25/08/2022
Em breve, no festival Agrocuir: Dianhes
As lendas som vislumbres dos nossos passados, distorcidos pola patriarcializaçom, racializaçom e cis-heterossexualizaçom. Quando aplicamos um entendimento destes processos às lendas mesmas, podemos alviscar os mundos que jazem detrás, noutrora, em que brincava muito mais a liberdade nossa.
Para conectar com o mundo des devanceires precisamos um toque de humildade, um toque de imaginaçom, um toque de rebeldia e um toque de magia.
Invocamos três seres, mensageires entre nós e o passado. Primeiro as Donas. Nelas vemos a gram violência atravessando a história para com as pessoas transfemininas. A nossa sociedade está em parte fascinada, em parte horrorizada com elas. Assim nom nos surpreende ver traças de existências transfemininas que borram o seu sujeito, o seu protagonismo e só as vemos desde o olhar do homem hétero. Donas som mulheres que atraem os rapazes, dirigindo-os às suas casas e somente quando os rapazes estejam na suas casas notam que têm os pés de uma cabra. Pode ser que quiseram que desprezássemos a monstruosidade, mas nós celebramos a monstruosidade, a transformação, a magia e a diferença. Se quisermos entender o verdadeiro caráter das Donas podemos começar com pessoas que temos entre nós, aqui, agora e conectá-las com outros tempos da nossa velha cultura, tempos em que havia muita menos demarcaçom de género. Em que havia guerreiras de muitas formas; tempos em que liberdade pessoal e o compromisso com a tribo dançavam em equilíbrio.
Monstruosidade, na imaginaçom da cultura hegemónica acompanha a violência. Mas, enquanto transcendamos estas distorções, uma figura de masculinidades diferentes, monstruosas, trans-gressivas aparece na forma dos Busgosos. Justo como as suas companheiras, as Donas, tinham pés de bode e cornos também. Som guardiões das florestas. Compassivos com os viageiros e caminhantes, indicam-lhes o caminho aos que se perdem, defendem os animais, som cruéis com os caçadores. Eis, na forma da masculinidade monstruosa, ou seja, transmasculinidade, uma masculinidade linda baseada nos valores des nosses devanceires pré-cristãos: defensores da natureza, generosos, mas que se tornam guerreiros contra as violências e a injustiça: os caçadores. Eles acusam os Busgosos de serem violadores. Na patriarcalizaçom dos nossos seres, a violaçom começa a tornar-se um papel central em muitas lendas e, desacreditando tudo o que é diferente, pintam a monstruosidade como violenta. Temos que quitar as camadas da cebola podres das nossas lendas para vislumbrar a nossa verdadeira história.
A terceira imagem que invocamos som es Dianhes Burleires. Dianhos, mal interpretados na cultura afetada polo cristianismo, som muitas vezes chamados demos. Mas demos cristãos nom existem na natureza. Es Dianhes som especialistas em transformaçom. Podem ser vistes como pessoas desconhecidas, bem vestidas, ou de cavalos, burros, raposas ou qualquer manifestaçom ajeitada ao momento. Nunca som agressives, mas sim bem molestes, porque a cultura atual há que molestar. Até que, nos olhos normativos, parecem sinistres. Se lhes perguntarem o que som sempre respondem com o que nom som.
Mergulharmos no mundo da nossa própria cultura é beber de uma poça de águas antigas, águas mágicas, que precedem a cultura ocidental, todos os impérios e o cristianismo. É mergulharmos em vivências “trans” ou “dissidentes” além dos modelos hegemónicos de identidade. Estes três padrões: as Donas, os Busgosos e es Dianhes, nom correspondem a nenhuma identidade trans ocidental: seja mulher trans, homem trans ou nom-binárie. Isso nom é dizer que politicamente nom se podam utilizar as identidades quando enfrentamos a sociedade ocidental. Nem é rejeitar as identidades polas pessoas às quuais ajudam, ou que as acham úteis, fundamentais, ou mesmo maneiras perfeitas para descrever as suas vidas. Somente abrem novos espaços, baseados na verdadeira magia das nossas terras, des nosses devanceires e da natureza com que formamos parte.
No jogo, entendemos a Dona, o Busgoso e e Dianhe como fadas que nos podem habitar. Uma fada nom tem relaçom com as Hadas de uma cultura alheia. A nossa velha cultura, carecendo os essencialismos da cultura ocidental, entendeu as nossas particularidades no jeito de fadas mágicas: dons que a nos natureza concedeu. Entendemos as nossas dissidências como fadas mágicas. Perspetivas enriquecidas. Experiências Profundas. Na nossa cultura, ser trans é magia.