17/09/2026
𝗔 𝗥𝗶𝗯𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗱𝗮𝘀 𝗡𝗮𝘂𝘀: 𝗼 𝗽𝗿𝗶𝗺𝗲𝗶𝗿𝗼 𝗲𝘀𝘁𝗮𝗹𝗲𝗶𝗿𝗼 𝗹𝗶𝘀𝗯𝗼𝗲𝘁𝗮 𝗱𝗮 𝗮𝘃𝗲𝗻𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗺𝗮𝗿𝗶́𝘁𝗶𝗺𝗮 𝗽𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝘂𝗲𝘀𝗮
Apesar da importância de Lisboa para a navegação desde tempos recuados e do papel central que viria a assumir nos Descobrimentos, no século XV a cidade ainda não dispunha de grandes infraestruturas portuárias. Existiam tercenas, varadouros e locais de ancoragem dispersos pela frente ribeirinha.
Foi durante o reinado de D. Manuel I que esta realidade se transformou. No final do século XV, o rei mandou construir um novo palácio junto ao Tejo, o Paço da Ribeira, cuja implantação reorganizou toda a zona de acordo com as necessidades das viagens ultramarinas. A nascente, grandes aterros deram origem a um terreiro com um cais monumental, o Cais da Pedra; a poente, instalaram-se novas tercenas. Entre Cata-Que-Farás e Santos, os chãos da ribeira foram destinados à construção e ao armamento naval.
Nascia assim a Ribeira das Naus, um verdadeiro complexo industrial sob administração régia, onde se concentravam diversas atividades ligadas à construção naval.
O terramoto de 1755 destruiu a Ribeira das Naus e o Paço da Ribeira. Ainda nesse ano, um alvará destinou o espaço ao novo Arsenal da Marinha, integrado na reconstrução da cidade. As obras começaram em 1759, segundo projeto de Eugénio dos Santos, incluindo duas carreiras de construção, duas docas, armazéns e oficinas. Em 1792 foi ainda construído um dique ou doca seca, que, devido a problemas de funcionamento, permaneceu praticamente inoperacional durante grande parte do século XIX, até à construção de uma porta-batel, em 1877.
As profundas transformações da construção naval e a inadequação das instalações para a construção e reparação de navios modernos levaram à transferência gradual do Arsenal da Marinha para o Alfeite, entre 1917 e 1939.
A demolição e o aterro de parte das estruturas pombalinas permitiram a abertura da Avenida Ribeira das Naus, em 9 de agosto de 1948. A área restante passou a integrar o espaço dos edifícios envolventes, onde foram instalados diversos serviços da Marinha.
O Projeto de Requalificação do Espaço Público da Ribeira das Naus, iniciativa municipal que, em 2014, integrou arqueólogos do CAL na sua equipa, procurou recuperar a memória histórica deste lugar e devolvê-la à fruição pública.
A antiga geometria da Ribeira das Naus foi parcialmente recuperada com a eliminação da barreira física das instalações da Marinha e a deslocação da via para sul, acompanhando a linha de costa. Foram também construídos dois planos inclinados relvados, evocando as antigas rampas de varadouro, e dois pontões, que remetem para os pontões que ali existiram no passado.
A intervenção permitiu ainda trazer novamente à luz e integrar na paisagem urbana estruturas antigas, como a Doca da Caldeira e a Doca Seca, e os pavimentos em laje calcária que as envolviam.
Quantas vezes passou pela Ribeira das Naus sem perceber a história deste lugar?
Quando lá voltar, não se apresse… observe.
Texto de Cristina Nozes (Arqueóloga do CAL)
Para saber mais → Caessa, A.; Nozes, C. (2020) – Intervenção Arqueológica na Ribeira das Naus (Santa Maria Maior – Lisboa). Relatório Final. Lisboa: Centro de Arqueologia de Lisboa [policopiado].