01/09/2026
As laranjas e outras frutas na Botica e Hospital da Misericórdia de Penafiel.
A laranja e a flor de laranjeira tiveram sempre, ao longo dos séculos, um papel importantíssimo na medicina.
Nos finais do século XVIII e nos inícios do século XIX, o médico do partido da Câmara Municipal e da Santa Casa, António de Almeida, recomendava o sumo de laranja ou de moça, bem como, peras assadas e caldos de galinha com ervas, tais como azedas e borragens, para curar a febre tifoide.
Ainda o mesmo físico, para a cura da febre tifoide, referia a importância do "Cozimento" feito à base de chicória, escorcioneira, azedas, aleluia, entre outras, onde se infundiam tamarindos dissolvidos em cremor tártaro, adoçado com oximel simples ou xarope de casca de laranja, na quantidade de 4 onças.
António de Almeida sublinhou a importância, na 1.ª fase da febre tifoide, o uso de laranjas sobre diversas formas, para curar a dita doença.
Na Botica da Santa Casa era, assim, usual encontrar-se para venda o xarope de casca de laranja e a própria botica adquiria em quantidade laranjas azedas para confecionar xaropes e infusões, para tratamento de diversas maleitas.
Não só as laranjas, mas outras frutas eram muito utilizadas para a confeção de variadas mezinhas, nomeadamente as tâmaras da Índia.
Contudo, o consumo excessivo de fruta por parte dos penafidelenses, nos finais da centúria de 700, inícios da centúria de 800, levou, também, a reparos por parte deste médico. Segundo ele, esse consumo excessivo levava a doenças como as diarreias e a coqueluche, sobretudo, porque, muitas vezes, eram consumidas ainda verdes.
As árvores de fruta estendiam-se ao longo dos cursos de água, por todo o território, permitindo a sua colheita fácil. A existência de muitas árvores de fruta no concelho dever-se-ia, provavelmente, à obrigação imposta na 1.ª metade do século XVII, de plantarem essas árvores no concelho.
As Memórias Paroquiais de 1758, referem em várias freguesias essas frutas. Abragão, por exemplo, não era das mais produtivas em frutas, tendo algumas maçãs e peras. Por sua vez, a freguesia de Arrifana de Sousa, segundo o que o pároco da altura referiu, possuía muita fruta. Também Boelhe produzia muita fruta, como maçãs, peras, pêssegos, ameixas, laranjas, melões e melancias. Já em Entre-os-Rios, o padre referiu que havia fruta doce e de espinho. Em Luzim abundavam as castanhas, peras, maçãs, laranjas azedas, cultivadas para se vender a casca, e laranjas da china, bem como muitos limões doces e azedos. Milhundos também tinha muita fruta, essencialmente castanhas. Por sua vez, em Portela, o pároco referiu que a abundância de águas que vinham da serra do Mozinho, tornavam o vale bastante "frotiforo", produzindo, assim, muitas frutas de diversas qualidades. Rio de Moinhos era bastante fértil em fruta, bem como, Santiago de Subarrifana que tinha muitas maçãs, peras, cerejas, castanhas e nozes.
Esta vasta produção levava a que a população se alimentasse, facilmente, deste produto.
A leitura dos Tombos da Companhia de Jesus de 1593, que descrevem as propriedades da Mesa Abacial de Paço de Sousa, nesta zona do Vale do Sousa, mostram já uma relevante existência de árvores de fruta, como pode ver em:
https://arquivomunicipal.cm-penafiel.pt/LBWOPAC/search/results?q=tombo&p=7A6DD6B9-BA76-4EF6-A91F-F6E19EA78DAA&s=&ClassificationPlanItemID=
Mas se consultarmos o Tombo da Comenda da Ordem de Cristo de São Martinho de Arrifana de Sousa de 1718 - 1719, verifica-se a grande quantidade de laranjais e outras árvores de fruta na região. Pode consultar em: https://arquivomunicipal.cm-penafiel.pt/LBWOPAC/Register/Index/c8338b01-36f2-4ef6-b0a5-b5509631eb24
Também o Tombo da Igreja de São Mamede de Recesinhos, que descreve as propriedades em São Mamede Recesinhos, Castelões, Caíde, Bustelo; Boelhe, possui imensas referências a pomares. Veja em: https://arquivomunicipal.cm-penafiel.pt/LBWOPAC/Register/Index/6268e823-8556-485e-a6b0-5fba4581b053
Já agora, sugerimos a leitura do livro de Anabela Ramos "Laranjas de Portugal, Séculos de cultivo e consumo", da Ficta Editora, bem como, o artigo "O papel dos alimentos na cura dos corpos no Hospital de Penafiel (séculos XVIII - XIX), de Sofia Fernandes, disponível em: https://www.academia.edu/27092946/O_papel_dos_alimentos_na_cura_dos_corpos_no_hospital_de_Penafiel_s%C3%A9culos_XVIII_XIX_
Imagem meramente ilustrativa.