06/08/2026
Sessão de esclarecimentos da Minerália na Borralha
Estão, neste momento, sete perfuradoras em trabalhos de prospecção nas aldeias de Paredes e Borralha. Quatro perfuradoras continuam em terrenos que o LNEG classificou como muito poluídos por metais pesados.
Enquanto isso, ontem, dia 05 de Agosto, a Minerália fez uma “sessão de esclarecimentos” informal nos seus escritórios, a pedido de um grupo de pessoas da aldeia da Borralha, bastante preocupados com tudo o que se tem passado com este projecto e com o suporte e conivência das entidades locais e nacionais.
Na sessão, esteve presente o Avelino Pinheiro, membro das empresas Minerália e da sua subsidiária Allied Critical Metals, apresentando-se no website desta última como “geólogo de exploração mineira com experiência em ouro, lítio, tungstênio e sistemas VMS. Lidera programas de mapeamento, perfuração e controle de qualidade (QA/QC) e contribui para a elaboração de relatórios em conformidade com as normas NI 43-101 e PERC.”
No entanto, para os presentes, o Avelino Pinheiro apresenta-se como Professor de Biologia/Geologia, convidado para contribuir para o projecto da Minerália, mas refere não ser esta a base da sua sobrevivência, referindo mesmo “eu não preciso disto para nada, tenho outra profissão”.
A sessão é iniciada, não com a explicação do projecto, mas para aliciar os presentes para a exploração mineira neste território Sistema Importante do Património Agrícola Mundial e Reserva da Biosfera, de onde se destaca a seguinte citação:
«Não há ferro, não há cobre (…), não há carros, não há tablets sem minas. (…) Nós compreendemos que têm de existir minas, para a maneira como nós vivemos na nossa sociedade, têm de existir minas, não há hipótese. É a mesma coisa que eu estar aqui a dizer que sou contra a agricultura, é exatamente a mesma coisa. Alias, para águas poluídas, a agricultura polui mais as águas do que as minas modernas (…).»
Em toda a sessão houve muitas questões, excelentes questões e motivo de orgulho para todos os Barrosões, neste grupo de pessoas da aldeia da Borralha, pela coragem de questionar e de procurar respostas perante argumentos que, na percepção dos presentes, procuravam convencê-los dos benefícios do projecto. Houve, inclusive, a exposição da origem deste projecto da Minerália, com raízes no Prof. Fernando Noronha, actualmente consultor da empresa, relacionado com a empresa já há décadas, juntamente com autarcas e o actual dono do antigo espólio mineiro, onde esta concessão se insere e desenvolve.
As questões foram abordadas de forma que os presentes consideraram paternalista e, por vezes, sentiram como estratégias de pressão, deixando o grupo presente insatisfeito pelas incongruências. Avelino Pinheiro afirmou, inclusive, que a água da Ribeira de Amiar ficará ainda melhor do que o que está neste momento, quando a exploração avançar. Afirmou que as queixas relativas às poeiras emitidas pela Minerália durante as prospecções, em terrenos que o LNEG classificou como muito poluídos com metais pesados, são mentira e que as pessoas não sabem do que falam. Prometeu um investimento de 400 000 € por ano, já aprovados pela empresa-mãe, para investir na comunidade. Disse também que têm interesse em contratar os Bombeiros de Salto para também beneficiar a comunidade com isso, referindo mesmo “nós temos gosto de os ajudar, comprar água aos Bombeiros para que eles ganhem dinheiro com isso”. No entanto, foi referido que a Minerália não precisaria de ajuda dos Bombeiros, uma vez que têm água com abundância do -60 ao -210 das antigas galerias da Brecha de Stª Helena. Refere que a água na “galeria do esgoto do -60 tem um caudal no Inverno de 200 litros por segundo. De Verão tem à volta de 30 litros por segundo. Tem água que chegue e que sobre para tudo e mais alguma coisa.” Refere ainda que não há impactes nenhuns na futura exploração e dá como exemplo a uma das senhoras presentes: “é como você estar a cozinhar com uma panela e dizer que impacte é que esta massa que estou aqui a fazer tem na banca”. Refere que “isto é uma indústria altamente e tecnologicamente avançada, se houver alguma fuga avisa logo na hora”.
Dos presentes, houve comentários como “de promessas estamos nós cheios”, ou “nós temos certezas do contrário daquilo que nos está a dizer”, ou “isto é tudo uma brincadeira, nós não somos ninguém, que temos aqui famílias instaladas há 100 anos ou mais”, ou ”nós, claramente, estamos aqui porque não acreditamos nisso”, ou “investimento na comunidade: Bombeiros e Lar, agora Borralha zero”, ou ainda “vocês garantem tudo, mas depois no fim… é o que acontece no extrativismo minerador a nível mundial”, ou mesmo “nós estamos atentos aquilo que vocês estão a fazer”, ou mesmo “ele agora está-nos a dar a volta ao cérebro”. Acima de tudo, houve muitas preocupações relativas à contaminação e ao abastecimento de água às populações.
Houve abertura para uma sessão de esclarecimentos pública, mas os presentes sentem não ser necessário repetir as mesmas palavras não para informar as populações, mas só com o objectivo de moldar o pensamento do outro.
É precisamente esta abordagem que nos merece preocupação. Quando uma empresa procura apresentar os benefícios de um projecto mineiro às populações directamente afectadas, através de promessas de investimento, apoios à comunidade ou garantias sobre os seus impactes, entendemos que é legítimo questionar se estamos perante verdadeiro esclarecimento ou perante uma tentativa de obter aceitação social para o projecto.
É também por isso que falamos em engenharia social: não como uma acusação sobre as intenções individuais de quem participou na sessão, mas para descrever uma estratégia que, na nossa perspectiva, procura influenciar a percepção das populações relativamente a um projecto que terá consequências directas sobre o território onde vivemos.
Não precisamos que nos convençam a aceitar uma actividade que irá destruir novamente o nosso território. Precisamos de respostas claras, fundamentadas e verificáveis sobre aquilo que está em causa.
Nós, população da freguesia de Salto e todos os que somos afectados por este projecto, estamos atentos, continuaremos a fazer perguntas, a exigir respostas e a defender o nosso território.
Não às Minas!