28/08/2026
Como a catástrofe ocorrida no Nepal nos pode ajudar a interpretar algumas das paisagens glaciárias e fluvioglaciárias da serra da Estrela
Salvaguardando a geografia, a orografia, o relevo, a hipsometria, a escala e intensidade, o clima, a história, o impacto humano, entre muitos outros fatores, podemos estabelecer um paralelismo entre o que aconteceu no passado dia 26 de agosto, na fronteira entre o Nepal e a Região Autónoma do Tbete e algumas das paisagens pós-glaciárias da serra da Estrela.
Os depósitos fluvioglaciários, em particular a acumulação de grandes blocos graníticos, sub-rolados e rolados, nos leitos de cursos de água e áreas adjacentes são, na serra da Estrela, um dos testemunhos mais notórios do impacto das glaciações e dos períodos pós-glaciários.
Já Suzanne Daveau, em 1971, a eles se referia destacando os dos Vale de Alforfa, em Unhais da Serra, os do Zêzere, em Manteigas e os de Alvoco da Serra, em Seia. Sobre eles escreveu: “une sorte de «lave» chaotique, faite d’énormes blocs mal triés, qui débouche de la vallée autrefoisoccupée par le petit glacier suspendu d’Alvoco”.
Estes poderiam estar relacionados com eventos de fusão estremos de gelo, coincidentes com períodos de precipitação muito elevada e/ou acumulações muito elevadas de neve originando escoamentos de detritos, com grande capacidade de transporte e catastróficos (compatíveis com avalanches e inundações repentinas), como aquelas que ocorreram recentemente entre o Nepal/Tibete.
Provavelmente, este evento foi desencadeado (com as devidas reservas) pelo colapso gravítico de uma massa rochosa ciclópica, localizada a 5 200 m de altitude (ver foto), subadjacente a um glaciar, englobamento do gelo suportado, deslizamento de cerca de 1 200 m pela vertente, associado, talvez, a um bloqueio temporário do leito do rio Lhende Khola por materiais líticos da avalanche. A consequente desobstrução libertou um tal volume de água que produziu uma enxurrada repentina e catastrófica. O desprendimento rochoso terá originado o sismo que se veio a sentir mais tarde. Não se descarta, ainda, uma fragilização de uma lagoa glaciária, galgamento da água e escoamento simultâneo.
Assim, a ter sido só o desabamento da enorme massa gelada (o que não é expectável), este teria levado à sua fragmentação em milhares de blocos gelados de diferentes dimensões. Este processo potenciaria o atrito e a colisão entre os blocos de gelo desmoronados, e entre estes e o substrato, gerando calor suficiente para facilitar o degelo rápido e formar uma quantidade colossal de água, mas não com tanto poder devastador. O impacto, por si só, não teria capacidade de desencadear um sismo de intensidade 5.2 na Escala de Richter.
Por outro lado, se tivesse sido só o desalojamento rochoso, provavelmente, por si só, não teria capacidade de provocar uma deslocação de materiais de natureza tão diversa e a distâncias tão longínquas. O deslizamento não iria além das centenas de metros a jusante do local da rutura. O maior atrito, gerado pelo facto da massa rochosa não se fraturar tão rapidamente e em blocos tão pequenos como o gelo, as colisões e atritos ocorridos no seio desta amalgama de detritos e a pressão sobre o substrato rochoso do vale já teria capacidade de gerar um sismo de tal magnitude.
O que provavelmente terá sucedido?
A água resultante do degelo posterior ao desprendimento da massa rochosa terá “engolido” os blocos rochosos, isto é, a força gravítica do colapso inicial transformou-se em movimento, deformação e alteração/erosão das rochas favorecendo a incorporação de gelo, água, rocha, sedimentos e outros detritos no leito fluvial. Talvez se tenha formado uma barragem/barreira temporária.
Esta dinâmica mobilizou quantidades enormes de sedimentos que concorreram para formar uma mistura fluida e concentrada (lamacenta) que, muito rapidamente, provocou uma avalanche animada de muita velocidade e que pôde alcançar grandes distâncias.
Como se terá solto a colossal massa rochosa?
A fronteira entre o Nepal e a Região Autónoma do Tibete é um território localizado no Sistema Montanhoso dos Himalaias, a cordilheira de maior altitude do Planeta. Estas áreas estão muito expostas a fenómenos que são potenciados pela ação da força gravítica e, ao mesmo tempo, são zonas geoestruturalmente muito instáveis.
A água resultante da fusão do gelo teve um papel crucial. Funcionou como uma espécie de agente lubrificante e facilitador da enxurrada. Toda aquela massa caótica de blocos rochosos, sedimentos finos que formam a lama (esta sustenta o colapso e engloba uma diversidade enorme de detritos), vegetação, entre outros detritos deslocou-se a uma velocidade vertiginosa e alcançou uma distância de vários quilómetros com uma capacidade destrutiva imensa. Os efeitos da avalanche/inundação fizeram-se sentir, muito mais a sul no Distrito de Chitwan (Parque Nacional de Chitwan), a mais de 200 km.
A juntar a tudo isto não deve ser negligenciado o fato de, nesta época do ano, ser o período das monções, caracterizado por precipitações abundantes, naquela região do território asiático e que decerto tiveram um papel influente neste evento catastrófico.
As evidências disponíveis sugerem para uma avalanche, de gelo e rochas, associada ao desprendimento de uma massa rochosa, posterior colapso de parte de um glaciar que bloquearam o leito do rio Lhende Khola, desencadeando uma sucessão de processos capazes de potenciar rapidamente a instabilidade em alta montanha e desencadear uma devastadora inundação que em poucos minutos subiu vários metros.
O aquecimento global poderá estar a contribuir para esta instabilidade, ao alterar a dinâmica dos glaciares, do permafrost e dos ciclos de congelamento e fusão. Outros fatores como as ações antrópicas, poderão estar a acelerar a recorrência e intensidade destes fenómenos e aumentar a vulnerabilidade dos ambientes de montanha.