Sérgio Ávila

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17/02/2026

ARQUITECTURAS DE INFLUÊNCIA
Nos últimos anos, obras como “Geração Ansiosa” do psicólogo Jonathan Haidt, trouxeram para o centro do debate público uma evidencia inquietante: o aumento abrupto de ansiedade, depressão, automutilação e ideação suicida entre adolescentes, coincide, com a massificação dos smartphones e das redes sociais.
A conclusão clara é: a infância foi profundamente alterada por plataformas desenhadas para maximizar atenção, comparação social e exposição permanente.
É neste enquadramento que surge a proposta legislativa para restringir o acesso de crianças e jovens às redes sociais. E é neste contexto que a extrema-direita portuguesa votou contra essa regulação.
Importa ser rigoroso: não está em causa “proibir a internet” ou censurar opiniões. Está em causa reconhecer que estas plataformas utilizam algoritmos que promovem conteúdos mais emocionais, mais polarizadores e mais extremos, porque são esses que retém mais utilizadores. Quando os públicos são menores em fase de desenvolvimento cognitivo e emocional, a neutralidade é uma ilusão. Regular é proteger.
Porque então, vota contra a extrema-direita? Por 3 razões estratégicas de interesse partidário.
Primeira razão: a apropriação seletiva da “liberdade individual”. A extrema-direita invoca liberdade para bloquear regulação, mas trata-se de uma liberdade assimétrica. Defende-se a ausência de limites às plataformas, não se defendendo o direito das crianças a crescerem sem exposição precoce a violência simbólica, sexualização e desinformação. É a liberdade do mercado apresentada como defesa da autonomia juvenil.
Segunda razão: a extrema-direita construiu parte relevante do seu crescimento nas redes sociais. Vive do vídeo curto, da indignação viral, da lógica “nós contra eles”. Os algoritmos que ampliam emoções fortes são os mesmos que ampliam discursos radicais. Restringir o acesso precoce e criar regras significa mexer na principal infraestrutura de expansão e mobilização da extrema-direita.
Terceira razão-talvez a mais decisiva: a utilização das redes como instrumento de condicionamento e radicalização precoce. Jovens em formação identitária são particularmente permeáveis a narrativas que oferecem pertença, inimigos claros e respostas simples. A exposição repetida a conteúdos xenófobos, misóginos ou autoritários cria hábitos mentais duradouros. Reduzir o acesso e exigir mais responsabilidade algorítmica diminui essa estratégia de moldar mentalidades precoce.
Entretanto as consequências acumulam-se: ansiedade, distúrbios de sono, cyberbulling, erosão de autoestima, exposição a conteúdos violentos. A infância não pode ser o campo de te**es de modelos de negócio baseados na exploração da atenção.
No fim a escolha é ética. Entre proteger crianças e adolescentes ou preservar um ecossistema digital que favorece polarização e recrutamento precoce, a extrema-direita portuguesa escolheu o segundo.
Esta não é apenas uma divergência técnica- é um espelho de prioridades. Quando se escolhe proteger a arquitetura da radicalização em vez de proteger crianças e jovens, está-se a escolher o ruido em vez do cuidado, o cálculo político em vez da responsabilidade geracional.
A democracia mede-se também pela forma como cuida dos seus mais vulneráveis, e não se fragiliza por impor limites a algoritmos; fragiliza-se quando normaliza a ideia de que tudo é aceitável desde que renda cliques e votos.
Este é um compromisso civilizacional. E quem perante evidencia tão clara, prefere ficar do lado da radicalização precoce ficará inevitavelmente do lado errado da história.

09/02/2026

ENTRE A NEGAÇÃO E A ENCENAÇÃO
Há uma coerência - embora profundamente cínica – na forma como a extrema-direita aborda as questões climáticas. Não é uma coerência moral, científica ou sequer racional.
É uma coerência estratégica, alinhada com interesses económicos muito concretos e uma lógica populista que troca responsabilidade por espetáculo.
Durante anos, os partidos de extrema-direita tem seguido um guião previsível: negar a existência de alterações climáticas ou, na melhor das hipóteses, relativizá-las.
Atacam as políticas de mitigação e adaptação climática, ridicularizam a ciência, votam contra as medidas de proteção ambiental e acusam qualquer tentativa de transição ecológica de ser um “ataque às pessoas comuns”.
Tudo isto enquanto protegem, com zelo ideológico, os interesses das empresas que mais lucram com a inação climática – muitas delas suas financiadoras partidárias.
O problema é que o clima não vota, não faz sondagens e não respeita ciclos eleitorais.
Quando os fenómenos extremos chegam – secas prolongadas, incêndios devastadores, cheias súbitas, tempestades cada vez mais frequentes – as realidades impõem-se, mesmo aqueles que passam o tempo a negá-la.
E é aqui que entra a segunda parte do guião: a encenação.
Em Portugal, na última semana assistimos a mais um episódio exemplar desta hipocrisia. Após intempéries extremas causarem prejuízos reais a famílias, agricultores e empresas, os mesmos que sistematicamente desvalorizam o risco climático surgem, subitamente, como defensores dos “portugueses esquecidos”.
Não para assumir responsabilidades, nem para explicar por que razão combatem políticas de prevenção das alterações climáticas, mas para pousar paras as câmaras, distribuir uma caixa de águas e garantir que a televisão registava o momento.
A tragédia transforma-se em oportunidade mediática. O sofrimento alheio vira conteúdo. A política reduz-se a um gesto simbólico, cuidadosamente filmado, que nada resolve, mas rende likes, partilhas e minutos de antena.
É o populismo no seu estado mais básico: nenhuma solução estrutural, nenhuma visão do futuro, apenas a exploração mediática da indignação e da dor.
Há algo profundamente perverso neste ciclo. Primeiro bloqueiam-se políticas que poderiam reduzir o impacto das alterações climáticas. Depois, quando os danos se
materializam, capitaliza-se politicamente sobe as consequências dessa mesma inação.
A extrema-direita não é apenas incoerente na questão climática; é oportunista. E essa incoerência tem custos reais, pagos por quem perde colheitas, casas, rendimentos e segurança.
Enquanto houver quem confunda solidariedade com encenação e política pública com teatro, continuaremos a assistir a este ciclo de negação, desastre e cinismo.
O clima, esse, não se deixa enganar por discursos nem por caixas de água distribuídas em frente às camaras.
E, mais cedo ou mais tarde, também os cidadãos deixarão de se enganar.
Porque o tempo ensina aquilo que o ruido tenta esconder: quando a realidade se repete, a memoria coletiva ganha forma e os gestos tardios passam a carregar, em silencio, o peso de uma longa negação.

02/02/2026

BOVINO E O ESPELHO PORTUGUÊS
A estratégia migratória da administração Trump nunca foi um conjunto de medidas avulsas. Foi, desde o início um programa político assente na desumanização.
Migrantes reduzidos a números, crianças separadas dos pais como instrumento dissuasor, centros de detenção onde a exceção se torna norma e a crueldade passou a ser chamada de eficácia. Não foram excessos: foi o método estratégico.
Neste quadro o ICE (Immigration and Customs Enforcement) deixou de ser apenas uma agência de aplicação da lei para assumir o papel de braço operativo de uma narrativa politica. Rusgas mediatizadas, detenções arbitrárias e uma lógica de intimidação permanente tornando-se parte da rotina.
Em Minnesota, essa abordagem ganhou um rosto concreto: Gregory Bovino, responsável pelas operações que trataram comunidades inteiras, como um problema de ordem publica a resolver pela força.
O nome não é metáfora, embora pareça talhado para ela. Bovino é real e a coincidência semântica é perturbadora. Sob a sua liderança, agentes federais ignoraram autoridades locais, militarizaram o espaço cívico e passaram a agir com pessoas como se gere mercadoria: identificar, separar, remover.
A lei deixou de funcionar como limite ético e passou a ser um manual operacional. O medo tornou-se política publica.
As consequências são conhecidas e profundamente desumanas.
Comunidades inteiras vivem num estado de precariedade permanente, onde ir trabalhar, ir à escola ou recorrer a cuidados de saúde implica um cálculo de risco.
A imigração deixou de ser debatida como fenómeno económico e social complexo e passa a ser apresentada como ameaça existencial. O imigrante surge como bode expiatório conveniente para frustrações políticas e falhas estruturais que ninguém quer enfrentar.
O inquietante é que este discurso não nos é distante nem estranho. Em Portugal, o argumentário da extrema-direita segue a mesma lógica: simplificação grosseira, dramatização permanente e a promessa de ordem através da exclusão.
Em Portugal a extrema-direita é uma copia dessa narrativa, assente no “controlo”, na “prioridade nacional” e nos “abusos do sistema”, como se a realidade social pudesse ser resolvida por slogans e suspeição permanente. O que se passa nos Estados Unidos surge, assim, não como uma exceção, mas como um ensaio geral a ser replicado.
Mesmo quando essa narrativa é desmentida pelos factos: só no último ano os imigrantes em Portugal contribuíram com mais de 3.000 milhões de euros para a Segurança Social, já deduzidos os apoios sociais. Não é um detalhe técnico, mas um dado estrutural. Essa contribuição dos imigrantes é hoje decisiva para garantir a sustentabilidade das reformas futuras dos portugueses. Os mesmo que são apresentados como ameaça são, afinal, um dos pilares silenciosos do Estado Social.
Ainda assim, a realidade raramente sobrevive ao ruido ideológico. A extrema-direita prefere ignorar que quem mais contribui é, muitas vezes, quem menos usufrui. A complexidade não rende votos, o medo, sim.
Se essa visão chegar ao poder, não será necessário grande exercício de imaginação. Basta ver o que está a acontecer nos Estados Unidos à escala portuguesa: serviços públicos transformados em instrumentos de vigilância, funcionários convertidos em fiscais improvisados, localidades inteiras sobre suspeita permanente. O que hoje é apresentado como “firmeza” acabará em arbitrariedade e abuso- com igual convicção.
E quem seriam os Gregory Bovino portugueses? Todos aqueles que vão acreditando e se transformando em executores zelosos e que confundem obediência com responsabilidade e dureza com competência.
Em português corrente, “bovino” é quem segue o rebanho sem espírito critico, desde que alguém lhes diga que é “a lei”, que “o povo quer” ou que “lá fora funciona”.
A história mostra-nos que a desumanização começa sempre na linguagem e termina na prática. Quando aceitamos que outros sejam tratados como gado, estamos a preparar o terreno para o dia em que o curral deixe de ter fronteiras- e passe a chamar-se sociedade.

12/01/2026

A ILUSÃO QUE SERVE OUTROS INTERESSES

A Europa não está apenas a atravessar um período de instabilidade. Está a ser alvo de uma estratégia deliberada de enfraquecimento que visa destruir o seu maior trunfo: a capacidade de agir em conjunto, de proteger os seus cidadãos e de garantir o desenvolvimento aos países e regiões mais frágeis.
Esta estratégia tem hoje dois rostos claros: a Rússia de Vladimir Putin e a administração de Donald Trump.
Ambos partilham o mesmo objetivo central: destruir uma União Europeia que seja forte, coesa e democrática, e que se constitui como um obstáculo direto às ambições geopolíticas de Putin e Trump.
Os dois estão unidos em criar um mundo cada vez mais fragmentado, assente em negociações bilaterais desiguais, onde os mais fortes impõem regras e os mais pequenos e fracos obedecem.
A Europa unida limita esse poder. Por isso tem de ser enfraquecida. Mas esse ataque não se faz com exércitos. Faz-se com política.
A estratégia é conhecida: apoiar, ampliar e legitimar os partidos de extrema-direita no interior da Europa.
Há evidencias publicas das ligações financeiras, ideológicas, mediáticas, comunicacionais e estratégicas entre as administrações de Putin e Trump e toda a extrema-direita europeia.
Estes partidos não são apenas forças de protesto. São na prática, instrumentos de destabilização. Onde crescem, minam a confiança das instituições, fragilizam o Estado de direito e bloqueiam decisões europeias fundamentais.
Não precisam de retirar países da União Europeia: basta torná-la inoperante por dentro.
Portugal, enquanto país periférico, pequeno e aberto, está entre os que mais têm a perder. A União Europeia não é uma abstração distante.
É investimento, é coesão territorial, é estabilidade económica, é capacidade de enfrentar crises globais. Foram os fundos europeus que permitiram reduzir desigualdades regionais e criar oportunidades onde antes havia estagnação.
Apoiar a extrema direita em Portugal não é apenas um gesto isolado, nem um simples voto de protesto, tem consequências muito mais vastas.
É contribuir ativamente para uma estratégia internacional que visa enfraquecer a Europa e , com isso, enfraquecer Portugal.
É ajudar a destruir o principal pilar do nosso desenvolvimento e da nossa autonomia.
O maior paradoxo é este: a extrema-direita promete soberania, mas produz dependência; promete força , mas gera fragilidade; promete defender Portugal, mas serve interesses externos que prejudicam o país.
A grande maioria dos seus apoiantes não tem consciência disso, nem como é falsa a resposta populista, perante frustrações concretas e reais.
Defender a Europa começa por rejeitar a extrema-direita. Não por dogma ideológico, mas por lucidez estratégica.
E essa luta não se faz apenas nas eleições. Depende de cada um de nós, e faz-se no esclarecimento paciente, na explicação directa, sobretudo nas regiões que serão mais prejudicadas.
Explicar que o reforço da extrema-direita levará a uma europa mais fraca. E uma europa mais fraca significará menos investimento, menos coesão e menos futuro para cada uma dessas regiões.
Putin e Trump não podem decidir sozinhos. O sucesso da sua estratégia depende das escolhas feitas dentro de cada país europeu, de cada comunidade, por cada cidadão.
Combater essa estratégia está muito mais ao nosso alcance e depende muito mais de cada um de nós, do que pensamos e do que até acreditávamos.
Defender Portugal hoje é defender a União Europeia. E isso começa por assumir, com clareza e coragem, que o populismo de extrema-direita não é a solução - é parte do problema.
Nada disso é distante e abstrato.
Cabe a todos os que acreditam na democracia, na coesão e no desenvolvimento desmontar a ilusão populista junto de quem foi levado a acreditar que a rutura é a solução.
O futuro não se decide apenas nos grandes palcos internacionais : decide-se nas escolhas quotidianas e na recusa de servir projetos que deixam os países mais fracos, mais vulneráveis e mais isolados.
Essa é uma responsabilidade comum – e é agora.

05/01/2026

QUANDO O POPULISMO CHEGA AO PODER: QUEM PAGA O PREÇO DA ILUSÃO

A atual administração Trump representou a institucionalização de um populismo de extrema-direita que, ao chegar ao poder, revelou a sua verdadeira natureza: frágil na economia real, agressivo para com a democracia e indulgente com interesses económicos concentrados.
O contraste entre a promessa feita em campanha e a prática governativa é particularmente cruel para quem mais acreditou nela.
No plano interno, os custos económicos estão a recair sobretudo sobre o povo que nele acreditou.
O ataque à imigração, apresentado como proteção do emprego nacional, provocou escassez de mão de obra em sectores essenciais como agricultura, construção, indústria e serviços, pressionando custos e encarecendo bens de primeira necessidade.
O aumento do custo de vida atingiu de forma mais incisiva as classes médias e baixas, precisamente aquelas que tinham sido mobilizadas contra as “elites”.
O protecionismo nacionalista agravou esse efeito. Tarifas comerciais penalizaram pequenas e médias empresas, destruíram empregos em regiões industrializadas e aprofundaram desigualdades regionais.
A promessa de reindustrialização foi substituída por maior desemprego e precariedade, enquanto os ganhos se concentravam em sectores financeiros e grandes grupos económicos menos expostos à economia real.
Também no plano social, os custos foram assimétricos. O enfraquecimento do acesso aos serviços públicos deixou milhões de cidadãos mais vulneráveis, sobretudo nas zonas rurais e periferias urbanas, precisamente nos mesmos territórios onde o discurso populista teve maior sucesso eleitoral.
A redução do Estado Social não foi acompanhada por alternativas reais, apenas por maior insegurança individual.
Perante estes resultados, o poder não corrigiu o rumo. Pelo contrário, passou a remover obstáculos. A comunicação social foi tratada como inimiga pública e o poder judicial como entrave ao exercício do poder absoluto sem respeito pela lei.
A estratégia é clara: condicionar e atacar as instituições que limitam o exercício absoluto do poder.
Em relação ao poder económico, apesar do discurso contra o “sistema” e as “elites”, as políticas adotadas protegeram os grandes interesses financeiros e grupos económicos que coincidem com os seus principais financiadores políticos.
Reduções fiscais regressivas, desregulação e proteção seletiva beneficiaram quem menos precisava de proteção pública.
O populismo da extrema-direita revelou-se, assim, não como alternativa, mas como um instrumento para reforçar desigualdades sob uma narrativa de revolta popular.
No plano internacional, a logica é idêntica: abandono de princípios, desprezo pelo direito internacional e valorização da força como critério de legitimidade.
Ao substituir regras por relações de poder, contribuem para um mundo mais instável, onde a cooperação cede lugar à imposição.
O alerta para Portugal exige muita atenção e rigor. O armamentário que levou Trump ao poder, é o mesmo que é partilhado e usado pela extrema-direita em Portugal e na Europa.
Começa com a exploração do medo e do ressentimento: a promessa da resposta simples para problemas complexos, a oposição entre “povo honesto” e “elites corruptas”, a identificação da imigração como causa de todos os males e a desconfiança no Estado Social apresentado como privilégio dos “outros”.
É um discurso eficaz em campanha porque oferece culpados claros e soluções fáceis.
No entanto a história recente demonstra que quando o populismo de extrema-direita chega ao poder não falha por incompetência acidental, mas por incompatibilidade estrutural coma democracia.
Promete devolver poder ao povo, mas para governar precisa de condicionar tudo o que o limita: imprensa livre, justiça independente e instituições de controlo.
Mais trágico ainda é constatar que os primeiros a perder são aqueles que mais acreditaram. Os trabalhadores, as classes médias empobrecidas, os territórios esquecidos – mobilizados com promessas de proteção, dignidade e prosperidade – acabam confrontados comias insegurança, menos direitos e maior desigualdade.
Enquanto isso, os verdadeiros beneficiários são os interesses económicos concentrados, os seus financiadores partidários e sectores imunes às consequências das decisões que impõem aos outros.
O caso da administração Trump não é uma exceção histórica nem um desvio exótico da democracia liberal.
È um aviso. Um aviso sobre como o medo pode ser transformado em capital político, como a frustração legítima pode ser instrumentalizada e como a erosão democrática raramente começa com tanques na rua – começa com aplausos, simplificações e a promessa de que alguém falará “em nome do povo”.
Portugal não está imune a este processo. Os contextos adaptam-se, mas o guião é o mesmo.
A escolha não é entre a indignação e o conformismo; é entre uma democracia imperfeita que se corrige e um atalho autoritário que se fecha em si próprio.
Quando a desilusão chega, já é tarde para recuperar o que foi cedido com facilidade.
A defesa da democracia não é abstrata. É concreta, quotidiana e exige memória.
Porque quando se troca a complexidade pela raiva e as instituições por líderes providenciais, o custo é pago na vida real, essencialmente pelos mesmos que foram convencidos que não tinham nada a perder.

16/12/2025

O RANKING DO THE ECONOMIST E A ILUSÃO DO SUCESSO

A recente valorização de Portugal no ranking económico do The Economist tem sido usada como prova de um desempenho económico robusto.
No entanto, uma leitura rigorosa dos dados aconselha prudência. Mais do que um retrato do presente, os indicadores revelam tendências herdadas e expõem fragilidades que condicionam seriamente o crescimento futuro.
Em 2025 a economia portuguesa deverá continuar a crescer acima da média europeia, mas a um ritmo claramente inferior ao registado em 2023.
A descida da inflação e a dinâmica do mercado de trabalho confirmam a consolidação de equilíbrios macroeconómicos alcançados em anos anteriores.
O mesmo se aplica ao bom desempenho recente da bolsa, que ocorre num mercado pequeno, pouco diversificado e muito vulnerável a correções.
Confundir estes dados com um fortalecimento estrutural da economia portuguesa será um erro de analise.
A questão central está na composição do crescimento económico. Hoje, Portugal depende quase exclusivamente do mercado interno para continuar a crescer.
Desde o ano passado, a procura externa líquida tem vindo a diminuir, enquanto o peso das exportações e do investimento direto estrangeiro no PIB recua d forma consistente.
Esta inversão é particularmente preocupante, pois foram precisamente estes fatores que explicaram o crescimento acima da média europeia até 2022.
Atualmente, a economia portuguesa assenta em apenas três pilares para crescer : turismo, consumo interno e investimento.
O turismo continua a ter um desempenho forte, beneficiando de estratégias de valorização implementadas no passado e de um contexto internacional favorável. Contudo, trata-se de um sector volátil, sensível a choques externos e com efeitos colaterais negativos sobre o mercado da habitação e o custo de vida.
O consumo interno foi sustentado, até agora, por uma folga orçamental significativa, entretanto esgotada. A partir de 2026, a margem para continuar a estimular a procura sem incorrer em défice será muito reduzida.
O investimento, por sua vez tem sido impulsionado pelo PRR - que se aproxima do fim – e pelo sector imobiliário, cujo dinamismo tem custos económicos e sociais
crescentes, nomeadamente no acesso à habitação e na pressão inflacionistas sobre as casas existentes.
Com o esgotamento simultâneo do PRR e da margem orçamental, o país arrisca-se a ficar sem instrumentos eficazes de estímulo ao crescimento.
Sem uma recuperação da procura externa, sem reforço das exportações e sem incorporação de maior valor acrescentado na estrutura produtiva, Portugal tenderá a abrandar ainda mais o crescimento de forma persistente.
A economia portuguesa revela fragilidades estruturais bem conhecidas: fraca especialização em bens e serviços intensivos em tecnologia e conhecimento, abrandamento do sector industrial, baixa modernização da agricultura, custos energéticos pouco competitivos e uma indústria transformadora pressionada por margens cada vez mais reduzidas num contexto de concorrência global.
Mais do que celebrar rankings, que resultam em larga medida de decisões e politicas tomadas em anos anteriores, o essencial é reconhecer os sinais de alerta e agir sobre eles.
Crescimento sustentável exige diversificação produtiva, reforço das exportações e investimento em inovação, conhecimento e capital humano.
Ignorar esta evidencia, é levar o país, silenciosamente, para uma economia mais frágil e para um ajustamento mais doloroso no futuro.
Sem uma aposta numa economia mais produtiva, inovadora e orientada para o exterior Portugal corre o risco de transformar sucessos temporários em estagnação estrutural.
Porque o futuro não se herda, constrói-se.

03/12/2025

UM DESAFIO QUE EXIGE VISÃO ESTRATÉGICA

Os fundos comunitários que os Açores vão dispor apos 2027, constitui uma das mais importantes decisões que vão condicionar o futuro na nossa região.
Tive a experiência de negociar as dotações para os Açores, dos últimos 3 quadros comunitários de apoio que definiram o financiamento comunitário para a Região entre 2007 e 2027.
Em cada novo período de programação os Açores conseguiram obter aumentos significativos dos fundos comunitários disponibilizados, apesar das ameaças e dos condicionalismos que foram surgindo.
Os sucessivos alargamentos de países e regiões beneficiarias, a introdução de novas prioridades ou critérios, na sequência da crise financeira internacional e o covid, são alguns exemplos de obstáculos que tiveram que ser ultrapassados.
Ao contrário do que faz intuir muitas declarações na Região sobre a matéria, a atribuição de fundos comunitários à Região é essencialmente uma decisão nacional.
As instâncias Europeias definem as dotações globais para a Politica de Coesão e Politica Agrícola e os critérios de distribuição pelos países, e só depois de determinado as dotações por país, é apenas o Governo de cada país que define e decide os montantes a atribuir a cada Região.
Ignorar esta realidade pelos diversos atores regionais, não constitui um contributo positivo para o sucesso desta negociação.
Como é essencial perceber o atual contexto europeu para melhor enquadrar a argumentação regional.
A União Europeia entra neste novo ciclo político com um diagnostico duro: a distância em relação aos EUA e à China aumenta; sendo a própria Europa que está a divergir da economia mundial.
Em 2008, o PIB per capita da EU representava cerca de 76,5% do norte americano, e agora é apenas cerca de 50%. Em vez de convergir, a Europa afastou-se do seu principal parceiro e concorrente.
A origem desta divergência está na produtividade. Hoje, o PIB por hora trabalhada europeu apresenta um atraso superior a 20% face ao norte americano. Esta diferença traduz-se em salários mais baixos, menor capacidade de investimento e menor margem fiscal para financiar o Estado social.
Também no comercio mundial a União Europeia perde peso. A fatia europeia nas exportações mundiais de bens e serviços tem recuado, enquanto economias emergentes avançam em indústria, tecnologia e infraestruturas.
A crise energética tornou o quadro ainda mais desfavorável. Os preços industriais de eletricidade na Europa são, em média, entre duas a duas vezes e meia superiores aos dos Estados Unidos, penalizando sectores intensivos em energia. Produzir na Europa é hoje estruturalmente mais caro.
É neste contexto que se acentua a grande disputa política em Bruxelas: recentrar o orçamento na competitividade e na defesa, ou preservar o peso da Política de Coesão e da Política Agrícola.
De um lado argumenta-se que sem crescimento robusto e capacidade militar própria, a Europa ficará irrelevante num mundo de potencias continentais. Daí a defesa de mais fundos comuns para competitividade empresarial e industrial, transição energética, inovação tecnológica e apoio à industria de defesa, mesmo à custa de cortes relativos na coesão e agricultura.
Do outro lado, os países e regiões mais pobres avisam que, ao sacrificar a coesão e a agricultura, arriscam-se a consolidar uma Europa a duas velocidades. Sem investimento em convergência regional e em agricultura sustentável, dizem, grande parte do território europeu nunca entrará nas novas cadeias de valor da defesa e da inovação.
Na prática, trata-se de uma falsa escolha, sem competitividade e segurança, não há base económica para manter o modelo social; não há legitimidade política nem mercado interno coeso para sustentar a própria competitividade.
O desafio é redesenhar políticas, não simplesmente trocar umas pelas outras: ligar os fundos de coesão a ganhos de produtividade, apoiar uma agricultura que contribua para a transição energética e alimentar, e garantir que uma nova política industrial e de defesa tenha expressão em todo o território, e não apenas nas grandes metrópoles.
Perante esta dialética, como se deve posicionar os Açores? Em primeiro lugar, não pode aceitar o papel de mera “beneficiaria passiva” da coesão. Tem de se assumir como ator estratégico, explicando que a autonomia europeia em energia, alimentação, vigilância marítima ou defesa do Atlântico depende também das suas especificidades geográficas.
Os Açores devem apresentar-se como plataforma avançada de defesa e segurança marítima, laboratório de energias renováveis oceânicas, hub de investigação em clima, biodiversidade e economia azul. Ao fazê-lo, passa a falar a linguagem da nova agenda europeia (competitividade, defesa, tecnologia), sem abdicar da necessidade de coesão.
Em segundo lugar, deve-se exigir que os novos instrumentos de defesa, indústria e inovação, tenham uma dimensão territorial explicita: critérios que valorizam a ultraperiferia, majorações em programas competitivos e integração sistemática em redes europeias de investigação e indústria. É essencial ter credibilidade para poder ser ouvido, onde se desenham as novas políticas.
Por fim, é crucial reforçar a capacidade interna de preparação de projetos, captação de investimento e execução de programas complexos.
Numa União Europeia em que o dinheiro irá fluir para quem melhor provar valor estratégico, uma região de convergência tem de mostrar que cada euro investido contribui simultaneamente para três objetivos europeus: reduzir desigualdades, aumentar competitividade e reforçar a autonomia estratégica.
Se conseguir ocupar esse espaço, os Açores não estarão apenas do lado dos que temem cortes na coesão, para passar a estar entre aqueles que ajudam a redefinir o lugar da Europa no mundo.
Porque é bom termos todos consciência de que pela primeira vez, em muitas décadas, é a própria Europa que corre o risco de ficar para trás.
Perante uma Europa que perde terreno e redefine prioridades, os Açores precisam de afirmar o seu potencial estratégico.
Só demonstrando o seu contributo real para os novos desafios europeus, a Região evitará sofrer, pela primeira vez, uma redução de fundos europeus.

18/11/2025

O retrocesso na legislação laboral num tempo que exigia visão

Num momento em que a inteligência artificial, a automação e a digitalização estão a transformar profundamente a economia global, Portugal deveria estar a discutir como reforçar a qualificação dos trabalhadores, garantir segurança num mercado em mutação rápida e assegurar que os ganhos de produtividade beneficiam toda a sociedade.
Em vez disso, o governo insiste numa revisão da legislação laboral que falha completamente o diagnóstico e agrava desigualdades num país já marcado por fragilidades estruturais.
A proposta apresentada é apresentada como modernizadora. Mas, ao analisa-la, percebe-se que não tem nada de inovador: recupera velhas soluções de flexibilização excessiva que nunca aumentaram a produtividade nem a competitividade.
A ampliação dos contratos atípicos e de vínculos frágeis e a normalização de modalidades de trabalho sem estabilidade são medidas que empurram o risco para o trabalhador e aliviam as empresas de responsabilidade social. Não é uma estratégia económica: é uma aposta na desproteção.
Os jovens são os primeiros sacrificados. Num país onde a precariedade juvenil é estrutural, prolongar modelos de contratação instáveis significa dificultar o seu futuro. É impossível planear carreira, comprar casa, construir família ou simplesmente viver com autonomia quando o horizonte profissional é de meses. Falamos de uma geração que já enfrenta salários baixos, rendas incomportáveis e um mercado de trabalho que absorve talento, mas raramente o valoriza. Esta revisão laboral aprofunda esta realidade.
As famílias também saem profundamente prejudicadas. A desregulação dos horários, combinada com a mobilidade funcional ampliada, coloca em causa qualquer tentativa de conciliação entre trabalho e vida pessoal. Na prática, significa menos tempo para filhos, menos capacidade de organizar cuidados, mais pressão psicológica e menos previsibilidade. Para um país com uma das mais baixas taxas de natalidade da europa, é inaceitável legislar para tornar a parentalidade ainda mais difícil.
Mas é ainda mais preocupante , quando as mulheres são as mais atacadas. Impor horários mais irregulares significa reforçar desigualdades de género no acesso ao emprego, na progressão na carreira e até no rendimento. O discurso da igualdade, é contrariado por esta legislação que desconsidera a realidade de metade da população ativa.
Um dos aspetos mais graves desta revisão é a facilitação dos despedimentos com base em critérios económicos amplos e vagos. Em plena transição digital – quando a digitalização e a IA ameaçam milhares de postos trabalho- o que se esperaria era o reforço das proteções, não a abertura da porta para despedimentos muito mais fáceis. A tecnologia já desequilibra a estabilidade laboral. Cabe ao Estado restabelecer o equilíbrio – não agravar.
O Governo justifica estas opções com o argumento da competitividade. Mas a competitividade não depende, nem dependerá da fragilização dos direitos laborais. O que torna as empresas portuguesas menos produtivas são fatores bem identificados: baixa qualificação tecnológica, insuficiente investimento em inovação, gestão ineficiente, burocracia pesada e falta de escala.
Nenhum destes problemas se resolve despedindo mais facilmente ou precarizando vínculos.
Pelo contrário, há caminhos eficazes para reforçar a competitividade sem atacar a legislação laboral : investir na formação continua; financiar transição digital nas empresas; apoiar clusters inovadores; modernizar praticas de gestão; simplificar estruturas administrativas; desburocratizar; e garantir estabilidade regulatória.
É assim que se aumenta produtividade – com visão estratégica, não com fragilização social.
No essencial, esta revisão esquece que o trabalho não é apenas um fator produtivo, mas o fundamento de dignidade de uma sociedade.
Fragilizar direitos não aumenta produtividade nem competitividade; apenas transfere riscos para quem menos pode suportá-los.
Num contexto de transformação tecnológica acelerada, estabilidade, qualificação e proteção são requisitos fundamentais para o crescimento.
A forma como pretendemos valorizar o trabalho será, acima de tudo, a definição do tipo de país que queremos ser.

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