11/08/2026
Há lugares que não são apenas espaços onde nascemos: são parte de nós, das nossas memórias, dos nossos afetos e daquilo que somos. É assim que Ida Santos recorda as suas Almeijoafras, a “Aldeia Grande” onde nasceu, cresceu e se fez mulher. Um regresso às raízes, vivido através das recordações da infância, das tradições, da família, das amizades e das brincadeiras que marcaram os primeiros anos de uma vida. Um testemunho carregado de emoção, onde o passado se reencontra com o presente e onde cada memória guarda um pedaço da sua história.
ALMEIJOAFRAS - ALDEIA ONDE NASCI
OLHANDO PARA TRÁS, E MUITO ATRÁS…
VEJO ASSIM A MINHA ALDEIA
Não é de ânimo leve que tentarei conseguir fazer um recuo às minhas Almeijoafras, (Aldeia Grande) onde nasci, cresci e fiz-me mulher!
Aldeia onde construí as minhas primeiras vivências;
Onde tentei sorver todos os hábitos e Tradições;
Onde segui a educação dada por minha Mãe e toda a minha família;
Onde fiz Amizades com toda a vizinhança, tendo criado laços de sangue com alguma dela, como de família se tratasse;
Aldeia, onde brinquei muito na meninice com as minhas amigas, e continuei a descer à brincadeira com todas as crianças, sempre… até a vida, me fazer dar um salto, para chegar a meta proposta, por mim e minha Mãe.
Aldeia, onde ainda hoje, me ressoa a maneira de falar de muita gente que tanto considerei e considero e que hoje revivo, aqueles falares que me tocam no coração, falares que se usaram por força das circunstâncias; essas mesmas pessoas, não tinham outra maneira de falar. Não sabiam ler nem escrever.
Aldeia, onde a maioria de sua gente, trabalhava no campo do nascer ao Pôr do Sol!Onde o rumor começava com a aurora da manhã.Onde os galos, eram despertadores andantes, e pela minha rua desciam os rebanhos acompanhados de ´moiral` e cães.Onde os burricos e carroças, começavam cedo a levantar em cachoeira o pó das ruas e a passarada, começava o seu chilreio!
Aldeia onde acordava ao som do zunzum do Moinho do Cerro grande;
Aldeia onde portas, se abriam de par em par até à noite, à luz do candeeiro a petróleo;
Aldeia onde havia duas ´vendolas` sendo uma delas, a Venda da Deta, uma mercearia, com uma cabine telefónica, onde chegava o carteiro que levava, distribuía e deixava a correspondência.
Aldeia onde havia uma Escola; onde fiz as antigas 1ª e 2ª classes;
Aldeia onde havia sapateiros, um barbeiro e, pertinho na Aldeia Pequena, uma padaria;
Aldeia onde, todos os dias iam os arrieiros ou peixeiros para vender o peixinho fresco, vindo de Albufeira e dos Olhos de Água.
Aldeia onde nos tempos vagos, as mulheres ainda faziam empreita de esparto para fazer alcofas e os alcofões, os quais vendiam para ajudar na sobrevivência da família;
Uma Aldeia onde havia uma parteira ( minha avó Paterna) que trazia os bebés à luz do dia e a quem toda aquela gente, chamava Comadre Emília Cordeiro.
Aldeia onde, nas noites de Inverno, se faziam serões à lareira, (se a havia…) e se confraternizava.
Aldeia onde se ajudavam e viviam em união;
Aldeia onde se ia à ribeira lavar a roupa, e também usá-la, em jeito de praia;
Uma Aldeia cheia de tradições, a saber: Rezar o terço na Quaresma numa casa habitual! Contratos pela Quaresma entre a garotada e adultos. Onde sempre se cantaram as Janeiras, de porta em porta, à noite ao luar.Onde se faziam alguidares de filhós polvilhadas de açúcar e canela. Onde havia a matança do porco, que era uma festa! As descamisadas do milho se faziam de noite, à luz duma lanterna. Onde havia a festa da “Adiafa” quando terminavam uma tarefa, em que a vizinhança colaborava… Onde estalavam as fogueiras de alecrim dos Santos Populares e se faziam os mastros.Onde se festejava com belos doces e licores caseiros, o dia 1º de Maio.`Onde pela Páscoa, se faziam os belos folares.Onde era hábito os netos ao Domingo, visitar para seus avós.Onde nós raparigas, aprendíamos a ajudar as mães, na tarefa da casa e outras coisinhas mais, tais como: crochet ( renda), malha, bordados de ponto russo, ponto cruz… e outros mais.
-Aldeia onde a criançada, brincava na rua, aos mais diversos jogos:Raparigas às rodas, ao talarão, ao jogo de esconder e tantos outros…Os rapazes ao pião, ao berlinde, ao eixo, à bola de trapos…
Aldeia onde, enfim, hoje penso que era Feliz, embora não o suficiente, para chegar onde ambiciona, pois com tristeza o digo a vida na Aldeia, não chegava para sair daquela forma de vida, dos nossos progenitores.
A CERTA ALTURA DEU-SE A REVIRAVOLTA
Aldeãs e Aldeãos, começaram a sentir que algo faltava e ganharam “asas” para sair e procurar uma vida diferente.
Começou a debandada para Lisboa e para a emigração: os primeiros para a Venezuela a seguir para a França, outros, a caminhar para a capital, para se aventurarem a uma vida diferente da dos pais. Outros ainda, a tentarem chegar onde ambicionaram, um dia, e foram obrigados a se ausentar também. Este foi o meu caso.
A pouco e pouco, o tempo, começou a ceifar a vida dos nossos progenitores e amigos, e assim a Aldeia começou a ficar vazia, fria, sem calor das nossas gentes… Já sem crianças, ouve-se na Aldeia agora, uma mistura de línguas, na qual a nossa parece estar em minoria… Vicissitudes da nossa vida!
Ainda assim, as nossas gentes, espalhadas por aqui e acolá, trazem o seu ´Torrão no coração, embora lhes vão faltando as raízes…
Recua-se e revive-se, Mas dói, ver que continua uma Aldeia bonita, embora tão diferente daquela que foi a nossa, um dia!...
Serei sempre uma aldeã ferrenha. Outrora, uma ´montanheira`…
Ida Maria Vieira dos Santos Guia
in ( Um Pedacinho de mim na aldeia onde nasci)
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