10/08/2026
𝗝ú𝗹𝗶𝗼 𝗱𝗲 𝗠𝗲𝗹𝗹𝗼 𝗙𝗼𝗴𝗮ç𝗮 (𝗣𝗼𝗹í𝘁𝗶𝗰𝗼)
[𝟭0/𝟬𝟴/𝟭𝟵𝟬𝟳 – 𝟮𝟴/𝟬𝟭/𝟭𝟵𝟴𝟬]
Júlio de Mello Fogaça, filho de José Maria das Neves Fogaça e de Maria José de Mello, comerciantes abastados, e irmão de Beatriz de Mello Fogaça, advogada, nasceu em Alguber, Cadaval, na quinta de Porto Nogueira, pertencente a seus pais, e faleceu, solteiro, em Lisboa no hospital Particular, estando sepultado no cemitério da terra que o viu nascer, Alguber, no jazigo da família.
Militante comunista, pertenceu à nova geração de quadros do P*P, formada sob a direção de Bento Gonçalves, na primeira metade da década de trinta. Em 1935 integrou o secretariado, mas no final desse ano foi preso e, apesar de ter sido condenado a uma pena de multa, foi deportado para o Tarrafal, onde permaneceu até ser amnistiado em 1940.
De regresso ao continente, dirigiu o grupo de militantes recém-libertados, que levaram a cabo a reorganização do partido de 1940/41. Neste último ano procurou, sem resultados, retomar os contactos com a Internacional Comunista. Em agosto de 1942 foi novamente preso e mais uma vez enviado para o Tarrafal, de onde saiu em 1945, de novo em virtude de uma amnistia.
Em julho de 1946 tomou parte no IV Congresso do P*P, sendo eleito para o C.C.. Foi um dos mentores da chamada «política de transição», 1945-1948, que foi considerada uma «tendência direitista e oportunista», pelo que foi obrigado a autocriticar-se.
Durante os anos 50 readquiriu alguma preponderância no seio do aparelho partidário, voltando a ocupar funções no secretariado. Preconizou a via da «solução pacífica para o problema político português», 1956-1959, formalmente adotada pelo P*P no seu V Congresso em 1957, onde apresentou o informe político do C.C..
Esta linha política retomava, no essencial, boa parte dos conteúdos da «política de transição» da década anterior e foi objeto, a partir de 1960, de uma severa crítica que a classificou de «desvio de direita». O seu papel na defesa da «solução pacífica» terá estado na origem da sua expulsão do partido em 1961, sob o pretexto de ser homossexual. Entretanto, havia sido preso mais uma vez em agosto de 1960 e só seria libertado dez anos mais tarde, não voltando a retomar a atividade política.
Foi Presidente, de 1974 a 1976, da 1ª Comissão Administrativa do concelho do Cadaval, cuja nomeação foi pelo Ministro da Administração Interna a 16 de setembro, pós 25 de Abril, tendo, ainda após esta Revolução, feito uma reaproximação ao seu partido de sempre, o P*P.
Ainda no Cadaval, debateu-se pela construção de um museu municipal, no edifício que havia sido sede do primeiro município (e onde, posteriormente, foi a cadeia), chegando a pedir à fundação Calouste Gulbenkian um subsídio para a sua construção. Ele próprio chega a mandar abater os cedros da sua quinta para se utilizar a madeira nesta construção. Tinha a intenção de doar a esse museu o seu espólio de armas antigas, quadros e livros, no entanto, tal verba, apesar de ter sido disponibilizada, nunca chegou a ser utilizada.
Faleceu em 1980, tendo doado à Academia das Ciências de Lisboa o acervo bibliográfico composto por 1734 monografias, 10 títulos de publicações periódicas, maioritariamente das áreas da História e da Política, e ainda 15 caixas de documentação do seu arquivo pessoal, além de todas as suas propriedades situadas na freguesia de Alguber. Doou, ainda, à Sociedade Desportiva e Recreativa de Alguber os terrenos onde se veio a construir a sua sede social e também algumas das suas terras, pequenas parcelas, aos seus rendeiros.
in: MUNICÍPIO DO CADAVAL. Rostos e memórias I. Cadaval: Município do Cadaval, 2014.