25/06/2026
COMO ÍLHAVO DEIXOU MORRER AS "ALMAS"
Para além das tradicionais «alminhas» espalhadas pelos caminhos, o culto das Almas do Purgatório tinha também uma forte expressão dentro dos templos religiosos. Em Ílhavo, essa devoção deu origem, em 1771, à construção da conhecida Capela das Almas, também chamada Capela de Santo António.
A sua origem está ligada a uma simples medalha representativa das Almas do Purgatório, colocada por um devoto numa parede junto ao Rio da Vila. A fama de alegados prodígios atribuídos às Almas atraiu cada vez mais fiéis e peregrinos, levando o Prior de São Salvador de Ílhavo, Reverendo João Martins dos Santos, a solicitar autorização para a construção de um templo dedicado a esta devoção.
O entusiasmo da população foi notável. Muitos habitantes contribuíram com esmolas, materiais e trabalho, permitindo erguer um edifício singular no centro da vila. A capela destacava-se pela sua planta hexagonal, cúpula circular e elegante torre sineira dupla, tornando-se uma das construções mais marcantes de uma terra que, à época, possuía pouco património monumental.
Durante cerca de 150 anos, a Capela das Almas fez parte da vida religiosa e social de Ílhavo. Contudo, em 1910, surgiram propostas para a sua demolição, alegando-se o avançado estado de degradação do edifício. A decisão dividiu profundamente a população e alimentou uma intensa polémica na imprensa local: enquanto o jornal O Nauta defendia a demolição, O Brado lutava pela sua preservação.
Após uma vistoria realizada por ordem da Câmara Municipal, foi determinada a demolição da capela. Os trabalhos começaram em fevereiro de 1911. Curiosamente, depois de iniciada a destruição, verificou-se que o edifício não se encontrava em estado tão crítico como havia sido anunciado, necessitando apenas de reparações pontuais — exatamente o que muitos ilhavenses vinham defendendo.
Com o desaparecimento da Capela das Almas, perdeu-se um dos mais singulares exemplares do património religioso de Ílhavo. No local surgiria, poucos anos depois, o Mercado Municipal, conhecido como «Mercado das Hortaliças», inaugurado em 1914 e posteriormente substituído, em 1925, por um mercado de maiores dimensões.
(Fontes: AUC. Cabido e Mitra da Sé de Coimbra, cx. XI, doc. 2. CDI. Câmara Municipal de Ílhavo, Atas da CMI.: 1909-1914, Sessões de 30/11/1910; 14/12/1910; 21/12/1910; 04/01/1911; 15/03/1911. Bibliografia: ANES, Paulo. “Ílhavo: evolução urbana, arquitetura e património.” Em Ílhavo, terra milenar, 287-360. Ílhavo: Câmara Municipal de Ílhavo, 2017. CÁLÃO, Hugo. Património Religioso de Ílhavo: A Capela das Almas. 2010. [Consultado a 9 de janeiro de 2025] Disponível em: https://patrimonioreligiosodeilhavo.blogspot.com/2010/10/capela-das-almas-de-ilhavo.html.)