15/06/2026
268 ANOS
Se somarmos as idades destas mulheres, teremos quase três séculos de vida (ano 2026).
Rosalina – 92
Gentile – 89
Ires – 87
Estas são as três mulheres (le tre donne) mais antigas da comunidade Dolorata.
Em um tempo já distante, elas chegaram aqui, vindas de localidades diferentes, carregando todos os sonhos de suas vidas. Vieram viver um sonho de amor acalentado desde a adolescência.
Rosalina se casou com o Oly Fávero. Gentile com o Irineu Battistella e a Ires com o José (Bepi) Battistella.
Queriam constituir uma família para chamar de sua. Ter sua casa, seu marido, seus filhos, sua colônia da qual subsistiriam.
Como era o costume da época, as mulheres deixavam para trás a vida de solteira, seus pais, irmãos, os bichos de que cuidavam, a roça na qual tanto trabalharam, mas também toda uma maneira de viver.
Diferente passaria a ser a nova vida. Inicialmente, iriam morar com os sogros e com toda a família que lá vivia. Privacidade zero.
Teriam de se submeter aos hábitos da nova família, fossem eles melhores ou piores do que aqueles aos quais estavam acostumadas. Acostumar-se à nova roça, aos novos animais, às novas conversas, à comida daquela nova família.
Desde a primeira segunda-feira após o casamento, subiam na carroça ou iam a pé até aquela roça que também passava a ser delas. O que cultivar? O que a nova família costumava plantar.
Casa, animais, roça, horta, jardim... e não demoraram os filhos. Rosalina teve sete filhos – seis mulheres e um homem. Gentile, dois filhos. Ires, quatro filhas.
Trabalharam duro, de sol a sol, de segunda a segunda. Sim, muitas e muitas vezes tiveram de trabalhar inclusive aos domingos – o tal dia santo que não serve para todos de forma igualitária. Eu acredito que, ao trabalharem a terra nesse dia, devem ter sido abençoadas duplamente. Afinal, era o tempo quem muitas vezes ditava o ritmo do trabalho. Se a chuva viria amanhã, melhor ir colher o feijão ou o trigo e colocá-los embaixo do paiol para não se molharem. E havia tarefas que não conheciam domingos, feriados ou dias santos. As vacas precisavam ser ordenhadas todos os dias, bem cedo, para que o caminhão do leite pudesse recolher, de casa em casa, uma das rendas da família. Aos domingos, porém, o caminhão não passava. Então, se houvesse leite suficiente ou se fosse possível abrir mão da venda daquele dia, era tempo de fazer queijo para alimentar a família. Afinal, nem sempre o relógio mandava na vida; muitas vezes eram a chuva, o sol e os animais que determinavam o que precisava ser feito.
Inverno. Frio de "renguear cusco". Não tem jeito. Vamos "encangar" os bois e ir cortar "vena", capim, porque vacas e bois precisam comer. Arrancar batatas para alimentar os porcos.
— Mas está chovendo, mãe!
— Sim, está, mas é preciso ir mesmo assim. Precisamos alimentar os animais e a nós.
— Estou com frio. Meu casaco molhou todo.
— Caminha. Ajuda a carregar as coisas na carroça, assim vais te esquentar.
— Estou com fome, mãe!
— Eu sei. Mas só mais um pouquinho. Estás vendo aqueles pés de milho ali na frente, cheios de ervas ao redor deles? Pensa em quão tristes irão ficar ao ver estes que já estão limpos e eles não. Só mais um pouquinho e já iremos para casa.
Como estas mulheres iam vestidas para a roça? Isso mesmo. Pés descalços e saia ou vestido. O capim e a cana a cortar suas pernas. Os pés, com calcanhares rachados, a sangrar a terra.
As mãos, os braços e o corpo mostram, hoje, o resultado de tudo o que fizeram: artroses, tendões rompidos, hérnias de disco, joelhos doloridos. O corpo dói, mas a cabeça continua maravilhosa.
Minha mãe, Rosalina, sempre esteve à frente também em tudo o que se referia à igreja. Ah, a igreja da Madonna Della Dolorata – Nossa Senhora das Dores. Quão devota ela é a esta "mãezinha". Preparava os cantos, cantava, puxava o terço, a Via-Sacra.
O sogro se foi, a cunhada também partiu e, mesmo sozinha, ela continuou e continua a fazer o que consegue. Quer ajudar sempre que as dores do corpo permitem.
Foi a mãe – Rosalina – juntamente com o pai, quem levou adiante o projeto da nova igreja e conseguiu erguer a capela que está aí até hoje.
Adoram sentar e conversar, porém, hoje, a curta distância já é longa demais para as pernas que insistem em não se deslocarem.
Se, no início, estas três mulheres chegaram à comunidade sendo mais submissas, com o passar do tempo foram assumindo cada vez mais as rédeas da casa, principalmente após terem ficado viúvas.
Estas três mulheres muito fizeram e se doaram completamente para a comunidade, ajudando a Dolorata a chegar onde chegou.
Há dez anos decidi que escreveria sobre estas pessoas que ajudaram e ainda ajudam a Dolorata, o meu "paraíso na terra". Por isso comecei a fotografá-las e a gravar suas histórias. Acredito que a memória precisa ser mantida viva. Cada pessoa que parte leva consigo uma história de vida que, se não ouvirmos o que tem a dizer, jamais saberemos.
Temos de respeitar suas histórias, suas vidas e aprender com tudo o que fizeram e ainda fazem.
Hoje, os passos são mais lentos. As mãos já não conseguem fazer tudo o que antes faziam. O corpo cobra os anos vividos. Mas a história construída por estas três mulheres continua presente em cada família que formaram, em cada filho, neto e bisneto, em cada pedaço de terra cultivado, em cada oração rezada e em cada lembrança guardada por quem conviveu com elas.
Somadas, Rosalina, Gentile e Ires carregam 268 anos de vida. Mas o verdadeiro tamanho de uma vida não se mede pelos anos vividos, e sim pelo bem que se deixa para os outros.
Um dia, elas também partirão, como partiram tantos outros antes delas. Mas enquanto houver alguém para contar suas histórias, para lembrar seus nomes e para agradecer por tudo o que fizeram, elas continuarão presentes.
Porque a Dolorata de hoje também foi construída pelas mãos destas três mulheres.
E o futuro da comunidade dependerá de uma coisa muito simples: que as novas gerações jamais deixem cair no esquecimento as histórias daqueles que vieram antes.
A Dolorata não foi construída apenas pelos homens que abriram a mata. Foi também erguida pelas mulheres que, silenciosamente, sustentaram a vida.
>>Texto escrito por Rute Vera Maria Favero.