04/06/2026
"Há quem passe a vida à procura do futuro..."
"Há quem passe a vida à procura do futuro; outros acabam por descobrir que o futuro estava escondido naquilo que os antigos já sabiam."
Há livros que se lêem. E há livros que nos lêem a nós. "O Poema Infinito – Livro Segundo", de João Madureira , pertence a essa rara categoria de obras que parecem nascer da mesma matéria de que são feitas as montanhas, os caminhos antigos e as memórias que recusam morrer.
Ao longo do seu percurso literário, seja nos romances, na poesia ou nas crónicas, João Madureira tem regressado sempre a um mesmo território essencial: o lugar onde o tempo encontra a memória e onde a experiência humana resiste ao esquecimento. Nas suas páginas surgem aldeias, ruínas, silêncios, fronteiras, paisagens interiores e exteriores que não são apenas geografia; são formas de pertença. São perguntas lançadas ao futuro. São heranças entregues às gerações seguintes. É talvez por isso que a sua escrita nunca parece verdadeiramente concluída. Continua. Caminha. Procura. Como se cada poema fosse apenas mais um passo de uma viagem maior.
Tive a honra de assistir ao lançamento desta obra por convite do autor. E saí com uma impressão simples, mas profunda: há escritores que escrevem sobre o seu tempo e há escritores que escrevem contra o esquecimento do seu tempo. João Madureira parece pertencer ao segundo grupo.
Num país frequentemente distraído com o imediato, a sua voz insiste em olhar para aquilo que permanece. A aldeia. A memória. A cultura. A dignidade das pessoas comuns. A beleza discreta das coisas que não aparecem nos grandes centros de decisão mas que sustentam a alma coletiva de Portugal.
Talvez por isso a sua obra seja difícil de aprisionar em categorias. Não fala para uma tribo. Não serve uma moda. Não procura agradar ao espírito do momento. Há nela uma fidelidade persistente a certas permanências humanas que atravessam gerações e ideologias. E talvez seja precisamente aí que reside a sua atualidade.
Os bons leitores saberão encontrar nas entrelinhas um percurso. Não um percurso partidário, mas um percurso de maturação. Como quem atravessa longas estações da vida e vai trocando certezas por consciência, slogans por experiência, abstrações por rostos concretos. Como quem descobre que a realidade tem mais raízes do que teorias e que as comunidades sobrevivem menos pelas promessas do futuro do que pela memória daquilo que as trouxe até aqui.
Há uma frase invisível que parece acompanhar muitas das páginas deste livro: por vezes, regressar à terra não é voltar atrás; é finalmente perceber de onde se partiu.
Num concelho como Montalegre, onde a identidade continua a ser uma forma de resistência e de esperança, obras desta natureza possuem um valor que ultrapassa a literatura. São património vivo. São ferramentas de continuidade. São pontes entre gerações.
Por isso, f**a também uma palavra de gratidão. Pela obra. Pela presença. E pela possibilidade de aproximar cultura, comunidade e cidadania. Portugal precisa de escritores que conheçam o peso da memória. Montalegre precisa de os ouvir. E os montalegrenses merecem continuar a encontrar, na literatura, razões para acreditar que aquilo que somos ainda importa.
Porque um povo começa a desaparecer quando deixa de contar a sua história. E continua infinito enquanto houver quem a escreva.
Jorge Campos
Miguel Pinto Luz CHEGA - Distrital de Vila Real CHEGA - Montalegre Rádio Montalegre Município de Montalegre 🇵🇹