21/11/2025
Ontem o pneu estourou, a jante entortou. Era tarde. Quase meia-noite. Fiquei encostado à berma no meio do nevoeiro e da noite cerrada da IC6. Sozinho. À espera do reboque. Cheio de medo. Eu sou um medricas, toda a gente sabe, o meu filho adora que seja assim. "O meu pai é um medricas", e ri-se. O medricas do pai dele ficou ainda uma boa hora à espera do reboque. Quando chegou, vi logo que era boa gente. Talvez tenhamos de rebentar um pneu no meio da noite e do nevoeiro para podermos conhecer boas pessoas. Depois veio o táxi, uma viagem com conversa de gente até casa. Que pessoa tranquila. A tranquilidade de alguém traz um pouco da nossa, não traz? Parou na farmácia e esperou por mim, que era um medicamento urgente que a pessoa mais linda do mundo precisava. Quando entrei em casa, a minha mulher, um abraço, a paz, uma espécie de lágrima a dizer "ufa". Parei. Pensei um pouco. Olhei para trás, para o dia. Foi em Oliveira do Hospital. Foi lindo. Pensei naquelas centenas de pessoas que abracei. Lembrei-me da felicidade, sobretudo minha, em cada abraço. Acho que bastava um daqueles abraços para ter valido a viagem, o pneu rebentado, a espera pelo reboque, tudo aquilo. E quando de repente, num último relance antes de adormecer, olho para uma das mensagens que recebi no meio desta aventura, encontro o que está na imagem. Aquela petição que partilhei aqui, que espalhei aqui, que muitos e muitos desse lado assinaram, venceu. Os pais merecem, os filhos merecem, a crença numa humanidade minimamente humana existe. Vale a pena tentar, p***a. Chegou o sono. Fiquei a sorrir, abraçado ao meu filho, pele na pele, a agradecer a sorte de mais um dia incrível. Não dormi muito, a madrugada ia alta. Não importa nada. Importa saber da sorte maravilhosa que é estar vivo. Num dia, tive aquilo que a vida tem para dar: abraços, ternura, amolgadelas, pneus furados, reboques que os outros têm de nos oferecer. O mais importante, no meio de tudo, é encontrar uma cura. E agora chega de escrever. Ainda tenho o carro em Tondela, coitadinho, e tenho de ver como lhe tratam dos pés, e do peluche do Benjamim que ficou lá esquecido e do qual já temos saudades. Até já.