16/12/2025
CONTO DE NATAL
ANOS 60, A BORDO DUMA FRAGATA A V***R
Tínhamos largado da base, no dia 22 de Dezembro, para uma missão inopinada, com regresso previsto para o dia 24. Mas a missão prolongou-se e só viemos a entrar no dia 26.
Na tarde de 24, a azáfama entusiasmante era grande para todos aqueles que tinham saído de quarto ao meio-dia:
Na oficina de máquinas, dois artistas, anunciadores da arte de Joana de Vasconcelos, construíam a árvore de Natal, com ferros velhos, fios de apara do torno-mecânico e desenhos recortados, de uma velha folha-de-flandres, com carrinhos, comboios, estrelas…;
Os sinaleiros decoravam as anteparas, já cansativas do verde-ervilha, com as bandeiras do código de sinais;
Os electristas, com as lâmpadas da iluminação de gala engalanavam, em arraial, o refeitório;
Na cozinha, os cozinheiros e o padeiro esmeravam-se, fazendo milagres com o pouco que tinham.
A bagalhoça (1) que se fazia sentir desde a saída, com o cair da noite começou a abrandar, tornando-se numa noite de calmaria de lua cheia, mercê da arte do Comandante e do seu “Pêro de Alenquer,” o navegador, OU PELA MAGIA DA NOITE NATALÍCIA.
Já sentados, para a noite de consoada, os que tinham “noite de paquete” (2) envergaram o uniforme 3B (3).
O Comandante, homem normalmente muito reservado, contava histórias pitorescas da sua comissão na Índia, quando 2º Tenente, contrastando com o Imediato, sempre muito falador e expansivo que mantinha apenas o seu sorriso envaidecido e orgulhoso com o desempenho natalício da sua guarnição, na maior parte, jovens, muito jovens que nunca tinham sido meninos. Alguns deles, prestes a irem para a guerra, onde o Natal é apenas feito de esperança, sem árvore de Natal decorada com carrinhos, comboios e estrela anunciadora, recortadas de uma velha folha-de-flandres.
Cantámos canções de Natal, intercaladas com um ou outro fado sempre com as saudades de Lisboa.
O Sargento Artilheiro, Ventura, do alto do seu metro e noventa, declamou poesia, com o seu vozeirão bem colocado.
Falámos dos usos e costumes das terras de cada um.
O mais pequenote, com feições a lembrar ainda as de menino, ao sair de quarto, à meia-noite, surpreendeu-nos, qual estrela anunciadora, ao entrar no refeitório, com o corpo e o cabelo ainda a escorrer da chuveirada, rápida, porque num navio a v***r a aguada é um bem precioso e propulsivo, envergando apenas a toalha da ordem a fazer de fralda, com alto choro de bebe, “JÁ NASCI! JÁ NASCI!” Tendo-lhe valido a alcunha de “Menino Jesus” por umas boas décadas.
A consoada prolongou-se até às cinco horas da manhã, de modo a possibilitar a todos que, iam saindo de serviço, tivessem a sua noite de natal.
Todos tiveram um presente individual de natal com duas quadras rimadas e bem-humoradas, elaboradas por um descendente de Bocage.
Só não houve missa do galo, por não termos a bordo nenhum Capelão. Também eles muito envolvidos na guerra e no sofrimento.
Obrigado, Camaradas por essa noite de MAGIA INESQUECÍVEL.
………….
Texto de contracapa: Como quase todos os Contos de Natal são apenas fruto das imaginações férteis, natalícias dos seus autores, este também não foge à regra, até porque nunca naveguei numa Noite de Consoada. Mas se tivesse acontecido tinha sido assim, com mais ou menos vírgulas.
TENHAM UM BOM E FELIZ NATAL, quer a navegar, atracados ou em terra firme. E aqueles e aquelas que vivem perto do mar, olhem-no e tenham um pensamento para com todos aqueles que nele navegam, porque há homens e mulheres para tudo, até para navegar numa NOITE DE CONSOADA.
Tenham, também, um pensamento, uma reflexão, para com todos aqueles, por esse mundo fora, em que NATAL é, ainda apenas, sinónimo de ESPERANÇA, ESPERANDO A ESTRELA ANUNCIADORA DE UM BEBE CHORÃO, porque os reis, ofuscados pelo ouro, não a enxergam nem a querem ver.
Notas de rodapé:
(1) “Bagalhoça”: mar encrespado, alteroso.
(2) “Noite de paquete”: Folga entre o quarto da meia-noite até às 4 da manhã e o quarto seguinte, quarto da alva.
(3) “3B”: Uniforme de saída de licença, de passeio.
Obrigado a todos pela vossa paciência da leitura até ao fim. BEM-HAJAM!