31/08/2026
Lula enxota Trump
Artigo de Luís Fazenda em esquerda.net
"1 - Os Estados Unidos tornaram pública a sua estratégia militar, sem muitos pudores no anúncio das suas intenções. Essa clareza está em linha com a mudança do nome do Departamento de Defesa para Departamento da Guerra. Os EUA pretendem a hegemonia militar global e disso não fazem segredo. Nem se mascaram atrás de retóricas sobre a democracia. É o interesse da potência americana, ponto. As guerras no médio oriente, e até a caricata proclamação do Estreito de Ormuz como território americano, aí estão para provar que a Casa Branca não br**ca em serviço. Nesse documento sobre a estratégia militar, entre várias abordagens para anexação ou protetorado de países terceiros, é recuperada a Doutrina Monroe. Monroe, presidente americano dos começos do século XIX, noutro contexto, tinha assumido toda a América Latina como interesse dos EUA.
2 - A prática da Administração Trump tomou isso à letra e invadiu e controla a Venezuela, estabeleceu o cerco energético a Cuba a somar ao bloqueio comercial, interferiu nas eleições argentinas, colombianas, chilenas, e noutros países, com promessas económicas associadas aos candidatos vassalos de Trump. Esta estratégia isolou os governos do Brasil, do México e do Uruguai, que mantêm governos democráticos e antifascistas. Lamentavelmente, as alianças que o Brasil urdiu com a China, os chamados BRICS, se têm alcance económico, do ponto de vista da geopolítica não acrescentam ao reforço do Brasil. Contam mais outras solidariedades. A recente Cimeira de Barcelona com Espanha, México e Brasil foi um ato encorajador para a defesa da soberania dos Estados e do Direito Internacional e funcionou como uma resposta direta aos insultos de Trump aos líderes desses países. Pena é que a União Europeia lave as mãos e não queira saber da contenda brasileira. Mais um erro de grosseira miopia estratégica.
3 - Trump já está a interferir nas eleições presidenciais brasileiras. Incluiu uma organização de tráfico de droga brasileira na lista de grupos terroristas a abater, e isso signif**a que os EUA os podem perseguir em qualquer lugar como fizeram na Venezuela. Criticou a fiabilidade do sistema eleitoral brasileiro e pretendeu enviar fiscais que não foram autorizados a entrar no Brasil. Esse ângulo de ataque vai continuar, espalhando mentiras sobre as urnas eletrónicas, invioláveis e fiscalizadas por todos os partidos. Já nas últimas eleições, a descredibilização contínua do processo eleitoral serviu de pretexto para a tentativa de golpe de Estado dos bolsonaristas e os incidentes de Brasília em 8 de janeiro de 2023. Trump já prometeu aos Bolsonaros que baixaria as tarifas comerciais impostas aos produtos brasileiros no mercado americano. Trump tem alegado que as absurdas tarifas são uma punição pela pena de prisão de Jair Bolsonaro. Esperam-se outras pressões até 4 de outubro, certamente muito amplif**adas pelas redes sociais. Milei, um dos apaniguados de Trump, insultou Lula como "lixo socialista" e "wokista", a par de outros impropérios mais tasqueiros. E Trump vai querer intervir também por interposto Milei.
4 - Lula e os dirigentes do PT, PSOL, outros partidos de esquerda e de centro, têm enfatizado a questão da soberania. Exatamente por isso, discutem no Congresso, por estes dias, a política industrial para as terras raras e minerais críticos, interditando a sua exportação bruta como pretendem os EUA.
E todas estas lideranças têm sido categóricas em assinalar que se nas eleições de 22 se decidia a democracia, nestas próximas eleições decide-se conjuntamente a democracia e a soberania. Pode dizer-se que a doutrina Monroe também vai a votos. Lula tem marcado, por um lado, uma atitude negocial com Trump e, por outro, tomado posições de muita firmeza. Trump diz que não percebe Lula e nós percebemos o que é que ele não percebe.
5 - Pode concordar-se, mais ou menos, com o posicionamento internacional do governo Lula. Discordo de várias posições conciliatórias com ditaduras em relações que não são simplesmente comerciais. Mas ninguém, à esquerda e ao centro, pode ignorar o papel mundial de Lula a favor do Direito Internacional vinculado à Carta das Nações, pela paz e pela cooperação dos povos. Argumentam alguns que a contra-hegemonia a Trump é pouco. Convém não discutir a água quando arde tudo à volta. A gravidade da situação não é um contexto, é o próprio texto. Se Trump controlar praticamente toda a América Latina, o convite para outras aventuras mundiais é mais que certo.
6 - É importante que o povo brasileiro recompense o governo Lula. Tem razões para isso, para além da soberania e da democracia. Houve sensíveis melhorias nas políticas públicas e sociais, no nível de rendimentos nem tanto, embora o desemprego esteja historicamente baixo. Lula quer destacar que nestes últimos 4 anos o Brasil saiu de novo do mapa da fome. E espera vencer no Congresso a redução do horário semanal de trabalho. Em 30 de outubro de 2022, quando Lula venceu o seu terceiro mandato, apeando Bolsonaro, disse aos delegados internacionais que o seu governo iria ser um governo democrático, respeitando a aliança entre a esquerda e a direita liberal que constituía a sua base de apoio política. Ninguém terá tido a ilusão de que vinha aí um governo de esquerda radical, salvo na propaganda da extrema-direita. É assim o tempo da resistência. Mas mesmo num quadro defensivo é possível alcançar avanços na transição social e ecológica. Em próximo governo, depois da derrota de Flávio Bolsonaro."
(Imagem IA)