06/09/2026
Minha cara mãe,
meu caro pai:
"Amo os meus filhos e estou de rastos."
Podes dizê-lo.
Estás cansado.
Estás cansado de decidir o que comem, o que vestem.
Estás cansado das horas, dos trabalhos de casa, das consultas, das mensagens da escola, das actividades, das febres, dos medicamentos, dos medos, das contas, das compras, das roupas que deixaram de servir.
"Amo os meus filhos e estou de rastos."
Pronto: não aconteceu nada. Nenhuma criança deixou de ser amada, nenhum tribunal da parentalidade precisa de ser convocado.
Ser mãe ou pai não é uma prova de resistência. É uma estupidez pensar isso.
Estás de rastos e, quando eles adormecem, tens saudades deles.
É isto ser mãe, é isto ser pai.
Queremos que parem durante vinte minutos e, quando adormecem, vamos ver fotografias deles no telemóvel.
Não te sintas culpado.
Não julgues. Não te julgues.
Vais falhar.
Um dia, os teus filhos vão comer porcarias, noutro dia vão chegar atrasados, e noutro vais gritar quando não devias, e noutro vais dizer "sim" porque não tens forças para dizer "não", e noutro vais esquecer-te de alguma coisa importante, e noutro vais pegar no telemóvel quando devias estar a ouvi-los, e noutro vais estar a ouvi-los e a desejar estar a olhar para o telemóvel.
Vais fazer m***a.
Parabéns: és uma pessoa.
A tua criança não quer pais perfeitos. Ia sentir-se uma porcaria ao lado deles.
A tua criança quer adultos que peçam desculpa, que digam:
"Hoje o pai não está bem"
ou
"Hoje a mãe precisa de descansar."
ou
"Desculpa, gritei contigo e não devia."
ou
"Não sei."
ou
"Enganei-me."
A pedagogia está no interior destas frases: a pedagogia da vulnerabilidade. Há poucas mais importantes do que essa.
Meu caro pai,
minha cara mãe,
se estás de rastos, não precisas de alguém a dizer-te para aproveitares cada segundo. Precisas de alguém que te diga:
"Descansa quando conseguires".
ou
"Pede ajuda."
ou
"Divide."
ou
"Diz que não consegues."
Faz isso, por favor.
Não desapareças dentro dos teus filhos.
Eles precisam de ti.
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BENJAMIM
e os dias cheios de nada