22/09/2020
SUS, o vilão
Se há uma coisa que a pandemia do novo coronavírus está mudando no Brasil é a visão sobre o SUS. Fosse uma empresa privada, seria possível dizer que o SUS está em pleno reposicionamento de marca — com a diferença de que não foi uma jogada de marketing, é apenas a realidade.
Não tem nada a ver com o governo atual, que aliás se elegeu com projeto de enfraquecer o SUS. A enorme demanda de emergência da pandemia fez com que a importância de um serviço de saúde universal e gratuito ficasse em evidência. Mas por que foi preciso que uma tragédia desse tamanho mostrasse a relevância da saúde pública?
Em jornalismo, quando quiser entender discursos e linhas editoriais, siga o dinheiro. A grande mídia há décadas é patrocinada pelos grandes planos de saúde. Além disso, os principais conglomerados de comunicação do Brasil seguem a cartilha privatista e estão abertos ao lobby das gigantes da saúde e investidores do mercado financeiro.
O jornalismo tem mesmo que apontar os problemas da saúde pública: macas em corredores, falta de equipamentos, remédios vencidos. Faz parte da função jornalística apurar, cobrir e divulgar as mazelas de serviços públicos — e o que não falta no SUS são problemas, desvios e mazelas. Mas tantas décadas de um discurso que foca no problema, e não na origem dele (a má gestão que sucateia esses serviços e a corrupção sistêmica), gerou o senso comum de que o SUS, e não os que o põem em risco, é o vilão da saúde brasileira.
Usei esse exemplo para dizer o seguinte: enquanto anunciantes mandarem nas linhas editoriais, enquanto os interesses dos planos de saúde e de qualquer setor empresarial guiarem o foco dos jornais, a narrativa vencedora na sociedade será sempre a versão que agrada e enriquece ainda mais esses grupos. Isso vale para saúde, vale para a segurança pública, para a educação (basta ver como o debate sobre a volta às aulas está tomado por "especialistas" ligados a donos de escolas particulares).
Viva o SUS! E vida longa ao TIB!
Paula Bianchi
Editora