que, cerca de 70% das imagens não são enviadas ao GERRC, e as empresas não dão qualquer satisfação, apesar de todas as ocorrências serem solicitadas às empresas através de ofício”, afirma o coordenador da GERRC, José Mário.
Segundo ele, uma portaria da Superintendência de Trânsito e Transporte de Salvador (Transalvador) obriga que as empresas de ônibus tenham circuito de imagens em todos os coletivos, mas a portaria não define uma qualidade mínima da imagem, nem a obrigatoriedade das empresas filmarem.
“É obrigatório apenas a existência da câmera. A empresa mostra que tem o equipamento instalado, mas sem funcionamento. Além de 70% das imagens não chegarem a GERRC, 30% das que recebemos é pífia, e não tem qualidade nenhuma”, explicou Mário, que ainda reclama da atuação dos funcionários das empresas na hora da identificação do bandido.
“Com a má qualidade das imagens, quando o bandido é pego, é na sorte. Motoristas e cobradores não reconhecem os indivíduos, apesar de descreverem as roupas. Mostramos o indivíduo através do espelho mágico, mas eles afirmam não ter certeza. Então o individuo acaba sendo liberado, apesar de já ter passagem na polícia”, concluiu.
Alguns motoristas ratificam a informação do coordenador da GERRC. “Quase todos os ônibus que peguei até hoje não gravam nada e estão apenas lá para inibir. Somos orientados a ficar na nossa. Ao que me parece, disponibilizar as filmagens não é obrigatório”, disse um motorista que atua na área há 23 anos, e preferiu não se identificar.
Apesar da grande quantidade de coletivos com equipamentos que servem apenas como enfeite, alguns ônibus são beneficiados com câmeras que realmente funcionam. No final de linha de Cosme de Farias, a equipe da Tribuna da Bahia encontrou coletivos com novas câmeras de videomonitoramentos. A empresa de ônibus Violeta Transportes (Vitral), por exemplo, já possui coletivos com câmeras digitais semelhantes a um mini disco voador.
Trabalhando como motorista da Bahia Transportes Urbanos (BTU) há 34 anos, Antônio Rocha, 57, conta que já trabalhou em muitos coletivos onde as câmeras realmente não funcionavam, mas afirma que as coisas estão mudando. “Já trabalhei em ônibus que as câmeras davam defeito, eles [a empresa] não mandavam consertar. Mas hoje todos os carros novos têm câmeras que gravam vídeo e áudio”, afirmou.
Nossa equipe de reportagem entrou em contato com a Transalvador, mas o órgão não teve um posicionamento sobre o assunto até o fechamento desta matéria.
População desconfia da eficácia do equipamento
O comunicado sobre a presença do equipamento de videomonitoramento pode até inibir alguns bandidos, mas não ganha a total confiança da população, que desconfia que realmente esteja sendo filmado. “Nunca ouvi nada sobre algum ladrão ter sido capturado após ser identificado nas câmeras dos ônibus, então acredito que não funcionem. Devem estar lá para acanhar quem tenta entrar sem pagar pela porta da frente”, disse a enfermeira, Sildineia Soares, 32.
“Já fui assaltado em ônibus e fiz a ocorrência. Questionei sobre as câmeras e, conversando com algumas pessoas, fui informado que dificilmente alguém seria identificado”, pontuou o assistente comercial, Carlos Ribeiro, 28.
Mas a estudante de Letras, Ana Clara, 21, ainda tem esperanças. “Quando vejo o aviso, dou um sorriso sem pensar. É quase que instantâneo. Já ouvi dizer que muitas dessas câmeras não funcionam, mas acredito que a maioria deve funcionar sim. Mesmo que não funcione, espanta alguns ladrões”, disse a estudante de Letras, Ana Clara, 21.
Fonte: Site da Tribuna da Bahia