11/06/2026
𝗔 𝗮𝗿𝘁𝗲 𝗿𝘂𝗽𝗲𝘀𝘁𝗿𝗲 𝗱𝗼 𝗩𝗮𝗹𝗲 𝗱𝗼 𝗧𝗲𝗷𝗼
A identificação do complexo rupestre do Vale do Tejo em 1971, antecedeu a submersão de vários núcleos pelo regolfo da Barragem do Fratel, tendo o registo das gravuras iniciado nesse mesmo ano. Cinco anos depois, o preenchimento da albufeira do Fratel inundou os sítios arqueológicos.
O inventário inicial de 1971 evitou a perda total de informação científica antes da inundação dos núcleos pela infraestrutura hidroelétrica.
Muito se deve ao arqueólogo Eduardo da Cunha Serrão o avanço das campanhas de levantamento e registo das gravuras. Esse grupo ficou conhecido como a “Geração do Tejo”.
A "Geração do Tejo" refere-se ao grupo de jovens estudantes e arqueólogos voluntários que, a partir de 1971, liderou as campanhas de salvamento arqueológico no Vale do Tejo. A sua rápida intervenção permitiu salvar e catalogar o importante complexo de arte rupestre, antes da submersão das gravuras causada pela construção da Barragem do Fratel.
Liderada por Eduardo da Cunha Serrão, esta equipa desenvolveu o primeiro projeto de arqueologia territorial a acompanhar uma grande obra pública em Portugal.
Devido à urgência, a equipa adotou a técnica de moldagem em látex. Esta inovação permitiu criar moldes e cópias exatas das rochas gravadas, salvaguardando a sua existência.
Património: Este complexo rupestre do Vale do Tejo é considerado um dos maiores conjuntos de arte rupestre europeus, datando essencialmente de períodos pré-históricos.
As campanhas do Tejo funcionaram como um "batismo arqueológico" e fundaram vocações para toda uma geração de investigadores que mais tarde viriam a moldar a arqueologia e a museologia em Portugal (Silva, 2011). Entre os nomes a destacar estão Francisco Sande Lemos, Jorge Pinho Monteiro, Vítor Oliveira Jorge, Susana Oliveira Jorge, Maria de los Ángeles Querol, António Martinho Baptista, Luís Raposo, António Carlos Silva, Manuela Martins, Teresa Marques, Vítor Serrão, João Ludgero Gonçalves e Mário Varela Gomes.
A Arte Rupestre do Tejo é uma arte essencialmente do Neolítico, onde se distinguem vários períodos estilísticos dos grupos humanos que se dedicavam à agro-pastorícia, entre os V e III milénios a.C.
Abundam os cervídeos, cenas de caça, antropomorfos, figuras solares e bucrânios (representação de bovídeos).
A ação da “Geração do Tejo” inscreve-se, assim, como um gesto fundador simultaneamente científico e ético, onde o salvamento urgente de um património ameaçado se converteu na génese de uma consciência arqueológica moderna, capaz de articular memória, território e responsabilidade patrimonial face à irreversibilidade da perda.
Bibliografia:
Baptista, A.M. (2006): “A Arte Rupestre do Vale do Tejo” – Câmara Municipal de Vila Velha de Rodão.
Baptista, A.M. (2024): “Memórias arqueológicas do Vale do Tejo”. Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão.
Gomes, M.V. (1987): Arte Rupestre do Vale do Tejo. In “Arqueologia no Vale do Tejo” – IPPC/ Departamento de Arqueologia. Lisboa, 1987
Silva, A.C. (2011): Nos 40 anos do início da descoberta da Arte Rupestre do Tejo – A geração do Tejo. Açafa, nº 11.
Texto de Carlos Didelet CAL (Centro de Arqueologia de Lisboa)