06/09/2026
DIRIGIR UM NÚCLEO DA LIGA DOS COMBATENTES: UMA MISSÃO CADA VEZ MAIS EXIGENTE
Há algum tempo, li um artigo do Professor Doutor António Alexandre Nobre Evaristo, Presidente do Núcleo da Batalha da Liga dos Combatentes e Coordenador da Área Social do CEAMPS — Centro de Estudos e Apoio Médico, Psicológico e Social da Liga dos Combatentes, intitulado “SIMPLESMENTE PERENIDADE”.
A reflexão que então fez sobre o futuro da Liga dos Combatentes ficou-me na memória. Talvez porque se aproxima também o final do atual mandato dos corpos dirigentes do Núcleo de Peniche da Liga dos Combatentes e começa a ser necessário preparar, com tempo, a passagem do testemunho, dei por mim a refletir sobre uma questão que considero fundamental: como garantir a continuidade da missão dos Núcleos da Liga dos Combatentes?
A questão ganha ainda maior signif**ado quando olhamos para a realidade que nos rodeia. A geração dos antigos Combatentes, que durante décadas deu rosto, memória e identidade aos Núcleos, está naturalmente a envelhecer. Muitos daqueles que construíram e mantiveram esta Instituição ao longo dos anos vão-nos deixando.
Não podemos substituir aqueles que partiram. Podemos, contudo, assegurar que a missão que assumiram continua viva e que os valores que nos legaram permanecem presentes no futuro da Liga dos Combatentes.
DIRIGIR UM NÚCLEO É ASSUMIR UMA MISSÃO
Dirigir um Núcleo da Liga dos Combatentes não é apenas ocupar um cargo. É assumir uma missão e uma responsabilidade perante os Combatentes, as suas famílias, os associados e a própria Instituição.
Um dirigente deve exercer as suas funções com sentido de missão, responsabilidade, disponibilidade, profissionalismo e, sobretudo, pelo exemplo. Deve estar presente na vida do Núcleo, não apenas nos momentos solenes, mas também no quotidiano associativo: nas cerimónias, nos eventos, nas reuniões, nas atividades, no contacto com os associados e, sobretudo, nos momentos em que um Combatente ou uma família necessita da presença do Núcleo.
A liderança faz-se estando presente: ouvindo, acompanhando, decidindo, procurando soluções e assumindo as responsabilidades inerentes às funções que foram confiadas. É uma responsabilidade exercida durante três anos, em regime de voluntariado, sem remuneração, que exige tempo, compromisso e dedicação. Por detrás de cada cerimónia, atividade, homenagem ou apoio prestado existem horas de preparação, contactos, reuniões, deslocações e decisões que nem sempre são visíveis para quem está de fora.
Valorizar o voluntariado é também valorizar quem se disponibiliza para servir.
E este é um dos grandes desafios do associativismo atual: encontrar pessoas com disponibilidade, sentido de responsabilidade e vontade de dedicar parte do seu tempo a uma causa coletiva, sem qualquer benefício financeiro.
UMA MISSÃO QUE GANHA CADA VEZ MAIOR IMPORTÂNCIA
Entre as muitas missões dos Núcleos, a presença nos funerais dos antigos Combatentes assume uma dimensão particularmente signif**ativa. Acompanhar um Combatente no seu último momento, prestar-lhe homenagem e estar junto da sua família é muito mais do que cumprir uma formalidade. É um dever de memória, de reconhecimento e de gratidão. A realidade do Núcleo de Peniche é elucidativa. Desde janeiro de 2024, já ocorreram 25 óbitos de sócios combatentes.
Não são apenas números.
São 25 Combatentes, 25 famílias e 25 momentos em que a Direção do Núcleo esteve presente, através do Porta-Guião e da Bandeira Nacional, cumprindo o protocolo e as honras fúnebres legalmente estabelecidas.
Cada presença representa uma forma de dizer às famílias que aquele Combatente não foi esquecido e que a Liga dos Combatentes continua a honrar aqueles que serviram Portugal.
E queremos continuar a estar presentes.
Mas esta realidade demonstra também que, à medida que os anos passam, esta missão exigirá cada vez mais pessoas disponíveis para colaborar, participar e assegurar a continuidade da presença da Liga junto dos seus Combatentes e das suas famílias.
É aqui que a renovação deixa de ser apenas uma necessidade administrativa ou eleitoral e passa a ser uma necessidade de continuidade da própria missão da Instituição.
RENOVAR SEM PERDER A IDENTIDADE
A renovação da Liga dos Combatentes não passa apenas pela substituição dos dirigentes. Passa também pela capacidade de aproximar novas gerações de Combatentes, novos associados e a própria sociedade da missão, dos valores e da história da Instituição.
Neste domínio, merece particular destaque o Programa Estruturante “Passagem do Testemunho”, através do qual a Liga procura contribuir para a transmissão, entre gerações, da memória, dos valores e do legado dos Combatentes. O subprograma “Dos Avós aos Netos” assume aqui especial signif**ado, ao aproximar gerações e permitir que histórias, experiências e memórias daqueles que serviram Portugal sejam conhecidas e valorizadas pelos mais jovens.
Preservar a memória não signif**a apenas olhar para o passado. Signif**a criar condições para que essa memória tenha futuro.
Ao mesmo tempo, é uma realidade que não tem sido fácil trazer para a Liga muitos dos militares que participaram em missões de paz ou humanitárias e que atualmente se encontram nas situações de reserva ou de reforma.
Importa compreender melhor as razões desta realidade e encontrar novas formas de aproximação, participação e envolvimento.
A experiência do Núcleo de Peniche mostra-nos que respostas concretas podem aproximar os Combatentes da Liga dos Combatentes.
Um exemplo é a medida implementada pelo atual Executivo da Câmara Municipal de Peniche, através dos SMAS, que permitiu o acesso dos antigos Combatentes do Ultramar à tarifa social da água. Para além de constituir um benefício concreto para os seus destinatários, esta medida contribuiu também para a entrada de novos associados no Núcleo.
É um exemplo de como a defesa dos interesses dos Combatentes e a capacidade de encontrar respostas para as suas necessidades podem reforçar a ligação entre os Combatentes e a própria Liga.
A renovação, portanto, não signif**a esquecer o que somos. Signif**a garantir que aquilo que somos continua a fazer sentido para quem nos sucede.
A EXPERIÊNCIA E O CONHECIMENTO TAMBÉM PODEM SERVIR
Os militares dos quadros permanentes na situação de reserva ou de reforma constituem igualmente um universo que pode dar um contributo importante à Liga dos Combatentes.
São pessoas com experiência, formação, conhecimento das Forças Armadas e competências profissionais que podem ser colocadas ao serviço dos Combatentes e da vida dos Núcleos.
A Liga dos Combatentes e os três Ramos das Forças Armadas têm naturalmente responsabilidades e necessidades próprias. Por isso, esta questão deve ser encarada através do diálogo, da cooperação e do respeito pelas responsabilidades de cada instituição.
Cabe também à própria Liga dos Combatentes assumir um papel ativo, reforçando o diálogo e procurando, junto das chefias dos Ramos, as condições que permitam facilitar, sempre que possível, a colaboração destes militares com a Instituição. Não se trata de colocar em causa as necessidades ou responsabilidades dos Ramos. Trata-se de encontrar um ponto de equilíbrio e uma solução consensual que permita aproveitar experiência, conhecimento e vontade de continuar a servir.
A Liga dos Combatentes precisa de pessoas e existem militares experientes que podem continuar a dar um contributo relevante. O desafio está em aproximar estas duas realidades.
PREPARAR HOJE O AMANHÃ
Se o atual mandato se aproxima do seu final, é também tempo de pensar no futuro.
Não devemos esperar pelo último momento para procurar quem possa assumir responsabilidades. É necessário antecipar, envolver, incentivar e criar oportunidades de participação.
Aproximar novos Combatentes, valorizar quem já colabora, incentivar o voluntariado e dar espaço a novas pessoas, novas ideias e novas formas de participação são passos fundamentais para garantir a continuidade dos Núcleos.
A sucessão não deve começar quando termina um mandato. Deve começar muito antes, através da participação e do envolvimento daqueles que poderão assumir responsabilidades no futuro.
A continuidade de uma instituição não se garante apenas preservando a sua história. Garante-se também preparando as pessoas que amanhã terão a responsabilidade de a continuar.
E esta não é apenas uma preocupação dos Núcleos.
É uma questão estratégica para a própria Liga dos Combatentes. Uma Liga forte precisa de Núcleos vivos, participativos, próximos dos Combatentes e dos seus sócios e capazes de se renovar sem perder a sua identidade.
A Liga dos Combatentes tem um passado que merece ser honrado.
Tem um presente que exige dedicação.
E tem um futuro que precisamos de preparar.
Por isso, talvez a pergunta que devamos fazer não seja apenas:
“QUEM IRÁ ASSUMIR A DIREÇÃO AMANHÃ?”
Mas, sobretudo:
“O QUE PODEMOS FAZER HOJE PARA QUE AMANHÃ EXISTAM PESSOAS DISPONÍVEIS PARA CONTINUAR ESTA MISSÃO?”
Esta não é uma questão de uma Direção, de um Núcleo ou de uma pessoa.
É uma questão que diz respeito a todos nós.
Porque a Liga dos Combatentes é feita de pessoas, de memória, de valores e, acima de tudo, da vontade de servir quem serviu Portugal. Preparar o futuro da Liga dos Combatentes é, afinal, uma responsabilidade que começa hoje.